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A nova metodologia de Cofinanciamento da Atenção Primária à Saúde (APS), instituída pela Portaria GM/MS nº 3.493, de abril de 2024, trouxe como proposta o fortalecimento de políticas públicas prioritárias do Ministério da Saúde no território brasileiro, com foco na qualificação do cuidado ofertado pelas equipes da APS. Essa metodologia está estruturada em componentes relacionados ao vínculo e acompanhamento dos usuários, ampliação do acesso e indicadores de qualidade voltados à incorporação de boas práticas assistenciais.
No cuidado às pessoas com diabetes mellitus (DM), o novo modelo de cofinanciamento passou a incentivar práticas estratégicas voltadas ao cuidado integral, incluindo realização de consultas, aferição de pressão arterial, verificação de peso e altura, visita do Agente Comunitário de Saúde (ACS), solicitação de hemoglobina glicada e avaliação dos pés da pessoa com diabetes.
No município de Betim, de acordo com dados públicos do sistema de informação da APS, há cerca de 29 mil usuários cadastrados com diagnóstico de diabetes mellitus. O DM configura-se como um importante problema de saúde pública, associado a complicações crônicas que impactam diretamente a qualidade de vida dos usuários e os indicadores de morbimortalidade. Entre essas complicações, destacam-se as amputações de membros inferiores, frequentemente precedidas por condições evitáveis, como neuropatia diabética e lesões nos pés.
A análise de dados do DATASUS evidenciou aumento expressivo do número de amputações no município ao longo dos anos, passando de 74 casos em 2015 para 158 casos em 2025, com pico de 164 amputações em 2024. Considerando que aproximadamente 70% das amputações não traumáticas estão relacionadas ao DM, esse cenário reforça a necessidade de fortalecimento das ações preventivas e do manejo adequado da doença na APS. Além disso, estudos apontam que pessoas com diabetes submetidas à amputação apresentam importante redução da qualidade de vida e diminuição significativa da expectativa de vida, tornando a prevenção uma estratégia prioritária para os serviços de saúde.
A avaliação dos pés da pessoa com diabetes é reconhecida como uma importante boa prática assistencial, permitindo a identificação precoce de alterações e a implementação oportuna de intervenções preventivas e terapêuticas. Diante de sua relevância, o Ministério da Saúde incorporou esse procedimento como indicador de cuidado no âmbito do novo modelo de cofinanciamento da APS, além de incentivar estratégias de prevenção, como a Campanha Lava-Pés.
Nesse contexto, este trabalho descreve o processo de fortalecimento da avaliação dos pés da pessoa com diabetes na APS do município de Betim, por meio de ações de educação permanente em saúde e estratégias de mobilização territorial, bem como analisa os registros desse procedimento nos sistemas de informação após as intervenções realizadas.
Objetivo geral
Descrever o processo de fortalecimento da APS para o desenvolvimento da boa prática de avaliação dos pés da pessoa com diabetes.
Objetivos específicos
• Descrever o processo de planejamento e implementação das ações de educação permanente em saúde;
• Analisar os dados dos registros da avaliação do pé diabético;
• Discutir a implantação de campanhas para o fortalecimento do cuidado à pessoa com diabetes;
• Refletir sobre estratégias para ampliação da capilaridade das ações entre as equipes da APS.
Desenvolvimento da experiência
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, que apresenta a implementação de ações de educação permanente em saúde direcionadas aos profissionais da APS do município de Betim, com foco na qualificação do cuidado à pessoa com diabetes, especialmente na avaliação dos pés como estratégia de prevenção de lesões e amputações.
As ações foram estruturadas a partir da análise situacional dos dados epidemiológicos do município, que evidenciaram aumento do número de amputações e baixa incorporação da avaliação dos pés na rotina assistencial das equipes.
Para implantação do novo modelo de cofinanciamento no município, a gestão da APS organizou grupos de trabalho voltados à análise e compreensão das boas práticas propostas pelo Ministério da Saúde. No eixo relacionado ao cuidado da pessoa com diabetes, foi realizada avaliação dos registros da realização do exame dos pés e análise da série histórica das amputações no município. A partir das discussões realizadas com profissionais da APS, identificou-se a necessidade de planejamento de ações de educação permanente em saúde voltadas à qualificação dessa prática assistencial.
Foram realizadas três ações de educação permanente em saúde. A primeira foi direcionada aos profissionais enfermeiros, com abordagem centrada no manejo clínico das condições crônicas e na avaliação sistematizada dos pés da pessoa com diabetes. As demais ações envolveram profissionais da medicina, fisioterapia, terapia ocupacional e farmácia, com o objetivo de fortalecer o cuidado interdisciplinar.
As atividades foram desenvolvidas por meio de metodologias ativas de ensino-aprendizagem, favorecendo a problematização da prática e a construção coletiva do conhecimento. Foram utilizadas estratégias como estudo de casos, simulações práticas para avaliação dos pés, rodas de conversa e discussão de fluxos assistenciais, buscando favorecer a incorporação da prática na rotina dos serviços.
