Do acolhimento à prevenção: experiências do SUS mostram caminhos para enfrentar a violência contra a mulher

Práticas reunidas na Plataforma IdeiaSUS mostram como a escuta qualificada e a atuação em rede ajudam a prevenir a violência de gênero

Ana Karolina

Agosto é marcado pela campanha Agosto Lilás, que reforça a importância de combater a violência contra a mulher e de ampliar o acesso à informação, à proteção e aos direitos. A campanha lança luz para os diferentes tipos de violência contra a mulher, fortalece os canais de denúncia e incentiva que vítimas, familiares, amigos e comunidades reconheçam os sinais da violência e saibam como agir. Afinal, enfrentar esse problema é uma responsabilidade coletiva de compromisso contra o machismo e em prol da vida das mulheres. 

A iniciativa faz referência à sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), assinada em 7 de agosto de 2006 e reconhecida como um dos maiores marcos da legislação brasileira no enfrentamento à violência doméstica e familiar. A legislação, que transformou a forma como o país enfrenta esse tipo de violência, estabeleceu punições mais rigorosas para os agressores, criou mecanismos de proteção às vítimas e viabilizou a implementação de medidas que ajudam mulheres a romper o ciclo da violência com mais apoio.

Uma realidade que ainda preocupa

Apesar dos avanços, após quase duas décadas da criação da Lei Maria da Penha, os números da violência contra meninas e mulheres são estarrecedores. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, o país registrou 1.571 feminicídios, um aumento de 4% em relação aos 1.504 casos registrados em 2024. Na prática, isso significa que quatro mulheres foram assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. Trata-se do maior número de feminicídios desde que esse crime passou a integrar a legislação brasileira, em 2015, revelando que milhares de mulheres brasileiras ainda têm seus direitos violados todos os dias. Enquanto as regiões Norte (-20%) e Nordeste (-19,9%) apresentaram redução dos casos, as regiões Centro-Oeste (+19%), Sul (+19,2%) e Sudeste (+2,6%) registraram aumento em relação ao primeiro semestre de 2025. 

O Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e pelo Ministério das Mulheres (MMULHERES), observou, por sua vez, uma redução nacional de 2,5% nos casos de feminicídio ao longo de 2026, além de uma queda de 59 registros entre o primeiro e o segundo trimestre do ano. 

Apesar desse avanço, o cenário ainda exige atenção. Afinal, o levantamento também mostra que a violência é maior em determinados grupos: cerca de 65,1% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, evidenciando o impacto da desigualdade racial. Outro dado preocupante revela que 62,5% dos feminicídios ocorreram dentro da própria residência, demonstrando que o ambiente doméstico, que deveria representar proteção e segurança, ainda é o principal cenário da violência que ceifa a vida das mulheres.

A violência invisível 

A violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis. Antes das agressões físicas, muitas vítimas enfrentam situações de humilhação, ameaças, manipulação, isolamento e perseguição que caracterizam uma violência psicológica.

Em 2025, o Brasil registrou mais de 60 mil casos de violência psicológica contra mulheres, um crescimento de 16,9% em comparação ao ano anterior. O número representa uma taxa de 55,6 registros para cada 100 mil mulheres, reforçando a necessidade de reconhecer esses comportamentos como formas de violência que também comprometem a saúde física e emocional das vítimas.

Documentário Sala Lilás: o cuidado humanizado como inspiração

Entre as iniciativas que dão visibilidade às experiências exitosas do SUS no enfrentamento à violência contra a mulher está o documentário “Sala Lilás: atendimento humanizado no combate às violências”, produzido pela VideoSaúde Fiocruz em parceria com a Plataforma IdeiaSUS Fiocruz. Disponível no canal Futura (Globoplay) e na plataforma Fioflix, o curta apresenta o cotidiano da Sala Lilás do Hospital Municipal Victor de Souza Breves, em Mangaratiba (RJ), um serviço especializado no acolhimento de mulheres vítimas de violência, por meio de uma abordagem humanizada, multiprofissional e integrada à rede de proteção.

Ao reunir relatos de usuárias e profissionais de saúde, o documentário evidencia como a escuta qualificada, o acolhimento e o cuidado em rede podem transformar a trajetória de mulheres em situação de violência. Mais do que retratar uma realidade, Sala Lilás inspira gestores, profissionais de saúde e a sociedade a reconhecerem que o acolhimento humanizado é uma ferramenta essencial para romper o ciclo da violência e garantir cuidado, dignidade e esperança às mulheres. 

Saúde da mulher nos territórios

Em todo o país, profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) desenvolvem experiências que fortalecem o cuidado integral às mulheres, promovendo acolhimento, escuta qualificada, prevenção da violência e articulação com a rede de proteção. Essas iniciativas, desenvolvidas nos territórios e compartilhadas na Plataforma IdeiaSUS Fiocruz, demonstram como a Atenção Primária à Saúde, os serviços especializados e o trabalho intersetorial podem contribuir para identificar situações de vulnerabilidade e orientar mulheres sobre seus direitos.

Ao valorizar essas práticas, a IdeiaSUS  se firma no enfrentamento à violência contra a mulher, entendendo que a proteção também passa pela promoção da saúde. Confira algumas práticas de saúde exitosas no combate à violência contra mulher e ao feminicídio:

Vítimas de violência doméstica, sexual e outras: organização do atendimento e notificação dos casos em Marataízes (ES) 

Educação em gênero no SUS e a proteção integral à mulher em situação de violência na atenção primária 

Sala Lilás, ficha unificada e fluxo intersetorial no atendimento à mulher em situação de violência

Relato de experiência da contribuição do Cras e Gapm no empoderamento das mulheres em situação de violência doméstica em Queimadas (PB)

Educação em gênero no SUS e a proteção integral à mulher em situação de violência na atenção primária

O enfrentamento à violência contra a mulher depende da atuação conjunta do poder público e da sociedade. Conhecer os sinais da violência, acolher quem precisa de apoio, denunciar situações de risco e fortalecer as redes de proteção são atitudes capazes de interromper ciclos de agressão e salvar vidas. 

Você pode também conhecer essas e muitas outras iniciativas no banco de práticas da Plataforma IdeiaSUS Fiocruz.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por: Ana Karolina Carvalho (IdeiaSUS Fiocruz)

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