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Nas últimas décadas, observou-se um crescimento significativo das infecções sexualmente transmissíveis (IST) no Brasil, configurando-se como um importante problema de saúde pública. Esse cenário é ainda mais preocupante quando associado a populações em situação de maior vulnerabilidade social, como as pessoas em situação de rua, que apresentam maior exposição a fatores de risco e menores possibilidades de acesso aos serviços de saúde.
Nesse contexto, a vivência nas ruas expõe essas pessoas a situações de violência, instabilidade e insegurança, que impactam diretamente sua saúde sexual. A prática de relações sexuais desprotegidas, por exemplo, muitas vezes está relacionada à sobrevivência, como a troca de sexo por alimento, abrigo ou dinheiro. Além disso, a dificuldade de negociação do uso do preservativo, especialmente em contextos de vulnerabilidade ou sob efeito de substâncias psicoativas, aumenta significativamente o risco de transmissão das IST.
O uso de álcool e outras drogas é outro fator relevante, pois reduz a percepção de risco e compromete a tomada de decisões seguras, além de favorecer situações de exposição a múltiplos parceiros e práticas sexuais desprotegidas. Observa-se, em muitos casos, baixa adesão ao uso de métodos preventivos e dificuldade na continuidade de tratamentos, especialmente em infecções como a sífilis, que exigem acompanhamento contínuo. Além disso o estigma social e a discriminação institucional, dificultam o acolhimento e afastam esses usuários dos serviços de saúde.
O Consultório na Rua (CnaR) em Campina Grande/PB desempenha papel fundamental na ampliação do acesso à saúde da população em situação de rua, especialmente por meio de ações de educação em saúde desenvolvidas no próprio território. Inserida na Atenção Primária à Saúde, a equipe multiprofissional atua de forma itinerante, buscando reduzir barreiras como a dificuldade de acesso aos serviços, a ausência de documentação, a ruptura de vínculos e o estigma institucional.
OBJETIVOS:
Relatar a experiência de implementação de ações de educação em saúde, com uso de tecnologia leve (banner educativo), voltadas à prevenção, identificação e manejo das infecções sexualmente transmissíveis (IST) em pessoas em situação de rua no município de Campina Grande/PB.
Descrever a utilização de recurso visual baseado no Álbum Seriado das IST como estratégia facilitadora da educação em saúde no território para com o nosso público.
Analisar o nível de conhecimento prévio da população em situação de rua acerca das IST, formas de transmissão e prevenção.
Identificar práticas de risco relacionadas às IST, com ênfase no uso inconsistente de preservativos e influência de fatores como uso de substâncias psicoativas.
Evidenciar a importância da oferta de insumos de prevenção (preservativos e lubrificantes) como ferramenta de engajamento nas ações educativas.
Fortalecer a abordagem de redução de danos como estratégia central no cuidado à população em situação de rua.
Contribuir com estratégias replicáveis, de baixo custo e alto impacto, para o enfrentamento das IST na Atenção Primária à Saúde, especialmente em contextos de alta vulnerabilidade social.
Trata-se de um relato de experiência, desenvolvido pelo Consultório na Rua no Município de Campina Grande/PB, no período de julho a dezembro de 2025, com pessoas em situação de rua acompanhadas pela equipe multiprofissional de saúde.
A ação foi estruturada a partir de estratégias de educação em saúde voltadas à prevenção, diagnóstico e manejo das infecções sexualmente transmissíveis (IST). Para subsidiar as atividades, foi confeccionado um banner educativo contendo imagens reais dos principais sinais e sintomas das IST mais prevalentes nesse público. O material foi elaborado com base no “Álbum Seriado das IST”, produzido pelo Ministério da Saúde (MS) em 2019, adaptado à realidade do território e ao perfil dos usuários atendidos, com poucas palavras e mais imagens.
As atividades foram realizadas em abordagem direta no território, em locais de permanência e circulação da população em situação de rua. Inicialmente, utilizou-se o banner como recurso visual para facilitar a identificação de sinais e sintomas, estimulando o diálogo e a troca de saberes entre equipe e usuários. Em seguida, foi aplicado um questionário estruturado, com o objetivo de avaliar o conhecimento prévio dos participantes acerca das IST, formas de transmissão, prevenção e reconhecimento de sintomas.
Também foram realizadas orientações em saúde, abordando métodos de prevenção, como o uso de preservativos interno e externo, a importância da vacinação para infecções preveníveis e a realização de rastreio por meio de testes rápidos, executáveis pelo CnaR. Também foram fornecidas informações sobre os pontos da rede de saúde disponíveis para atendimento, diagnóstico e tratamento no município.
