Quando escutar pode fazer a diferença: Setembro Amarelo lança luz sobre o suicídio entre adolescente

Dados mostram crescimento do suicídio entre adolescentes, enquanto experiências do SUS revelam caminhos possíveis para a prevenção nos territórios

Ana Karolina

“Escutar é estar presente”. O lema do Setembro Amarelo 2026 propõe um gesto aparentemente simples, mas cada vez mais necessário: estar disponível para ouvir quem está em sofrimento, sem julgamentos, sem pressa e sem a pretensão de oferecer respostas prontas. Mas, para além da campanha, que tem como referência o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro, os números mostram que o suicídio permanece um importante problema de saúde pública no país — e que a prevenção precisa acontecer durante todo o ano.

Milhares de pessoas morrem por suicídio todos os anos, enquanto as tentativas e as lesões autoprovocadas revelam uma dimensão ainda maior do problema. Trata-se de um fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que não pode ser explicado por uma única causa nem enfrentado por uma única área de conhecimento.

Adolescentes: uma preocupação que cresce

O Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base nos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) até 2024, revela uma tendência preocupante entre crianças, adolescentes e jovens. Entre 2014 e 2024, a taxa de suicídio entre pessoas de 10 a 19 anos aumentou 41,7% no Brasil, passando de 2,4 para 3,4 mortes por 100 mil habitantes. Embora tenha havido uma redução de 3,8 para 3,4 entre 2023 e 2024, a taxa permanece significativamente acima da registrada uma década antes.

O cenário fica ainda mais expressivo quando se observam as lesões autoprovocadas. Segundo o Atlas, a taxa de internações por esse tipo de ocorrência entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos passou de 3,7 para 6,4 internações por 100 mil habitantes entre 2014 e 2024 — crescimento de 73%.

Os dados não significam que exista uma única explicação para esse cenário. O comportamento suicida é resultado da combinação de diferentes fatores — individuais, familiares, sociais, econômicos e culturais. Por isso, compreender o sofrimento de adolescentes exige olhar para além do diagnóstico e considerar os contextos nos quais eles vivem. É, nesse ponto, que família, escola, comunidade e serviços de saúde precisam funcionar como uma rede de proteção.

Quando a vida também acontece nas redes

A discussão ganha novos contornos diante da presença das plataformas digitais no cotidiano de crianças e adolescentes. Redes sociais podem favorecer comunicação, pertencimento e acesso à informação. Mas, também, podem expor usuários jovens a cyberbullying, violência, assédio, discriminação e conteúdos relacionados à automutilação e ao suicídio. Casos recentes envolvendo adolescentes e ambientes digitais recolocaram o tema no centro do debate público brasileiro e chamaram atenção para a responsabilidade das plataformas na proteção de crianças e adolescentes.

O desafio, entretanto, é evitar explicações simplistas. Não é possível atribuir o comportamento suicida ao uso de redes sociais de forma direta ou isolada. O próprio Atlas da Violência 2026 aponta que o aumento das internações por lesões autoprovocadas entre adolescentes ocorre em um contexto de agravamento do sofrimento mental e menciona, entre outros fatores, transformações no ambiente social relacionadas à expansão das redes sociais, como cyberbullying, pressão por pertencimento e comparação social.

Para a saúde pública, portanto, isso significa ampliar o olhar: cuidar de adolescentes também é compreender os espaços — presenciais e digitais — nos quais eles constroem relações, enfrentam conflitos e expressam seu sofrimento.

O SUS como rede de proteção

Se escutar é estar presente, prevenir também significa garantir que exista alguém — e algum serviço — preparado para acolher. No Sistema Único de Saúde (SUS), a prevenção ao suicídio está relacionada a uma rede de cuidados que envolve promoção da saúde mental, identificação precoce de situações de sofrimento, acompanhamento, atendimento às crises e articulação entre diferentes serviços e políticas públicas.

