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A experiência “Saberes e Sabores de Carrancas” aborda o desafio da efetivação da equidade em saúde no território rural e urbano de Carrancas (MG), especialmente para a população adolescente negra e da zona rural. O evento visa promover saúde de forma ampliada, para além da ausência de doença, considerando as desigualdades territoriais, raciais e culturais. A proposta parte do paradigma ético-estético-político, onde se mantém o rigor técnico e profissional da escuta das diferenças (ético), o campo de trabalho está na sensibilidade do cotidiano e da subjetividade da população (estético) e, por fim, institui-se uma transformação ativa da realidade social (político), sendo possível trabalhar em função da criação de novos modos de vida. O evento atua antes do adoecimento, na promoção da saúde por meio do autocuidado, da valorização cultural e da integração comunitária. Busca-se estimular mudanças no estilo de vida a partir do reconhecimento do próprio território, do pertencimento e do acesso a tecnologias ancestrais de saúde. Trata-se de uma prática que considera a realidade concreta do campo e da cidade, onde o cuidado se produz na roda, na dança, na trança e na partilha.
O objetivo geral da experiência foi: promover saúde ampliada e equidade para adolescentes de Carrancas por meio da valorização cultural, da integração comunitária e da produção de autonomia ao passo que pudesse ser cumprido as metas dos indicadores da POEPS/MG (Política Estadual de Promoção da Saúde) e do PSE (Programa Saúde na Escola) atender o indicador 4 do PSE – Promoção da Cultura da Paz e dos Direitos Humanos indicador 2 da POEPS – Educação em Saúde voltada para à Promoção Da Saúde e indicador 6 da POEPS – Ações de Implementação das Políticas de Promoção da Equidade em Saúde. Para objetivos mais específicos, buscou-se: valorizar a transmissão de saberes entre gerações, fortalecendo a cultura local com a Folia de Reis, congada e plantas medicinais trabalhar a desmedicalização da vida, resgatando saberes tradicionais e ancestrais como tecnologias leves de cuidado estimular o direito e a cidadania como produção de pertencimento e saúde mental e promover a integração social entre “nativos” e “forasteiros”, reduzindo isolamentos e fortalecendo laços comunitários.
O evento ocorreu em um sábado letivo, escolhido estrategicamente para facilitar o acesso da população rural à zona urbana, onde, via de regra, as ações no município se concentram. A mobilização social envolveu: oficina de quitanda com forno artesanal montado na praça distribuição de mudas medicinais cuidado com a beleza negra (tranças realizadas por adolescentes voluntárias) apresentação de abertura com congada exposição fotográfica da Folia de Reis e congada dança feira livre local mesa de café da manhã com itens rurais e pratos típicos oficina de colcha de retalhos conduzida por pessoas PCDs (Pessoas com Deficiência) do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) interação com imigrantes e estudantes universitários africanos da UFLA (Universidade Federal de Lavras). Foram estabelecidas parcerias com as Secretarias de Transporte e de Obras, garantindo ônibus para a zona rural, das pessoas com dificuldade de mobilidade e infraestrutura. A equipe foi multiprofissional contando com os profissionais da atenção básica, do hospital, educadores e assistência social e funcionárias da prefeitura. O desenho metodológico priorizou a horizontalidade, a escuta ativa e a coprodução do cuidado durante os diversos contatos feitos para o trabalho voluntário e sugestões da população local.
De maneira estratégica, o evento fez parte do calendário do Novembro Negro de 2025, voltado para adolescentes da Escola Estadual de Carrancas em um sábado letivo, garantindo o transporte escolar da zona rural para a cidade no dia marcado, das 8:00 às 12:00. A motivação ancora-se na Nota Técnica nº 25/SES/SUBPAS-SAPS-DPS/2021 que institui os Comitês de Equidade como estratégia para reduzir vulnerabilidades e promover justiça social em saúde. Inspirado por essa diretriz, o Comitê de Equidade do município organizou um evento que articula saúde ampliada e territorializada, compreendendo o território como espaço vivo de produção de relações, saberes e afetos.
