Levantamento de necessidades odontológicas das crianças de creches e escolas municipais de Pirapora (MG)

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Soraya Alves Cardoso

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A experiência que relatamos foi motivada pela necessidade de conhecer de forma sistematizada a real condição de saúde bucal das crianças matriculadas nas escolas e creches municipais de Pirapora. Observávamos que, apesar da existência de ações de promoção e prevenção em saúde bucal na atenção básica, ainda haviam lacunas significativas relacionadas ao diagnóstico precoce, ao acompanhamento clínico contínuo e ao planejamento baseado em dados concretos da realidade local. A ausência de informações atualizadas dificultava a organização dos serviços e a priorização das ações odontológicas.

A justificativa para a realização do levantamento das necessidades odontológicas está na importância da infância como fase determinante para a formação de hábitos saudáveis e prevenção de problemas bucais, como a cárie dentária e as doenças periodontais. A identificação precoce das necessidades permite intervenções oportunas, reduzindo a evolução de problemas bucais que podem gerar dor, infecções, absenteísmo escolar e impactos negativos no desenvolvimento e na qualidade de vida das crianças.

Essa prática contribui diretamente para o enfrentamento de um problema público relevante: a desigualdade no acesso aos serviços de saúde bucal e a alta prevalência de agravos bucais na população infantil, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social. Ao auxiliar no planejamento de ações intersetoriais entre saúde e educação, o levantamento fortalece as políticas públicas de promoção da saúde, qualifica a atenção básica e contribui para a redução de demandas reprimidas por tratamentos curativos, promovendo um cuidado mais equânime, preventivo e resolutivo no município de Pirapora.

O levantamento de necessidades odontológicas dos escolares do Ensino Fundamental I e das crianças das creches municipais de Pirapora teve início em 2023, como prática estratégica retomada após o período da pandemia da COVID-19, que impactou significativamente o acompanhamento da saúde bucal infantil.

O desenvolvimento do levantamento ocorre de forma planejada e articulada entre a Secretaria Municipal de Saúde, por meio da Coordenação de Saúde Bucal, e a Secretaria Municipal de Educação. Inicialmente, foi realizada reunião com a Secretaria de Educação, seguida de encontros com diretores e professores das unidades escolares, com o objetivo de apresentar a proposta, alinhar fluxos e garantir o apoio institucional. Esta prática acontece anualmente, com as adequações sempre que necessárias.

No primeiro ano, o levantamento foi realizado no mês de maio. Houve uma demora significativa no repasse dos dados à coordenação e, consequentemente, na apresentação dos resultados para o planejamento das ações de atendimento clínico. Diante disso, tornou-se necessária uma maior organização das ações. Atualmente, as crianças são avaliadas no mês de março, e os resultados são apresentados em abril, juntamente com o planejamento das ações de atendimento clínico restaurador, promoção e prevenção da saúde bucal.

Como metodologia, é realizada previamente a calibração da equipe municipal de Cirurgiões- Dentistas e Técnicos em Saúde Bucal, visando padronizar os critérios de avaliação e assegurar a confiabilidade dos dados coletados. Para a calibração, uma escola é escolhida aleatoriamente e crianças de diferentes idades são sorteadas para avaliação conjunta da equipe. Foram estabelecidos critérios municipais de classificação de risco em saúde bucal, baseados em evidências científicas sugeridas pela SES/MG, que categorizam as crianças em R1, R2 e R3, conforme a classificação de risco em saúde bucal e necessidades de tratamento odontológico. (Segue em anexo o material de apoio utilizado pela equipe de saúde bucal avaliadora e as tabelas de resultados de 2024 e 2025).

Após a calibração, iniciam-se as avaliações odontológicas nas próprias escolas e creches, mediante agendamento prévio e organização das escalas dos profissionais avaliadores. Havendo número de crianças faltosas superior a 10% dos alunos, é realizado novo retorno à turma em data pré-agendada. As crianças avaliadas são identificadas e organizadas conforme sua unidade de referência da Atenção Primária à Saúde, possibilitando o encaminhamento para acompanhamento e tratamento.

A partir de 2025, o agendamento passou a ser entregue diretamente aos pais pelos Agentes Comunitários de Saúde, estratégia adotada após a identificação de alto índice de faltosos nos anos anteriores, quando os agendamentos eram enviados pelas escolas. Essa mudança resultou em maior adesão das famílias ao tratamento.

