Este trabalho surgiu após o encontro de diferentes áreas com uma intenção em comum: oferecer para pessoas experiência em áreas naturais urbanas, com foco em melhorar saúde e bem-estar, além de promover maior possibilidade de reflexão sobre conexão com a natureza e conservação da biodiversidade.
A tarefa de levar um grupo de pessoas a um parque pode parecer simples, mas integrar profissionais da saúde com profissionais de áreas de naturais para mobilizar usuários de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) é complexa. Mesmo que internacionalmente já existam as “prescrições verdes”, em que profissionais da saúde recomendam a seus pacientes que façam atividades em ambientes naturais, incluir essas atividades em serviços de saúde brasileiros ainda configuram um desafio. Apesar de vivermos no país mais biodiverso do mundo, o que, por si só, representa um excelente argumento para aplicarmos intervenções de saúde baseadas na natureza, essas ações ainda são vistas com estranheza pela maioria dos potenciais envolvidos no processo.
Por isso, na tentativa de minimizar possíveis sensações de espanto, estreitar laços com os pesquisadores e presentar as possibilidades de incorporar a intervenção proposta na rotina do serviço de atenção primária, a primeira etapa deste projeto foi a sensibilização dos profissionais da área natural e das unidades de saúde envolvidas no estudo, realizada por especialistas (contratados pela WWF-Brasil) sobre saúde e ambiente.
No primeiro módulo da sensibilização, foi oferecido conteúdo teórico com foco na interdependência entre saúde humana e áreas naturais protegidas, entendidas em seu conceito mais amplo, considerando desde remanescentes florestais de proteção integral até praças urbanas.
Já, o segundo módulo referiu-se à estratégia Parques Saudáveis, Pessoas Saudáveis (PSPS), para promoção de práticas de saúde em áreas naturais, e incluiu atividades práticas, na mesma área natural local do estudo, o Parque dos Eucaliptos.
A partir deste ponto, após cumprimento dos trâmites éticos e legais, tanto na instituição proponente, quanto na Secretaria Municipal de Saúde, a participação dos usuários com mais de 50 anos das UBSs pôde ser divulgada e a coleta de dados, iniciada.
Assim, foram totalizadas 4 semanas de atividades de banho de natureza, incluindo transporte de ida e volta às UBSs e lanche, além das respostas aos questionários propostos, que, além de dados sociodemográficos, continham avaliações sobre conexão com a natureza, bem-estar, vitalidade e sofrimento psíquico.
Quando se trata de intervenções com populações de periferias, com poucos recursos socioeconômicos, mesmo com incentivo de profissionais de saúde, apesar da população perceber benefícios associados ao contato com a natureza, como perda de peso, maior sensação de bem-estar, de clareza mental e de rejuvenescimento, barreiras como: medo de assalto, de ataques de cães e do contato com insetos, grama ou animais silvestres, dificuldades financeiras para pagar pelo transporte até o parque, alergias ou ausência de lugares para se sentar, são preponderantes e interferem negativamente na exposição a ambientes verdes (Sefcik et al, 2019).
De qualquer forma, especialmente relacionado à presença de idosos em ambientes naturais urbanos, já são claros os benefícios da realização de atividade física nesses espaços (Levinger et al, 2018; Levinger et al, 2021) e intervenções baseadas na natureza tendem a ganhar mais destaque, principalmente, após a pandemia por coronavírus.
Dentre elas, o chamado banho de floresta, tradução literal da prática japonesa shinrin-yoku, instituída na década de 1980 nos parques japoneses, que se traduz por absorver a atmosfera da floresta por meio dos sentidos (Li, 2019), vem se tornando crescente na literatura, entretanto, ainda pouco explorada entre idosos em áreas socialmente vulneráveis. Neste estudo, foi utilizado um protocolo específico inspirado nesta prática japonesa que, passamos a denominar como banho de natureza, tendo em vista que poderá ser utilizada em outros cenários naturais, que não necessariamente ambientes florestais.
Para tanto, foi conduzido um estudo quase-experimental, com maiores de 50 anos, usuários de duas UBSs de região periférica e vulnerável da cidade de São Paulo. Foram comparados grau de conexão com a natureza, bem-estar, sofrimento psíquico e vitalidade de idosos antes, após quatro sessões de banho de natureza e follow-up de 30 dias. Todos os trâmites documentais e éticos foram seguidos, conforme legislação brasileira (Resolução n°466 12/12/12).
Mesmo que a sensibilização não constituísse um objetivo específico da pesquisa, observamos muitos relatos informais dos profissionais sobre o conhecimento e a experiência proporcionada por ela, especialmente dos ACSs. A abertura para reflexão sobre a temática até incentivou a participação de alguns ACSs em atividades de coleta de dados de outra pesquisa liderada pela equipe e-Natureza, realizada em outra área natural. Entendemos que essa percepção dos ACSs foi fundamental para a inclusão dos idosos no estudo, uma vez que esse grupo de trabalhadores têm contato próximo e frequente com os usuários das UBSs.
Completaram as quatro sessões de Banho de Natureza e o acompanhamento após 30 dias, 17 participantes. Destacamos maior número de mulheres (82,4%), renda mensal entre um e três salários-mínimos para a maioria dos participantes (88,2%), assim como diagnóstico de Hipertensão Arterial (88,2%). Logo após a atividade, a conexão com a natureza (medida pela Escala de Conexão com a Natureza) aumentou e se manteve maior depois de 30 dias para cerca de 60% dos participantes. A percepção de bem-estar (avaliada pelo WHO-5) melhorou imediatamente após o banho de natureza para 53% dos participantes, assim como a vitalidade (Escala de Vitalidade Subjetiva). Já o sofrimento psíquico (SRQ-20) não mostrou alteração sugestiva de melhora, com resultados variados.
Tais desfechos nos deixa atentos para como as intervenções de saúde baseadas na natureza devem ser oferecidas, por quais profissionais, após quais tipos treinamentos, para qual população, uma vez que as reações oriundas de sensibilizações, reflexões e ações sobre saúde (especialmente relacionadas a questões e saúde mental) são imprevisíveis e podem requerer condutas especializadas. De qualquer maneira, entendemos que investigações sobre tal temática são necessárias justamente para aprofundar e avançar nesse conhecimento, a fim de promover saúde mais equitativa e qualificada para todos os seres.
Ainda, o parque urbano em questão ficava de 1-2 km de cada UBS, o que reforça a necessidade de integração entre os equipamentos públicos de um território, num incentivo ao senso de pertencimento da população. Reforçamos a possibilidade de intervenção para profissionais de saúde como resposta às necessidades de suporte ao envelhecimento saudável e ações de promoção de saúde, com apropriação de equipamentos territoriais, especialmente no contexto da atenção básica.
Av. Albert Einstein, 627 - Jardim Leonor, São Paulo - SP, Brasil
CADASTRO
ATUALIZAÇÃO