Além disso, foi possível aproximar o município da UFLA (Universidade Federal de Lavras), o que qualificou mais ainda o evento ao produzir encontros com universitários imigrantes africanos e estudantes do ensino médio. Através deste encontro, também foi possível construir uma nova articulação para novas ações entre a Secretaria de Saúde e a Pró-reitoria de extensão em esporte, lazer e cultura da universidade.
Observou-se a ocupação inédita de espaços públicos por pessoas negras e do campo, historicamente marginalizadas nos equipamentos de saúde e lazer do município e das políticas públicas de forma geral. O evento promoveu saúde para além das práticas curativistas e emergenciais, demonstrando que é possível prevenir adoecimentos e produzir bem-estar por meio da cultura, da afetividade e do encontro comunitário.
Houve aproximação espontânea de jovens com universitários e profissionais de saúde, despertando curiosidade científica e estímulo à permanência nos estudos, bem como germinou-se uma nova articulaçao entre a Secretaria de Saúde da cidade e a UFLA.
A ação mobilizou toda a cidade, rompendo, ao menos naquele momento, a fragmentação social entre “nativos” (nascidos em Carrancas) e “forasteiros” (moradores vindos de outras cidades), sendo um dos poucos eventos que conseguiu reunir diferentes grupos etários, origens e classes sociais em um mesmo espaço. A abrangência da ação coletiva em saúde foi ampla: além dos adolescentes participarem diretamente, também houve a participação de familiares, comunidade em geral e turistas. Destaca-se o baixo custo financeiro, viabilizado por parcerias intersetoriais, uso de recursos locais e voluntariado. As oficinas de tranças e de plantas medicinais geraram forte adesão, evidenciando a demanda por cuidado que respeite a identidade negra e os saberes tradicionais. A articulação intersetorial das secretarias, embora desafiadora devido às altas demandas cotidianas, mostrou-se viável e potente quando ancorada em um comitê institucionalizado e em uma mobilização comunitária genuína.
O evento produziu memórias individuais e coletivas, registros afetivos e valorização da autoestima, empoderamento e pertencimento da população negra e rural — grupos que muitas vezes deixam de acessar os serviços de saúde por falta de informação ou por não se sentirem no direito de ocupar esses espaços. Faz-se necessário pontuar que a percepção da cultura popular é valorizada e entendida como emancipação das repressões corporais e culturais que causam mal estar, sofrimento psíquico e reprodução de violências coloniais.
Por fim, a experiência afirma uma prática em saúde disruptiva e às avessas: onde é possível festejar, interagir, confraternizar e permitir à população o acesso ao lazer como forma legítima e potente de produção de saúde. O SUS que acolhe, dança, trança e planta é o SUS que cuida integralmente.
Não é novidade que a população negra, rural e outros grupos sociais exigem políticas públicas e sensibilidade humana para a promoção de cuidado e assistência. Para tanto, recomenda-se o amparo jurídico-político das ações propostas. Neste caso, utilizamos o Comitê Técnico Municipal de Equidade, institucionalizado na Prefeitura através de um decreto de lei para formalizar as reuniões intersetoriais, bem como utilizar os recursos públicos disponíveis de maneira ética e prudente.
Dessa maneira, a atuação do serviço público com o olhar contra-hegemônico e amparado pela escuta ética-estética-política também é uma estratégia de saúde que propõe e concede espaço para que os usuários do SUS possam sentir-se acolhidos, pertencidos e capazes de produzir o cuidado nas relações e responsabilidades comunitárias. Recomenda-se a continuidade da estratégia em função da formação de jovens multiplicadores em saúde e cultura. Perceber, também, a sutileza das transformações sociais que se propagam e ressoam no coletivo.
R. Cel. Antônio Francisco, 120, Carrancas - MG, 37245-000, Brasil
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