Geovigilância na atenção primária: do risco clínico-funcional de idosos à ação no território

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João Carlos Tavares da Costa

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João Carlos Tavares da Costa

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O envelhecimento populacional impõe desafios crescentes à Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente na identificação precoce de idosos em situação de vulnerabilidade clínico-funcional. Embora os sistemas de informação, como o e-SUS PEC, disponibilizem dados relevantes, sua utilização no planejamento territorial ainda é limitada. Em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), observou-se dificuldade na identificação de áreas prioritárias e na organização do cuidado baseado em risco. A ausência de ferramentas que integrassem dados clínicos e território resultava em ações pouco direcionadas e reativas. Diante disso, foi implementada uma estratégia de geovigilância do risco clínico-funcional, utilizando geotecnologias para análise espacial dos idosos acompanhados. A proposta busca transformar dados assistenciais em inteligência territorial aplicada, contribuindo para a qualificação da tomada de decisão, organização do processo de trabalho e melhoria do cuidado à pessoa idosa. O objetivo é implementar estratégia de geovigilância do risco clínico-funcional de idosos para qualificar a estratificação de risco, o planejamento territorial e a tomada de decisão na Atenção Primária à Saúde. Como objetivos específicos: identificar idosos com maior vulnerabilidade por meio do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), mapear a distribuição espacial do risco clínico-funcional no território adscrito, analisar a densidade de casos com alto risco e identificar clusters de vulnerabilidade na área de abrangência, subsidiar o planejamento das ações da equipe multiprofissional com base em evidências territoriais, promover detecção precoce de declínio funcional e cognitivo, qualificar o acompanhamento longitudinal dos usuários, fortalecer a integração entre assistência e vigilância em saúde e apoiar a organização do acesso e da coordenação do cuidado conforme estratificação de risco.

Trata-se de um relato de experiência com abordagem quantitativa, descritiva e territorial, desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde. Foram analisados 433 prontuários de idosos, dentre um total de 1107 cadastrados na área adscrita, correspondendo a 39,1% da população idosa. Adicionalmente, foram realizadas 561 avaliações multidimensionais da pessoa idosa nos últimos seis meses, ampliando a base de análise clínica e funcional da população acompanhada. O projeto vem sendo desenvolvido desde outubro de 2025, incluindo ações de educação permanente com ACS/TACS, equipe da UBS e equipe e-Multi, com foco na identificação precoce de sinais clínicos e funcionais associados ao aumento do escore do IVCF-20. A coleta de dados ocorreu a partir do e-SUS PEC, com extração individual de informações sociodemográficas, endereço e avaliação clínica. Cada idoso foi submetido à aplicação do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), sendo posteriormente classificado em estratos de risco (baixo, moderado e alto). Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas gratuitas, contendo variáveis clínicas, classificação de risco e logradouro completo. Em seguida, foi realizada a geocodificação dos endereços, convertendo-os em coordenadas geográficas (latitude e longitude), seguida de revisão e correção manual de inconsistências para garantir maior acurácia espacial. Após essa etapa, os dados foram transpostos para o software QGIS, ferramenta gratuita e de código aberto, onde foram estruturadas camadas temáticas com base nos estratos de risco. Foram elaborados mapas de distribuição espacial, permitindo análise da densidade de casos e identificação de áreas com maior concentração de idosos de alto risco. As camadas construídas possibilitaram avaliação integrada das variáveis clínicas e territoriais, subsidiando o planejamento das ações da equipe, a priorização de visitas domiciliares e a organização do acompanhamento longitudinal conforme risco e localização.

Foram analisados 433 prontuários (39,1% da população idosa) e realizadas 561 avaliações multidimensionais nos últimos seis meses, ampliando a capacidade de identificação precoce de vulnerabilidade clínico-funcional. A análise espacial permitiu identificar áreas com maior concentração de idosos de alto risco, evidenciando padrões territoriais de vulnerabilidade frequentemente não perceptíveis na análise individual. Essa visualização possibilitou o direcionamento mais preciso das ações da equipe, com priorização de visitas domiciliares, organização do acompanhamento longitudinal e planejamento de intervenções conforme a distribuição do risco no território. Houve reorganização do processo de trabalho, com transição de um modelo reativo para um modelo programado, orientado por estratificação de risco e evidências territoriais. As ações educativas junto às equipes contribuíram para maior sensibilidade na identificação precoce de sinais de risco, qualificando a avaliação clínica e o acompanhamento dos usuários. Do ponto de vista da gestão, a utilização dos mapas e da análise de densidade e clusters de alto risco ampliou a capacidade de planejamento em saúde, subsidiando a definição de áreas prioritárias para intervenção, otimização da alocação de recursos e organização de ações coletivas e intersetoriais. A estratégia demonstrou potencial para orientar políticas públicas voltadas à população idosa, ao fornecer base territorial para planejamento de ações preventivas, organização da rede de cuidado, integração com a vigilância em saúde e articulação com outras políticas, como assistência social e planejamento urbano. Observou-se maior uso dos dados na tomada de decisão, melhor distribuição das ações no território e fortalecimento da coordenação do cuidado na APS. Trata-se de uma prática em andamento, com expansão progressiva da cobertura e perspectiva de ampliação do georreferenciamento para todo o território adscrito.

A geovigilância do risco clínico-funcional mostrou-se estratégia eficaz para qualificar o cuidado à população idosa na Atenção Primária à Saúde, ao integrar dados assistenciais e análise territorial na organização do processo de trabalho. A utilização dessas informações permitiu maior precisão na identificação de vulnerabilidades, possibilitando à equipe direcionar intervenções clínicas de forma mais assertiva e qualificar o acompanhamento longitudinal. A experiência influenciou diretamente a tomada de decisão clínica, ao subsidiar a definição de condutas, o monitoramento contínuo e a organização das agendas conforme estratificação de risco, fortalecendo atributos da APS como coordenação do cuidado, longitudinalidade e integralidade. No âmbito da gestão, a análise espacial ampliou a capacidade de planejamento em saúde, contribuindo para melhor alocação de recursos, definição de áreas prioritárias e apoio à formulação de ações voltadas à população idosa. Destaca-se por seu custo zero, alta aplicabilidade e potencial de replicação em diferentes contextos municipais, além de abrir perspectivas para análises epidemiológicas, planejamento territorial e acompanhamento longitudinal. Trata-se de uma prática em consolidação, com potencial de expansão para todo o território.

autor Principal

João Carlos Tavares da Costa

joaotavar@live.com

Médico de Família e Comunidade

Coautores

João Carlos Tavares da Costa

A prática foi aplicada em

São Lourenço

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

R. Madame Schimidt, 10, São Lourenço - MG, 37470-000, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

João Carlos Tavares da Costa

Conta vinculada

05 maio 2026

CADASTRO

05 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

01 out 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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