É a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) responsável por organizar os diferentes pontos de cuidado em saúde mental, incluindo a Atenção Primária à Saúde (APS), os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) — que conta com unidades próprias para crianças e adolescentes —, os serviços de urgência e emergência e a atenção hospitalar. Por sua proximidade com a população e com os territórios, a APS cumpre papel estratégico. É, muitas vezes, na Unidade Básica de Saúde (UBS), durante uma consulta, uma visita domiciliar, uma atividade coletiva ou uma conversa aparentemente cotidiana, que um profissional pode identificar sinais de sofrimento e iniciar um processo de cuidado e prevenção.

Prevenção que nasce no território

Na Plataforma IdeiaSUS Fiocruz, essa perspectiva aparece em experiências desenvolvidas por trabalhadores e gestores do SUS em diferentes regiões do país. Uma delas é a Rede de Atenção e Prevenção ao Suicídio de Anastácio, no Mato Grosso do Sul, estruturada a partir de três eixos: prevenção, atenção e posvenção.

A experiência — que foi acompanhada pela curadoria da IdeiaSUS em 2023, integrando a publicação “Fiocruz é SUS: rodas de saberes, práticas compartilhadas”, bem como a série Vozes da Saúde — articula saúde, assistência social, educação, segurança pública e comunidade. Entre as estratégias estão a capacitação de profissionais para identificação e manejo dos casos e ações realizadas nas escolas, com adolescentes, abordando saúde mental, suicídio e projeto de vida.

Outra experiência reunida pela Plataforma vem de uma Unidade Básica de Saúde da zona rural de Cajazeirinhas, na Paraíba. Durante o Setembro Amarelo de 2022 e 2023, profissionais de educação física, psicologia, enfermagem, odontologia e medicina organizaram caminhadas, atividades esportivas e recreativas, aulas ao ar livre, palestras e conversas sobre saúde mental.

A iniciativa começou com 25 participantes, em 2022, e chegou a mais de 40 no ano seguinte, ampliando as ações para as escolas do campo. Além da atividade física, a proposta buscou criar espaços de convivência, acolhimento e diálogo e reduzir o estigma relacionado aos transtornos mentais e ao suicídio. É uma experiência que ajuda a ampliar a compreensão sobre prevenção: cuidar da saúde mental também é criar oportunidades de convivência, fortalecer vínculos e promover bem-estar.

Adolescentes no centro do cuidado

Entre as práticas publicadas na Plataforma está “Impacto dos grupos terapêuticos no enfrentamento da autolesão e suicídio em adolescentes”, cadastrada em 2025. A experiência integra o conjunto de iniciativas que abordam diretamente a autolesão e o comportamento suicida nessa faixa etária.

Outro destaque é a prática “Suicídio, o inimigo silencioso: precisamos falar sobre isso”, vinculada ao Programa Municipal de Valorização da Vida e Combate ao Suicídio, de Coribe (BA). O projeto promove, entre outras ações, encontros em escolas para dialogar com adolescentes e jovens sobre bullying, automutilação, autoestima e autoconhecimento, fortalecendo a prevenção e a proteção.

Por sua vez, o Programa EscolaQPrevine, também publicada na IdeiaSUS, aproxima a prevenção do espaço escolar — um território fundamental para identificar mudanças de comportamento, sofrimento e situações de vulnerabilidade entre crianças e adolescentes. Todas essas práticas apontam para uma questão central: a prevenção não precisa esperar que o sofrimento se transforme em crise para começar.

São iniciativas que têm em comum alguns elementos: trabalho em equipe, articulação entre serviços, aproximação com escolas e comunidades, valorização da escuta, redução do estigma e construção de vínculos. As experiências compartilhadas pela Plataforma IdeiaSUS Fiocruz mostram que o SUS não é apenas a porta de entrada para o cuidado quando a doença aparece. Ele pode atuar antes, fortalecendo vínculos, identificando vulnerabilidades e criando espaços de proteção para todos.

Onde buscar ajuda

Pessoas em sofrimento emocional ou que estejam preocupadas com alguém podem procurar uma Unidade Básica de Saúde, um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou outro serviço da Rede de Atenção Psicossocial. Em situações de urgência ou emergência, devem ser procurados os serviços de pronto atendimento ou o Samu, pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia.

Por Katia Machado (Ascom IdeiaSUS Fiocruz)