Viva sem Dor: inovação no cuidado da dor crônica na atenção primária

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Ana Flávia Rosa Araújo

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Juliana Gonçalves Silva de Mattos

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A dor crônica, definida como aquela com duração superior a três meses, constitui um relevante problema de saúde pública, afetando cerca de 30% da população brasileira e impactando negativamente a qualidade de vida, a saúde mental e a capacidade laboral. Ademais, está associada ao uso excessivo de medicamentos, à realização de exames desnecessários e à sobrecarga dos serviços de saúde.
Diante desse cenário, o município de Coromandel (MG) implantou, em março de 2025, o Grupo “Viva, Sem Dor”, voltado a usuários da Atenção Primária à Saúde com queixas de dor crônica. A iniciativa emergiu da necessidade de reorganizar o cuidado, reduzir a medicalização e fortalecer estratégias de autocuidado, em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e com a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares.
Até o momento, foram realizados seis grupos. O formato atual foi estruturado a partir de um projeto piloto inicial com 15 participantes. Inicialmente, os grupos eram compostos por seis encontros quinzenais, com abordagem multiprofissional, centrada no usuário e previamente planejada. Ao término de cada ciclo, a equipe realizava avaliação crítica dos resultados, identificando potencialidades e limitações, o que permitiu o aperfeiçoamento contínuo da proposta. Após a avaliação dos resultados do projeto piloto, reorganizou-se o grupo com nova dinâmica.
A intervenção integra práticas clínicas, educativas e integrativas, com o objetivo de promover cuidado longitudinal, resolutivo e humanizado, reforçando o papel da Atenção Primária como ordenadora do cuidado e coordenadora da rede de atenção à saúde.
Assim, o objetivo desse projeto é promover o cuidado integral de pacientes com dor crônica na Atenção Primária à Saúde, com foco na redução dos sintomas e no fortalecimento da autonomia dos usuários, especificamente reduzindo a intensidade da dor e o uso de medicamentos analgésicos; diminuindo os encaminhamentos e exames desnecessários; estimulando as práticas integrativas e complementares no SUS; promovendo a promover educação em saúde e autocuidado; e melhorando a qualidade de vida e reduzir impactos psicossociais da dor.
Trata-se de uma experiência exitosa, de caráter intervencionista, desenvolvida na Atenção Primária à Saúde do município de Coromandel – MG, com abordagem multiprofissional e centrada no usuário, iniciada no ano de 2025.
O projeto contou com equipe multiprofissional (médica, psicóloga, nutricionista, educadora física e ACS). Os pacientes foram distribuídos entre auriculoterapia, agulhamento a seco ou ambos, além de orientações nutricionais e atividade física, conforme avaliação clínica.
Antes da implantação, os médicos da Atenção Primária foram capacitados para identificar candidatos às intervenções, priorizando usuários com maior impacto funcional da dor e hiperutilização dos serviços.
A metodologia priorizou tecnologias leves, cuidado integral, interdisciplinaridade e otimização de recursos, fortalecendo a resolutividade da Atenção Primária.
A seleção dos participantes ocorreu por meio de discussão clínica nas Unidades de Saúde da Família, envolvendo a equipe multidisciplinar.
Foram incluídos usuários do SUS, maiores de 18 anos, com dor crônica há mais de três meses como lombalgia, cervicalgia, dor em ombro, ciática, dor em joelhos, tensões musculares, síndrome miofascial, tendinites e tendinopatias. Excluíram-se pacientes com fobia a agulhas, infecções ativas, distúrbios de coagulação, lesões cutâneas nas áreas de intervenção, condições gestacionais e fibromialgia.
Após a indicação, os pacientes participaram de encontro inicial para reavaliação clínica, confirmação dos critérios e apresentação do grupo (objetivos e fluxos). Realizou-se anamnese, exame físico e aplicação da Escala Visual Analógica da Dor e questionário semiestruturado.
Os participantes foram submetidos à anamnese, exame físico e aplicação de instrumentos padronizados, como a Escala Visual Analógica da Dor e o questionário semiestruturado contendo informações sociodemográficas, características da dor, uso de medicamentos, prática de atividade física e hábitos alimentares.
Os encontros subsequentes ocorreram de forma quinzenal e incluíram intervenções integradas e multiprofissional. O fluxo assistencial contemplou acolhimento, avaliação contínua, intervenções terapêuticas e atividades educativas.
As intervenções foram registradas quanto a procedimentos, adesão e percepção de melhora. Aplicou-se questionário semiestruturado no início e ao final do ciclo, para avaliação comparativa dos resultados e mudanças no estilo de vida.

