Saberes e sabores de Carrancas: experiência do comitê de equidade com práticas disruptivas de saúde

Você já pode imprimir seu certificado

Sofia iara Penido Esparza

Sofia iara

Sofia iara Penido Esparza

favor seguir os ajustes necessários abaixo:

Nenhuma recomendação da moderação

A experiência “Saberes e Sabores de Carrancas” aborda o desafio da efetivação da equidade em saúde no território rural e urbano de Carrancas (MG), especialmente para a população adolescente negra e da zona rural. O evento visa promover saúde de forma ampliada, para além da ausência de doença, considerando as desigualdades territoriais, raciais e culturais. A proposta parte do paradigma ético-estético-político, onde se mantém o rigor técnico e profissional da escuta das diferenças (ético), o campo de trabalho está na sensibilidade do cotidiano e da subjetividade da população (estético) e, por fim, institui-se uma transformação ativa da realidade social (político), sendo possível trabalhar em função da criação de novos modos de vida. O evento atua antes do adoecimento, na promoção da saúde por meio do autocuidado, da valorização cultural e da integração comunitária. Busca-se estimular mudanças no estilo de vida a partir do reconhecimento do próprio território, do pertencimento e do acesso a tecnologias ancestrais de saúde. Trata-se de uma prática que considera a realidade concreta do campo e da cidade, onde o cuidado se produz na roda, na dança, na trança e na partilha.
O objetivo geral da experiência foi: promover saúde ampliada e equidade para adolescentes de Carrancas por meio da valorização cultural, da integração comunitária e da produção de autonomia ao passo que pudesse ser cumprido as metas dos indicadores da POEPS/MG (Política Estadual de Promoção da Saúde) e do PSE (Programa Saúde na Escola) atender o indicador 4 do PSE – Promoção da Cultura da Paz e dos Direitos Humanos indicador 2 da POEPS – Educação em Saúde voltada para à Promoção Da Saúde e indicador 6 da POEPS – Ações de Implementação das Políticas de Promoção da Equidade em Saúde. Para objetivos mais específicos, buscou-se: valorizar a transmissão de saberes entre gerações, fortalecendo a cultura local com a Folia de Reis, congada e plantas medicinais trabalhar a desmedicalização da vida, resgatando saberes tradicionais e ancestrais como tecnologias leves de cuidado estimular o direito e a cidadania como produção de pertencimento e saúde mental e promover a integração social entre “nativos” e “forasteiros”, reduzindo isolamentos e fortalecendo laços comunitários.
O evento ocorreu em um sábado letivo, escolhido estrategicamente para facilitar o acesso da população rural à zona urbana, onde, via de regra, as ações no município se concentram. A mobilização social envolveu: oficina de quitanda com forno artesanal montado na praça distribuição de mudas medicinais cuidado com a beleza negra (tranças realizadas por adolescentes voluntárias) apresentação de abertura com congada exposição fotográfica da Folia de Reis e congada dança feira livre local mesa de café da manhã com itens rurais e pratos típicos oficina de colcha de retalhos conduzida por pessoas PCDs (Pessoas com Deficiência) do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) interação com imigrantes e estudantes universitários africanos da UFLA (Universidade Federal de Lavras). Foram estabelecidas parcerias com as Secretarias de Transporte e de Obras, garantindo ônibus para a zona rural, das pessoas com dificuldade de mobilidade e infraestrutura. A equipe foi multiprofissional contando com os profissionais da atenção básica, do hospital, educadores e assistência social e funcionárias da prefeitura. O desenho metodológico priorizou a horizontalidade, a escuta ativa e a coprodução do cuidado durante os diversos contatos feitos para o trabalho voluntário e sugestões da população local.

De maneira estratégica, o evento fez parte do calendário do Novembro Negro de 2025, voltado para adolescentes da Escola Estadual de Carrancas em um sábado letivo, garantindo o transporte escolar da zona rural para a cidade no dia marcado, das 8:00 às 12:00. A motivação ancora-se na Nota Técnica nº 25/SES/SUBPAS-SAPS-DPS/2021 que institui os Comitês de Equidade como estratégia para reduzir vulnerabilidades e promover justiça social em saúde. Inspirado por essa diretriz, o Comitê de Equidade do município organizou um evento que articula saúde ampliada e territorializada, compreendendo o território como espaço vivo de produção de relações, saberes e afetos.
Além disso, foi possível aproximar o município da UFLA (Universidade Federal de Lavras), o que qualificou mais ainda o evento ao produzir encontros com universitários imigrantes africanos e estudantes do ensino médio. Através deste encontro, também foi possível construir uma nova articulação para novas ações entre a Secretaria de Saúde e a Pró-reitoria de extensão em esporte, lazer e cultura da universidade.