Também foram abordadas estratégias de autocuidado apoiado, com ênfase na educação popular em saúde para pessoas com diabetes, especialmente quanto aos cuidados com os pés e à identificação precoce de sinais de risco.
Como estratégia complementar para fortalecimento do cuidado à pessoa com diabetes, foi desenvolvida a campanha “Lava-Pés Betim”, alinhada às orientações do Ministério da Saúde e voltada à ampliação do acesso à avaliação dos pés e à prevenção de complicações relacionadas ao diabetes.
Para avaliação dos resultados, foram analisados dados secundários provenientes do sistema de informação da APS, considerando os registros do procedimento Exame do Pé Diabético (código 0301040095), com o objetivo de verificar o percentual de incremento após as intervenções realizadas.
Antes da implementação da experiência, o município enfrentava importantes desafios relacionados ao cuidado da pessoa com diabetes na APS. Apesar do número elevado de usuários diagnosticados com diabetes mellitus e do aumento expressivo no número de amputações de membros inferiores ao longo dos anos, observava-se baixa incorporação da avaliação dos pés na rotina assistencial das equipes. Os dados dos sistemas de informação evidenciavam número reduzido de registros do procedimento Exame do Pé Diabético, demonstrando fragilidade na realização e monitoramento dessa boa prática assistencial. Além disso, identificou-se a necessidade de maior alinhamento das equipes às diretrizes propostas pelo novo modelo de cofinanciamento da APS, especialmente em relação aos indicadores de qualidade e às ações preventivas voltadas ao cuidado integral da pessoa com diabetes. Nesse contexto, tornou-se necessária a implementação de estratégias de educação permanente em saúde e mobilização das equipes para fortalecimento do cuidado e prevenção de complicações relacionadas ao diabetes.
Foram realizadas três ações de educação permanente em saúde voltadas aos profissionais da APS do município de Betim, totalizando 309 profissionais qualificados das categorias de enfermagem, medicina, fisioterapia, terapia ocupacional e farmácia.
As atividades formativas ocorreram em oito encontros, com duração de quatro horas cada. Para os profissionais da enfermagem, as ações foram organizadas em turmas menores, favorecendo maior interação, participação ativa e troca de experiências entre os participantes.
As ações foram desenvolvidas nos meses de setembro de 2025, janeiro e março de 2026. Inicialmente, foram apresentados dados epidemiológicos municipais relacionados às pessoas com diabetes, seguidos de atividades práticas voltadas à qualificação do cuidado, com destaque para a avaliação clínica dos pés, realizada de forma prática durante as oficinas.
Para avaliação da efetividade das ações, foram analisados dados do sistema de informação da APS referentes ao registro do procedimento Exame do Pé Diabético (código 0301040095).
No ano de 2025, observou-se baixa frequência de registros ao longo dos primeiros meses do ano (janeiro: 2 registros; fevereiro: 7; março: 1; abril: 0), evidenciando baixa incorporação da avaliação dos pés na rotina assistencial. Ao longo de todo o ano, foram contabilizados 336 registros.
Em 2026, após a realização das ações de educação permanente em saúde, observou-se aumento expressivo no número de registros. Apenas nos quatro primeiros meses do ano foram registrados 1.543 exames (janeiro: 158; fevereiro: 190; março: 514; abril: 681), representando incremento aproximado de 359% em relação ao total de registros de todo o ano de 2025, mesmo considerando período parcial de análise.
Destaca-se tendência progressiva de crescimento ao longo dos meses de 2026, indicando não apenas ampliação da realização do procedimento, mas também sua incorporação à rotina das equipes da APS.
No mês de abril de 2026, período em que foi observado o maior número de registros, foi desenvolvida nas Unidades Básicas de Saúde do município a ação denominada “Lava-Pés Betim”, com foco na educação popular em saúde, avaliação dos pés da pessoa com diabetes e identificação precoce de alterações, com instituição de medidas preventivas e terapêuticas oportunas.
A iniciativa promoveu mobilização das equipes e dos usuários, ampliando o acesso à avaliação dos pés e fortalecendo práticas de autocuidado apoiado. A articulação entre as ações de educação permanente em saúde e a estratégia de mobilização comunitária demonstrou-se potente para qualificação do cuidado e ampliação das práticas preventivas na APS, podendo estar associada ao aumento expressivo dos registros observado no período.
Para o fortalecimento da prática a gestão da APS planeja enviar relatórios mensais que demonstrarão para as equipes o quantitativo de avaliações que foram realizadas e os usuários que ainda não tiveram a avaliação dos pés realizadas para que as equipes possam ofertar a avaliação em tempo oportuno.
Como recomendações para implementação de experiências semelhantes, destaca-se a importância da utilização dos dados epidemiológicos e dos sistemas de informação para identificação das necessidades do território e planejamento das ações. Também é fundamental o envolvimento da gestão e das equipes da APS desde o início do processo, favorecendo maior adesão às estratégias propostas. As ações de educação permanente em saúde devem estar alinhadas à realidade dos serviços e priorizar metodologias ativas, com atividades práticas que fortaleçam a segurança dos profissionais para realização da avaliação dos pés da pessoa com diabetes.
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