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A Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como a principal porta de entrada e coordenadora do cuidado no SUS. Promovendo atenção integral que impacte positivamente nas condições de saúde da população. Além de ser reputada como o centro de comunicação da Rede de Atenção da saúde (Brasil, 2011).
No interior dessa rede, está o cuidado em saúde mental, um dos maiores desafios comtemporâneos da APS. Essa política foi fortalecida pela instituição da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), regulamentada pela portaria n° 3.088/2011.
A RAPS é formada por diferentes serviços, dentre eles o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e APS, que devem ser articulados e capazes de cuidar das pessoas em sofrimento mental e de seus familiares (Penze et al., 2023).
A principal ação executada nos territórios ainda é o encaminhamento para especialistas, direcionados ao CAPS. Que não deve ser entendido como o único serviço apto ao cuidado em saúde mental (Gazignato; Silva, 2014).
O CAPS e seu modelo Itinerante devem oferecer o suporte técnico-pedagógico, educação permanente, apoio matricial e compartilhamento de casos às equipes da APS, além de atuar diretamente em territórios desassistidos.
A itinerância do CAPS se dá com o deslocamento dos profissionais do CAPS levando seus serviços aos territórios de maior vulnerabilidade de acesso, realizando suas ações dentro das Unidades Básicas de Saúde. Viabilizando atividades que, dada a distância geográfica das comunidades assistidas, ficam na maioria das vezes negligenciadas pelos serviços da RAPS. Tal realidade expõe a persistente lacuna entre as diretrizes propostas pelas políticas de saúde mental e as práticas efetivamente realizadas no cotidiano dos serviços.
Umbuzeiro teve o CAPS itinerante implantado, na UBSF Alecrim (zona rural) em 2022 e atualmente tem suas ações em três Unidades rurais. O serviço teve sua implantação sem método de implantação para direcioná-lo ou avaliar sua funcionalidade.
Objetivos:
Relatar o funcionamento do CAPS Itinerante na Cidade de Umbuzeiro-PB.
Identificar os desafios e potencialidades na implantação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Itinerante, no Município de Umbuzeiro, a partir da perspectiva dos profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Trata-se de uma pesquisa de aspecto qualitativo. De natureza aplicada, seu objetivo está inserido no cenário das pesquisas exploratório-explicativas, como uma pesquisa de campo. Com delimitação temporal de estudo transversal.
Desenvolvida com profissionais da Rede de atenção psicossocial (RAPS), do município de Umbuzeiro-Paraíba. Que segundo IBGE 2022, tem uma população de 9.124 habitantes e área territorial de 185.578 km², com maior extenção geográfica rural (Brasil, 2022).
A escolha desse município justifica-se pela implementação do CAPS Itinerante e pela necessidade de avaliar sua efetividade dentro da RAPS municipal.
A população para este estudo, segundo o CNES, são 67 profissionais de nível superior, técnico e médio, os quais compõem as equipes do CAPS, Estratégia de saúde da família (ESF), e-Multi e saúde bucal. Foram realizadas treze entrevistas individuais no peíodo de outubro de 2025 a abril de 2026, por meio de formulário sócio demográfico e questionário semi estruturado, remotamente por gravação no Google Meet, após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O número final de entrevistados foi determinado pela saturação.
Foram adotados como critérios de exclusão: atuar há menos de seis meses na RAPS deste município, ser profissional das equipes de APS que não recebem o CAPS Itinerante. Assim como, os profissinais do CAPS que não realizam as ações itinerantes. Além daqueles que estivam afastados por atestado no periodo da coleta de dados.
A análise dos dados foi conduzida com base nos princípios do Método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), este método foi adotado por sua capacidade de revelar, a partir de falas individuais, representações sociais coletivas estruturadas. Expondo um discurso coletivo, que expresse os sentidos compartilhados pelo grupo pesquisado (Lefèvre; Lefèvre, 2017).
O DSC seguiu as seguintes etapas metodológicas: identificação de expressões-chave, ideias centrais e âncoras, que forão extraídas das entrevistas transcritas. As expressões forão agrupadas por similaridade de conteúdo, originando discursos representativos de cada categoria temática previamente definida a partir dos objetivos específicos do estudo.
A pesquisa seguiu as diretrizes da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e da Lei nº 14.874/2024 que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos. Aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), do Centro de Ciências da Saúde/UFPB, sob número de CAAE 92983525.3.0000.5188.