Os dados coletados são reunidos e organizados pela Coordenação de Saúde Bucal, permitindo a análise do perfil epidemiológico e das principais necessidades odontológicas da população infantil. A prática fortalece a integração entre saúde e educação e subsidia o planejamento das ações de promoção, prevenção e assistência em saúde bucal no município.

Como resultado, observou-se a redução do percentual de crianças classificadas como risco R1
– indivíduos que apresentam doenças e/ou problemas bucais. Nas escolas, o percentual passou de 41,4% em 2024 para 36% em 2025. Nas creches, houve redução de 12,2% em 2024 para
10,1% em 2025.

Em contrapartida, os indivíduos classificados como R3 – aqueles sem atividade de doença, sem lesões de mucosa, sem impacto psicossocial ou funcional, sem necessidade de tratamento e em manutenção da saúde bucal – apresentaram aumento entre os escolares, passando de 49% em 2024 para 52% em 2025.

Em relação às creches, observou-se que a proporção de faltosos foi significativamente superior em 2025 quando comparada ao ano anterior, passando de 5,3% em 2024 para 10% em 2025, mesmo com o retorno dos avaliadores às instituições.

Esses resultados possibilitaram a intensificação das ações nas creches, com a realização do Tratamento Restaurador Atraumático (ART) em todas as unidades, visando ampliar o acesso ao cuidado odontológico em populações com dificuldades de acesso à odontologia convencional. Destaca-se que as crianças permanecem grande parte do dia nas creches e que, frequentemente, os responsáveis enfrentam dificuldades para levá-las ao consultório odontológico em razão de compromissos laborais. Dessa forma, buscou-se prevenir e controlar a doença cárie por meio de uma abordagem de mínima intervenção.Adicionalmente, em 2025 houve intensificação das ações de promoção e prevenção em saúde bucal não apenas com as crianças, mas também com pais/responsáveis e professores das creches.

Outro resultado relevante foi a organização do encaminhamento das crianças para acompanhamento e tratamento nas Unidades de Atenção Primária à Saúde de referência e o fortalecimento da integração entre as Secretarias Municipais de Saúde e Educação na execução de ações intersetoriais.

A nova forma de organização do serviço, por meio da classificação de risco em saúde bucal dos escolares e das crianças das creches, possibilitou uma compreensão mais ampla da real situação da saúde bucal nas escolas e creches municipais, permitindo a priorização daqueles que apresentam maior necessidade de cuidado. Além disso, evidenciou a importância do diagnóstico precoce e das ações preventivas no ambiente escolar, bem como impulsionou a busca contínua pela ampliação do acesso desse público aos serviços odontológicos, com a adequação dos horários de atendimento clínico para que não coincidam com o período escolar e a entrega dos agendamentos aos responsáveis por intermédio das Agentes Comunitárias de Saúde.

Conclui-se que o cenário atual da saúde bucal no município é marcado por um contraste entre o progresso alcançado e problemas operacionais persistentes. Os principais desafios concentram-se na dificuldade de transição do modelo curativo para o preventivo, resistência esta alimentada pela falta de acompanhamento familiar e pela ausência de espaços adequados (escovários) nas creches e escolas municipais. Sem o suporte físico necessário no ambiente escolar e um maior envolvimento da comunidade local, a sustentabilidade das ações de promoção à saúde torna-se vulnerável. Faz-se urgente, portanto, o investimento em infraestrutura escolar e em estratégias de comunicação que ampliem a participação social e a adesão das famílias ao cuidado preventivo. Estaremos realizando novamente o levantamento de necessidades odontológica em todas as creches e escolas do ensino fundamental I municipais utilizando a mesma metodologia e esperamos alcançar neste ano resultados ainda melhores.

autor Principal

Soraya Alves Cardoso

sbpirapora@gmail.com

Coordenação de Saúde Bucal

Coautores

Soraya Alves Cardoso, Debora Falcão Chaves, Fernanda Lopes de Souza, Edneia Gomes Costa e Silva

A prática foi aplicada em

Pirapora

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Rua José Eudes Lorena, 67 - Nova Pirapora, Pirapora - MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Soraya Alves Cardoso

Conta vinculada

07 maio 2026

CADASTRO

07 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

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Condição da prática

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