Ao final de cada abordagem, foram distribuídos insumos de prevenção, como lubrificantes e os novos preservativos disponibilizados pelo Ministério da Saúde (sensível e texturizado), fortalecendo as ações de redução de danos e ampliando o acesso a estratégias de cuidado. A condução das atividades priorizou a escuta qualificada, o respeito às singularidades e a construção de vínculo com os usuários.
Outro aspecto importante refere-se às limitações no acesso à informação em saúde de forma adequada e compreensível. Muitas vezes, estratégias educativas tradicionais não alcançam esse público de maneira efetiva, seja por baixa escolaridade, seja pela inadequação da linguagem utilizada. Dessa forma, torna-se fundamental o uso de abordagens mais acessíveis, visuais e contextualizadas, que dialoguem com a realidade vivida nas ruas.
RESULTADOS:
Os resultados desta experiência evidenciam o alcance e a relevância das ações de educação em saúde desenvolvidas nas ruas. De acordo com dados do sistema e-SUS PEC do município, o Consultório na Rua de Campina Grande/PB acompanha aproximadamente 414 pessoas em situação de rua. Dentre esse total, a ação conseguiu alcançar 61 usuários, representando uma adesão significativa considerando as particularidades e a alta mobilidade desse público.
Em relação ao perfil dos participantes, observou-se predominância do sexo masculino (58). Quanto às características afetivo-sexuais, 23 relataram possuir parceiro fixo (37,7%), enquanto 48 se auto declararam heterossexuais(78,69%). No que se refere ao conhecimento prévio, 50 participantes afirmaram saber o que são IST (81,97%), e 27 relataram já ter apresentado alguma das infecções ilustradas no banner(44,27%), demonstrando alta exposição a essas condições.
Desse público 35 usuários informaram utilizar preservativo de forma regular(57,38%). Os demais relataram uso inconsistente, frequentemente relacionado ao tipo de parceiro ou ao estado psicoativo no momento da relação, mostrando a influência do uso de álcool e outras drogas nas práticas sexuais desprotegidas.
Quanto aos testes rápidos, 42 participantes aceitaram realizar o exame, dos quais 23 (54,76%) apresentaram resultado positivo para pelo menos uma das IST testadas (HIV, sífilis, hepatites B ou C), mostrando uma elevada taxa de positividade e reforçando a importância da busca ativa e do diagnóstico precoce nesta população.
A oferta dos novos preservativos e lubrificantes disponibilizados pelo MS, mostrou-se um essencial elemento de engajamento. Observamos que associados aos testes rápidos, despertou-se maior interesse dos usuários pelas atividades educativas, inclusive entre aqueles que inicialmente não participaram da ação. Esse achado evidencia que, para esse público, estratégias que utilizem elementos atrativos e práticos são fundamentais para favorecer a aproximação, o vínculo e a efetividade das ações de educação em saúde.
Orientado pelos princípios da universalidade, equidade e integralidade, o CnaR é uma estratégia essencial para a ampliação do acesso e a construção de vínculos com a população em situação de rua, por meio de abordagens territoriais, “in loco” e extramuros, atuando com ações de redução de danos e práticas de educação em saúde. Essa atuação possibilita a oferta de cuidados e também o reconhecimento das especificidades desse público, aumentando e fortalecendo o vínculo com o usuário e contribuindo para o enfrentamento das IST de forma mais efetiva e humanizada.
A experiência desenvolvida pelo CnaR em Campina Grande/PB demonstrou que ações de educação em saúde, quando adaptadas à realidade da população em situação de rua, podem alcançar resultados significativos mesmo diante de múltiplas vulnerabilidades. O uso de tecnologias leves, como o banner com imagens reais das IST, associado à abordagem direta no território, mostrou-se uma estratégia eficaz para facilitar a compreensão, estimular o diálogo e favorecer o reconhecimento de sinais e sintomas pelos usuários.
Os dados evidenciam que, embora haja conhecimento prévio sobre IST, há fragilidades importantes relacionadas à prevenção, especialmente o uso inconsistente de preservativos, influenciado por parceiros e/ou uso de substâncias psicoativas. A elevada taxa de positividade nos testes rápidos reforça a necessidade de intensificar ações de rastreio, diagnóstico precoce e tratamento oportuno nesse público.
Conclui-se que a experiência foi exitosa ao ampliar o acesso à informação, o engajamento dos usuários com a ação, as testagens e insumos de prevenção, que contribuíram para o enfrentamento das IST. Além disso, evidenciam a importância de utilizar recursos que despertem interesse e promovam aproximação, considerando as especificidades e dinâmicas da vida nas ruas. A construção de vínculo, a escuta qualificada e a atuação multiprofissional são elementos essenciais para o sucesso das ações.
Secretaria de Saúde Campina Grande - Avenida Jornalista Assis Chateaubriand - Liberdade, Campina Grande - PB, Brasil
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