O aumento da prevalência de dor crônica na população atendida pela Atenção Primária evidenciou elevada medicalização, hiperutilização dos serviços de saúde, impacto negativo na qualidade de vida e frequente realização de exames e encaminhamentos desnecessários. Observou-se ainda limitação funcional, sofrimento emocional e baixa adesão a estratégias de autocuidado. Diante dessa realidade, identificou-se a necessidade de reorganizar o cuidado ofertado aos usuários com dor crônica, por meio de uma abordagem multiprofissional, humanizada e baseada em práticas integrativas, fortalecendo a resolutividade da Atenção Primária e reduzindo a dependência exclusiva de tratamentos medicamentosos.

A análise dos cinco grupos realizados a partir de setembro de 2025 incluiu um total de 69 participantes, com predominância do sexo feminino (88,4%) e média de idade de 56 anos (DP=10,8; 21-79 anos).
Inicialmente, observou-se dor intensa (média=8,54; DP=1,89), com impacto nas atividades de vida diária (91,3%) e no humor (89,8%). Além disso, 50,7% não praticavam atividade física e 56,5% utilizavam medicamentos, indicando perfil de hiperutilização.
Após a intervenção (n=57), a dor reduziu para média de 5,44 (DP=2,21), indicando melhora clinicamente relevante. Houve ainda melhora do sono (89,9%), humor (87%) e atividades de vida diária (60,9%), evidenciando impacto positivo na qualidade de vida. A adesão e a aceitabilidade da intervenção foram elevadas, com 82,6% afirmando satisfação com o grupo e manifestaram interesse em participar novamente; 100% afirmou que indicariam a estratégia a outras pessoas. Apenas 23,1% relataram ausência de melhora percebida.
Evidenciou-se uma avaliação global do grupo extremamente positiva (x=9,7), com destaque para as práticas integrativas como agulhamento/acupuntura (x=9,7), atividade física (x=9,6), auriculoterapia (x=9,3) e intervenção nutricional (x=9,3). Observou-se ainda que 88,4% dos participantes não procuraram serviços de saúde durante o período da intervenção.
Os resultados demonstram que intervenções de baixo custo, baseadas em práticas integrativas e no cuidado multiprofissional, são capazes de produzir impacto clínico relevante, elevada satisfação dos usuários e contribuir para a redução da medicalização e o fortalecimento do autocuidado.
Evidenciam, ainda, potencial para redução da demanda por serviços de maior complexidade, ao qualificar a resolutividade da Atenção Primária e reforçar seu papel como coordenadora do cuidado na rede.
Trata-se de estratégia inovadora, replicável e custo-efetiva, que integra evidência científica e cuidado centrado na pessoa, com potencial para o enfrentamento da dor crônica no SUS.

A experiência do Grupo “Viva, Sem Dor” demonstra que a organização do cuidado na Atenção Primária, pautada na interdisciplinaridade e no uso de práticas integrativas, é capaz de responder de forma efetiva ao manejo da dor crônica, alcançando os objetivos propostos de redução da dor, fortalecimento do autocuidado e melhoria da qualidade de vida dos usuários. Os resultados evidenciam impacto clínico relevante, elevada satisfação e forte adesão dos participantes, além de potencial para redução da medicalização e da demanda por serviços de maior complexidade.
A proposta se destaca como estratégia inovadora, de baixo custo e alta resolutividade, alinhada aos princípios do SUS e à perspectiva de uma Atenção Primária forte como eixo estruturante da saúde universal. A incorporação de tecnologias leves, associada ao cuidado centrado na pessoa, mostrou-se fundamental para promover mudanças sustentáveis no comportamento e na forma de utilização dos serviços de saúde.
Recomenda-se a ampliação e institucionalização da estratégia em outros territórios, bem como o investimento na capacitação das equipes e no fortalecimento das práticas integrativas no SUS. Iniciativas como essa reforçam o papel da Atenção Primária como coordenadora do cuidado e apontam caminhos concretos para modelos assistenciais mais eficientes, humanos e sustentáveis.

autor Principal

Ana Flávia Rosa Araújo

ana.flavia.rosa@hotmail.com

Médica

Coautores

Ana Flavia Rosa Araujo, Denilde Aparecida Silva de Oliveira, Gabriela Lima de Oliveira Silva, Núbia de Jesus Moreira de Resende, Maria Isabely de Oliveira, Tânia Aparecida dos Reis, Matheus Borges de Araújo, Larissa Martins Araújo, Mariana Bernardes e Silva, Juliana Gonçalves Silva de Mattos.

A prática foi aplicada em

Coromandel

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Prefeitura Municipal de Coromandel - Rua Arthur Bernardes - Centro, Coromandel - MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Juliana Gonçalves Silva de Mattos

Conta vinculada

07 maio 2026

CADASTRO

07 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

13 mar 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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