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O projeto surge a partir da identificação de um crescimento de licenças para tratamento de saúde decorrentes do sofrimento psíquico nos últimos três anos entre trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS) do município de Patos de Minas – MG. Neste contexto o projeto visa promover a saúde mental do trabalhador e suas relações interpessoais favorecendo o bem-estar e a qualidade de vida no ambiente de trabalho na APS. Trata-se da implementação de encontros presenciais programados, realizados nas Unidade Saúde da Família (USF), proporcionando um espaço de cuidado coletivo conduzido por uma psicóloga a partir de práticas terapêuticas. O público-alvo são os membros das equipes de saúde da família (ESF), equipe de saúde bucal (ESB), Emulti e demais integrantes da USF. O projeto iniciou em dezembro de 2025, com a implantação de cinco encontros quinzenais com 10 grupos de trabalhadores da USF. Nos encontros foram desenvolvidas intervenções relacionadas com acolhimento, integração e pertencimento de grupo, autoconhecimento, psicoeducação e regulação emocional, espiritualidade e relações humanas.
O projeto tem como objetivo geral promover a saúde mental do trabalhador e suas relações interpessoais favorecendo o bem-estar e a qualidade de vida no ambiente de trabalho no contexto da atenção primária; e como objetivos específicos implementar encontros presenciais programados nas Unidades de Saúde da Família; instituir intervenções coletivas relacionadas com acolhimento, integração, autoconhecimento, regulação emocional, espiritualidade e relações humanas; promover um ambiente de trabalho acolhedor e humanizado visando fortalecer o bem-estar e qualidade de vida dos trabalhadores; implantar o cuidado singular, integral e humanizado aos trabalhadores, que valorize o acolhimento, o autoconhecimento, a relação humana e a espiritualidade; promover um espaço coletivo acolhedor e seguro, garantindo aos trabalhadores a oportunidade de se expressarem livremente e identificar alterações de saúde mental, que trazem prejuízo na qualidade de vida pessoal e laboral do trabalhador.
Trata-se da apresentação de um relato de experiência sobre a implantação do projeto “Bem-me-quer” no município de Patos de Minas – MG, no período de junho/2025 até o momento. O projeto pretende contemplar ao longo de 24 meses todos os membros da rede da APS, incluindo as 43 ESF, 37 ESB, 5 Emulti, 34 recepcionistas e 39 administrativos. No primeiro momento foi realizada a construção do documento orientador do projeto, bem como a confecção de um Caderno de Vivências, com orientações para guiar o participante durante os encontros e espaço para registros pessoais das reflexões realizadas. No segundo momento, iniciado em dez/2025, contemplou os membros da ESF, ESB, Emulti e demais integrantes da USF. Estes foram organizados em 10 grupos com a média de 10 a 20 participantes, sendo estes: sete grupos de ESF, um de administrativos, um de recepcionistas e um de supervisores da APS, sendo realizados cinco encontros quinzenais com cada grupo com a duração de aproximada de quatro horas cada. Faz-se necessário informar que todos os participantes receberam e assinaram o termo de autorização de uso de dado e imagens conforme a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Nos encontros foram distribuídos o Caderno de Vivências personalizado e desenvolvidas intervenções relacionadas com acolhimento, integração e pertencimento de grupo, autoconhecimento, psicoeducação e regulação emocional, espiritualidade e relações humanas. No primeiro encontro foi realizada a construção coletiva dos acordos de convivência e dinâmica de apresentação para a construção de sentimento de pertencimento ao grupo. No segundo foram promovidas estratégias de autoconhecimento. No terceiro foram realizadas atividades de psicoeducação sobre emoções utilizando de dinâmicas para ampliar a consciência emocional dos participantes. No quarto encontro foram trabalhados temas de espiritualidade e sentido da vida utilizando de meditação guiada, pratica corporal de Tai Chi Chuan e da abordagem da Logoterapia de Vicktor Frankl, estimulando os participantes a refletirem sobre propósito e significado. O último encontro foi direcionado à temática das relações humanas no ambiente de trabalho, com foco na promoção de um ambiente mais saudável, acolhedor e humanizado visando estimular a reflexão individual e coletiva sobre relações interpessoais, manejo de conflitos, comunicação empática, valorização da diversidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e cultura do reconhecimento.
O projeto surgiu diante do aumento significativo de afastamentos e licenças relacionados ao sofrimento psíquico entre trabalhadores da Atenção Primária à Saúde do município de Patos de Minas – MG, evidenciando impactos negativos na saúde mental, nas relações interpessoais, na qualidade de vida e no ambiente de trabalho. Observou-se também a ausência de espaços estruturados e permanentes voltados ao acolhimento emocional, à escuta qualificada e ao cuidado psicossocial dos profissionais da APS.
