Constelações familiares sistêmicas em tempos de crise: relato de experiência e impactos terapêuticos no período pandêmico e pós-pandêmico em Santa Cruz de Cabrália

Resumo

Este artigo apresenta um relato de experiência sobre constelações familiares realizadas em Santa Cruz de Cabrália entre os anos de 2020 e 2023, em meio à crise sanitária da Covid-19 e seus desdobramentos. Foram atendidas mais de 2.400 pessoas em diferentes contextos de sofrimento humano, incluindo questões relacionais, profissionais e de saúde. Utiliza-se como base teórica a abordagem sistêmica de Bert Hellinger, aliada à Comunicação Não Violenta (CNV), Terapia Comunitária Integrativa (TCI) e à Comunicação Terapêutica em Enfermagem. Especial atenção é dada às constelações voltadas aos relacionamentos afetivos, padrão amplamente observado no período pandêmico. O estudo se ancora nos registros clínicos do NPICS Brasil e no artigo publicado na Revista REVIPSI (Salvador-BA).

Palavras-chave
Constelação Familiar; Relacionamentos Afetivos; Pandemia; Práticas Integrativas; Enfermagem; Comunicação Terapêutica; CNV; TCI.

Introdução

A pandemia de Covid-19 catalisou sofrimentos coletivos e individuais de grande amplitude, expondo vulnerabilidades emocionais, relacionais e existenciais. Em Santa Cruz de Cabrália (BA), o Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (NPICS Brasil) respondeu a esse cenário por meio da aplicação de constelações familiares em contextos diversos — de atendimentos comunitários e judiciais a práticas clínicas integradas ao SUS. A partir do artigo publicado na REVPSI e da experiência direta com os participantes, o presente estudo propõe uma reflexão aprofundada sobre o impacto sistêmico das constelações em tempos de crise, especialmente nas dinâmicas afetivas.

Objetivos

1. Relatar as experiências de constelações familiares realizadas em Santa Cruz de Cabrália no período de 2020 a 2023.
2. Analisar os impactos terapêuticos observados em casos de relacionamentos afetivos conflituosos.
3. Integrar os referenciais teóricos de Bert Hellinger, Rosenberg (CNV), Adalberto Barreto (TCI) e autores da Enfermagem no cuidado integral.

Metodologia

Trata-se de um relato de experiência descritivo com base qualitativa e observacional, ancorado na análise de dados de atendimentos realizados pelo NPICS Brasil no município de Santa Cruz de Cabrália entre setembro de 2020 e janeiro de 2023. Os registros incluem mais de 2.400 atendimentos sistematizados, segundo relatório do NASF e da Clínica InteraçãoSUS, com apoio da Prefeitura e do Fórum local.

As constelações foram realizadas nos formatos individual, em grupo, presenciais, híbridas e online, com acompanhamento de enfermeiros, terapeutas, psicólogos e agentes comunitários. A sistematização foi realizada por meio de prontuário eletrônico e devolutivas espontâneas dos participantes.

Resultados – Aprofundamento nos Relacionamentos Afetivos

As constelações relacionadas à esfera afetiva representaram cerca de 40% dos casos registrados, com temáticas recorrentes como:

Repetição de padrões tóxicos em relações amorosas;

Triangulações com ex-parceiros ou membros da família de origem;

Lealdades ocultas com pais que sofreram no amor;

Exclusão de antigos relacionamentos;

Medo de amar ou ser amado;

Sentimento de abandono, rejeição e traição.

Muitos desses emaranhamentos foram identificados como expressões de dinâmicas sistêmicas não resolvidas — especialmente identificações inconscientes com destinos trágicos de ancestrais ou tentativas de compensar dores vividas pelos pais.

Palavras que emergiram com frequência após os trabalhos foram: clareza, alívio, perdão, reconciliação, coragem e liberdade. Em alguns relatos, os participantes descreveram mudanças comportamentais importantes, reconexão com a própria história, e retomada da vida amorosa com mais consciência e responsabilidade.

Discussão

Bert Hellinger afirma que “o amor precisa de ordem para florescer”. Nos casos analisados, observou-se que o sofrimento nos relacionamentos amorosos era frequentemente resultado de ordens sistêmicas desrespeitadas: filhos ocupando o lugar de cônjuge, parceiros rejeitados, ex-companheiros excluídos ou destinos trágicos não reconhecidos.