Participaram deste estudo 13 profissionais da RAPS de Umbuzeiro, dos serviços do CAPS I e APS. A maioria dos profissionais está com idade de 20 a 30 anos (41,7%); é do sexo feminino (75%), e se autodeclararam brancos e pardos (50%) em ambos. Os dados das características do trabalho dos profissionais estão presentes na tabela 1.
Tabela 1. Características do trabalho dos profissionais participantes, em valores absolutos e relativos, do CAPS I e APS de Umbuzeiro- PB, 2026
Variáveis Total (n=13) %
Categorias profissionais
Psicólogo 3 23,8
Enfermeiro 3 23,8
Assistente Social 2 15,38
Agente Comunitário de Saúde 2 15,38
Cirurgião Dentista 1 7,69
Educador Físico 1 7,69
Artesã 1 7,69
Tempo de Trabalho na RAPS
Menos de 1 ano 2 15,38
1 a 3 anos 5 38,46
4 a 6 anos 3 23,08
Mais de 6 anos 2 15,38
Fonte: Própria (2026)
O funcionamento do CAPS Itinerante é organizado por cronograma mensal, com atendimentos quinzenais em comunidades rurais. As ações ocorrem por meio de oficinas terapêuticas, realizadas em UBSF, utilizando seus espaços físicos e articulando-se com suas equipes. A equipe é multiprofissional e atua de forma rotativa, garantindo a continuidade do serviço na sede. Também são realizados acolhimentos para inserção no serviço, visitas e acompanhamento contínuo dos usuários, inclusive por meio de tecnologias leves (grupos de WhatsApp). O objetivo central é fortalecer o vínculo com usuários e famílias, ampliar o acesso e evitar a descontinuidade do cuidado na rede.
“Tem o telefone aqui, montamos um grupo de WhatsApp, e a gente dá esse suporte…sobre medicação e suas reações.” (P2)
As idéias centrais identificados quanto às potencialidades do CAPS Itinerante foram: ampliação do acesso dos usuáios aos serviços de saúde mental; redução de barreiras geográficas e econômicas; melhora da comunicação interprofissional; assistências por busca ativa; fortalecimento do vínculo; promoção da reinserção social; desconstrução do estigma em saúde mental.
“É difícil acessar a sede do CAPS, o custo é alto para eles virem de condução.” (P2)
Quanto aos desafios as idéias centrais identificadas foram: limitações logísticas e na cobertura territorial; limitação de recursos humanos e sobrecarga; baixa adesão de alguns grupos (usuários de álcool e drogas); necessidade de educação permanente; limitações estruturais; ausência de disponibilidade do atendimento psiquiatra e individual Itinerante.
“O desafio, eu acho que é mais em recurso e espaço na unidade.” (P3)
A análise dos resultados evidencia que o CAPS Itinerante se configura como estratégia relevante para a reorganização do cuidado em saúde mental no território. A organização por cronograma mensal e atendimentos descentralizados em áreas rurais demonstra potencial para ampliar o acesso, reduzir barreiras geográficas e econômicas e promover maior equidade no cuidado (Brasil, 2011; Lancetti & Amarante, 2016).
As potencialidades, como fortalecimento do vínculo, ampliação da comunicação interprofissional e uso de tecnologias leves, reforçam a centralidade das práticas relacionais e do cuidado longitudinal na efetividade das ações. Convergindo sobre a importância do trabalho em equipe na qualificação da atenção psicossocial (Merhy, 2002; Silva et al., 2020).
Entretanto, persistem desafios, como limitações logísticas, subfinanciamento, fragilidade da rede especializada, limitações de recursos humanos e sobrecarga. Tais fatores comprometem a consolidação e sustentabilidade da estratégia, evidenciando a necessidade de ampliação do cuidado especializado e de mais investimentos (Campos & Domitti, 2007; Delgado, 2019).
Conclui-se que o CAPS Itinerante é potente para ampliar o acesso e qualificar o cuidado em saúde mental. Contudo, sua efetividade depende do enfrentamento das fragilidades estruturais, do fortalecimento da RAPS e de investimentos contínuos em financiamento, recursos humanos. Sugere-se outros estudos sejam realização, com abrangências e diferentes delineamentos metodológicos.
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