Como oportunidade, identificou-se a possibilidade de desenvolver uma estratégia coletiva, humanizada e de baixo custo capaz de fortalecer o bem-estar emocional, promover vínculos entre os trabalhadores e estimular práticas de autocuidado no próprio ambiente laboral. O projeto “Bem-me-quer” foi então estruturado como uma proposta inovadora de promoção da saúde mental, integrando acolhimento, práticas vivenciais, espiritualidade, regulação emocional e fortalecimento das relações humanas no contexto do SUS.
Foi elaborado e confeccionado o Caderno de Vivências personalizado constituído com a descrição de todas as intervenções terapêuticas dos cinco encontros e espaço para registo das reflexões do participante. Foram realizados 50 encontros presenciais abrangendo 160 trabalhadores da APS, no período de dezembro de 2025 a abril de 2026, na USF de referência dos trabalhadores. Foram utilizadas como ferramentas terapêuticas dinâmicas de acolhimento, apresentação e manejo de emoções, meditações guiadas, construção de trajetória pessoal e da roda da vida, metas para o futuro, estratégias para regulação emocional, prática corporal de Tai Chi Chan, identificação de valores pessoais, rodas de conversa, registro no diário emocional guiado, investigação da ansiedade e outras ferramentas específicas adaptadas conforme as demandas emergentes de cada grupo. Esse conjunto de intervenções possibilitou não apenas o fortalecimento emocional e interpessoal dos participantes, mas também a ampliação da consciência sobre si, promovendo espaços de escuta qualificada, troca e cuidado coletivo no ambiente de trabalho. Após a finalização dos encontros tem sido disponibilizado aos participantes um formulário para feedback do projeto. Evidenciou-se até o momento que dos 160 participantes 80 responderam o formulário, 56% avaliaram o projeto como ótimo, 42% como bom, 100% referiram que foram acolhidos e respeitados e 100% afirmaram que os encontros contribuíram para a reflexão acerca de suas emoções, sentimentos e comportamentos, 94% perceberam mudanças em como lidam com suas emoções, 90% referem melhora na saúde mental, 100% recomendam o projeto para outros trabalhadores e 79% desejam a continuidade do projeto com encontros mensais.
Conclui-se que o projeto “Bem-me-quer: o cuidado começa em nós” configura-se como uma estratégia relevante, inovadora e de alta aplicabilidade na promoção da saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde. A proposta alcançou seus objetivos ao instituir um espaço estruturado de escuta e acolhimento, favorecendo o desenvolvimento do autoconhecimento, da regulação emocional e o fortalecimento das relações interpessoais no ambiente de trabalho. Os resultados evidenciam elevada aceitação e impacto significativo, com melhora percebida na saúde mental, ampliação da capacidade de manejo das emoções e fortalecimento dos vínculos entre os profissionais. Destaca-se o caráter inovador da intervenção ao integrar práticas vivenciais e acessíveis no próprio contexto laboral, com baixo custo e potencial de incorporação à rotina dos serviços. Assim, intervenções grupais estruturadas demonstram-se eficazes para qualificar o cuidado ao trabalhador e promover ambientes mais saudáveis e colaborativos. Recomenda-se a continuidade e institucionalização da proposta, com vistas à sua ampliação e replicação em outros cenários do SUS, reafirmando que o cuidado com quem cuida é elemento estratégico para a sustentabilidade dos serviços e a qualidade da assistência.
Recomenda-se que iniciativas voltadas à promoção da saúde mental do trabalhador sejam incorporadas de forma permanente na rotina da Atenção Primária à Saúde, reconhecendo o cuidado ao trabalhador como componente estratégico para a qualidade da assistência e sustentabilidade dos serviços. O projeto demonstrou que espaços coletivos de escuta, acolhimento e fortalecimento emocional possuem elevada aceitação entre os profissionais e podem ser implementados com baixo custo e alta aplicabilidade no contexto do SUS.
Sugere-se que gestores invistam na institucionalização de ações periódicas de cuidado psicossocial, incluindo rodas de conversa, práticas integrativas e momentos de reflexão coletiva, favorecendo ambientes mais humanizados, colaborativos e saudáveis. Recomenda-se ainda a ampliação da proposta para outros serviços e níveis de atenção, bem como o monitoramento contínuo dos impactos relacionados à saúde mental, absenteísmo, satisfação profissional e qualidade de vida dos trabalhadores.
Para facilitar a replicação da experiência em outros municípios, orienta-se que as ações sejam planejadas de forma participativa, respeitando as especificidades locais e garantindo apoio da gestão, disponibilidade de facilitadores qualificados e criação de espaços seguros de fala e escuta. A utilização de metodologias vivenciais e de práticas integrativas mostrou-se potente para estimular pertencimento, autocuidado e fortalecimento das relações interpessoais no ambiente de trabalho.
Secretaria Municipal de Saúde de Patos de Minas - Rua Ana de Oliveira - Centro, Patos de Minas - MG, Brasil
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