A Comunicação Não Violenta, de Rosenberg, foi utilizada durante as entrevistas e partilhas, facilitando a verbalização das dores com empatia, sem julgamento. Essa abordagem ajudou a abrir espaço para expressões como: “quando você fala isso, sinto dor no peito”, ou “eu só queria ser vista”, conectando sentimentos a necessidades humanas universais, como pertencimento, segurança e amor.

Já a Terapia Comunitária Integrativa, nas rodas pós-constelação, permitiu o fortalecimento da escuta coletiva e da ressonância com outras histórias. Como propõe Adalberto Barreto, o sofrimento compartilhado cria identidade, apoio e sabedoria comunitária. Muitas falas como “eu achava que era só comigo” foram substituídas por “eu não estou só”.

Na Enfermagem, autores como Moura et al. (2020) e Balzer et al. (2021) reforçam que a escuta terapêutica é base essencial no cuidado, especialmente nos aspectos afetivos, que muitas vezes não são visíveis nas queixas físicas, mas manifestam-se em adoecimentos crônicos e angústias existenciais.

Conclusão

As constelações familiares realizadas em Santa Cruz de Cabrália durante o período pandêmico e pós-pandêmico mostraram-se eficazes no acolhimento e reorganização de vínculos afetivos desestruturados. As dores emergidas nos atendimentos — abandono, rejeição, traição, carência, medo do amor, repetições de relacionamentos tóxicos — foram abordadas à luz das ordens do amor de Bert Hellinger, permitindo não apenas o alívio emocional imediato, mas também a reconfiguração interna e relacional profunda.

A articulação com a Comunicação Não Violenta (CNV), a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) e os fundamentos da Comunicação Terapêutica da Enfermagem ampliou a potência do trabalho, tornando o cuidado mais sensível, empático e restaurador.

O modelo desenvolvido no município demonstra que é possível oferecer práticas integrativas de alta eficácia dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), com ética, metodologia, espiritualidade e respeito aos saberes populares e acadêmicos. Recomenda-se a replicação da experiência em outros territórios e a continuidade das pesquisas com avaliação longitudinal dos impactos emocionais, relacionais e sociais das constelações sistêmicas.

Referências Bibliográficas

BARRETO, Adalberto. Terapia Comunitária Integrativa: passo a passo. Petrópolis: Vozes, 2011.

BARRETO, Adalberto; QUEIROZ, Zenilda L. Terapia Comunitária Integrativa: construindo redes solidárias. Fortaleza: UFC, 2009.

BALZER, F. et al. Comunicação terapêutica: uma estratégia essencial ao cuidado de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 3, e20200829, 2021. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2020-0829.

FERNANDES, M. A. et al. Empatia e comunicação na prática de enfermagem: um estudo qualitativo. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 27, e3169, 2019. https://doi.org/10.1590/1518-8345.3273.3169.

GARRIGA, Joan. O Amor que nos Faz Bem. São Paulo: Planeta, 2015.

HELLINGER, Bert. A Simetria Oculta do Amor: sobre as configurações sistêmicas na terapia familiar. São Paulo: Cultrix, 2000.

HELLINGER, Bert. Ordens do Amor: um guia para o trabalho com constelações familiares. São Paulo: Atman, 2001.

HELLINGER, Bert. A Fonte Não Precisa Perguntar pelo Caminho. São Paulo: Atman, 2003.

HELLINGER, Bert. As Ordens da Ajuda. São Paulo: Atman, 2007.

HELLINGER, Bert. O Amor do Espírito. São Paulo: Atman, 2006.

MOURA, L. O. et al. A comunicação terapêutica no cuidado de enfermagem: uma revisão integrativa. Revista Enfermagem UERJ, Rio de Janeiro, v. 28, e49546, 2020. https://doi.org/10.12957/reuerj.2020.49546.

ROSENBERG, Marshall B. Comunicação Não Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2015.

ROSENBERG, Marshall B. Vivendo a Comunicação Não Violenta: valores espirituais na prática diária. São Paulo: Ágora, 2016.

TOWNSEND, Mary C. Terapia Psiquiátrica e Saúde Mental: fundamentos da enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.

autor Principal

Diego da Rosa Leal

npicscabralia@gmail.com

Enfermeiro Terapeuta Sistêmico

Coautores

Diego da Rosa Leal

A prática foi aplicada em

Santa Cruz Cabrália

Bahia

Nordeste

Esta prática está vinculada a

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Diego da Rosa Leal

Conta vinculada

24 jun 2025

CADASTRO

24 jun 2025

ATUALIZAÇÃO

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

Arquivos

TAGS

nenhuma
unblocked games + agar.io