Observou-se a ocupação inédita de espaços públicos por pessoas negras e do campo, historicamente marginalizadas nos equipamentos de saúde e lazer do município e das políticas públicas de forma geral. O evento promoveu saúde para além das práticas curativistas e emergenciais, demonstrando que é possível prevenir adoecimentos e produzir bem-estar por meio da cultura, da afetividade e do encontro comunitário.
Houve aproximação espontânea de jovens com universitários e profissionais de saúde, despertando curiosidade científica e estímulo à permanência nos estudos, bem como germinou-se uma nova articulaçao entre a Secretaria de Saúde da cidade e a UFLA.
A ação mobilizou toda a cidade, rompendo, ao menos naquele momento, a fragmentação social entre “nativos” (nascidos em Carrancas) e “forasteiros” (moradores vindos de outras cidades), sendo um dos poucos eventos que conseguiu reunir diferentes grupos etários, origens e classes sociais em um mesmo espaço. A abrangência da ação coletiva em saúde foi ampla: além dos adolescentes participarem diretamente, também houve a participação de familiares, comunidade em geral e turistas. Destaca-se o baixo custo financeiro, viabilizado por parcerias intersetoriais, uso de recursos locais e voluntariado. As oficinas de tranças e de plantas medicinais geraram forte adesão, evidenciando a demanda por cuidado que respeite a identidade negra e os saberes tradicionais. A articulação intersetorial das secretarias, embora desafiadora devido às altas demandas cotidianas, mostrou-se viável e potente quando ancorada em um comitê institucionalizado e em uma mobilização comunitária genuína.
O evento produziu memórias individuais e coletivas, registros afetivos e valorização da autoestima, empoderamento e pertencimento da população negra e rural — grupos que muitas vezes deixam de acessar os serviços de saúde por falta de informação ou por não se sentirem no direito de ocupar esses espaços. Faz-se necessário pontuar que a percepção da cultura popular é valorizada e entendida como emancipação das repressões corporais e culturais que causam mal estar, sofrimento psíquico e reprodução de violências coloniais.
Por fim, a experiência afirma uma prática em saúde disruptiva e às avessas: onde é possível festejar, interagir, confraternizar e permitir à população o acesso ao lazer como forma legítima e potente de produção de saúde. O SUS que acolhe, dança, trança e planta é o SUS que cuida integralmente.

Não é novidade que a população negra, rural e outros grupos sociais exigem políticas públicas e sensibilidade humana para a promoção de cuidado e assistência. Para tanto, recomenda-se o amparo jurídico-político das ações propostas. Neste caso, utilizamos o Comitê Técnico Municipal de Equidade, institucionalizado na Prefeitura através de um decreto de lei para formalizar as reuniões intersetoriais, bem como utilizar os recursos públicos disponíveis de maneira ética e prudente.
Dessa maneira, a atuação do serviço público com o olhar contra-hegemônico e amparado pela escuta ética-estética-política também é uma estratégia de saúde que propõe e concede espaço para que os usuários do SUS possam sentir-se acolhidos, pertencidos e capazes de produzir o cuidado nas relações e responsabilidades comunitárias. Recomenda-se a continuidade da estratégia em função da formação de jovens multiplicadores em saúde e cultura. Perceber, também, a sutileza das transformações sociais que se propagam e ressoam no coletivo.

autor Principal

Sofia iara Penido Esparza

sofiaesparza.psi@gmail.com

Psicóloga - Coordenadora de Saúde Mental da APS de Carrancas

Coautores

Sofia Iara Penido Esparza, Rosinei Azevedo Costa Teixeira, Amanda Ferreira de Souza Pereira, Staell Aparecida Guimaraes Boari, Inaja Pedroso Andrade Sena E Souza, Kauana Nazare Ribeiro Da Silva, Cecilia De Andrade Franca, Maria Altina Alves Teixeira Damasceno, Alessandra Alves Lara, Biasy Furtado Guimarães Alexandre

A prática foi aplicada em

Carrancas

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

R. Cel. Antônio Francisco, 120, Carrancas - MG, 37245-000, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Sofia iara Penido Esparza

Conta vinculada

05 maio 2026

CADASTRO

05 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

29 nov 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

Arquivos