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O envelhecimento populacional impõe desafios crescentes à Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente na identificação precoce de idosos em situação de vulnerabilidade clínico-funcional. Embora os sistemas de informação, como o e-SUS PEC, disponibilizem dados relevantes, sua utilização no planejamento territorial ainda é limitada. Em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), observou-se dificuldade na identificação de áreas prioritárias e na organização do cuidado baseado em risco. A ausência de ferramentas que integrassem dados clínicos e território resultava em ações pouco direcionadas e reativas. Diante disso, foi implementada uma estratégia de geovigilância do risco clínico-funcional, utilizando geotecnologias para análise espacial dos idosos acompanhados. A proposta busca transformar dados assistenciais em inteligência territorial aplicada, contribuindo para a qualificação da tomada de decisão, organização do processo de trabalho e melhoria do cuidado à pessoa idosa. O objetivo é implementar estratégia de geovigilância do risco clínico-funcional de idosos para qualificar a estratificação de risco, o planejamento territorial e a tomada de decisão na Atenção Primária à Saúde. Como objetivos específicos: identificar idosos com maior vulnerabilidade por meio do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), mapear a distribuição espacial do risco clínico-funcional no território adscrito, analisar a densidade de casos com alto risco e identificar clusters de vulnerabilidade na área de abrangência, subsidiar o planejamento das ações da equipe multiprofissional com base em evidências territoriais, promover detecção precoce de declínio funcional e cognitivo, qualificar o acompanhamento longitudinal dos usuários, fortalecer a integração entre assistência e vigilância em saúde e apoiar a organização do acesso e da coordenação do cuidado conforme estratificação de risco.
Trata-se de um relato de experiência com abordagem quantitativa, descritiva e territorial, desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde. Foram analisados 433 prontuários de idosos, dentre um total de 1107 cadastrados na área adscrita, correspondendo a 39,1% da população idosa. Adicionalmente, foram realizadas 561 avaliações multidimensionais da pessoa idosa nos últimos seis meses, ampliando a base de análise clínica e funcional da população acompanhada. O projeto vem sendo desenvolvido desde outubro de 2025, incluindo ações de educação permanente com ACS/TACS, equipe da UBS e equipe e-Multi, com foco na identificação precoce de sinais clínicos e funcionais associados ao aumento do escore do IVCF-20. A coleta de dados ocorreu a partir do e-SUS PEC, com extração individual de informações sociodemográficas, endereço e avaliação clínica. Cada idoso foi submetido à aplicação do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), sendo posteriormente classificado em estratos de risco (baixo, moderado e alto). Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas gratuitas, contendo variáveis clínicas, classificação de risco e logradouro completo. Em seguida, foi realizada a geocodificação dos endereços, convertendo-os em coordenadas geográficas (latitude e longitude), seguida de revisão e correção manual de inconsistências para garantir maior acurácia espacial. Após essa etapa, os dados foram transpostos para o software QGIS, ferramenta gratuita e de código aberto, onde foram estruturadas camadas temáticas com base nos estratos de risco. Foram elaborados mapas de distribuição espacial, permitindo análise da densidade de casos e identificação de áreas com maior concentração de idosos de alto risco. As camadas construídas possibilitaram avaliação integrada das variáveis clínicas e territoriais, subsidiando o planejamento das ações da equipe, a priorização de visitas domiciliares e a organização do acompanhamento longitudinal conforme risco e localização.
Foram analisados 433 prontuários (39,1% da população idosa) e realizadas 561 avaliações multidimensionais nos últimos seis meses, ampliando a capacidade de identificação precoce de vulnerabilidade clínico-funcional. A análise espacial permitiu identificar áreas com maior concentração de idosos de alto risco, evidenciando padrões territoriais de vulnerabilidade frequentemente não perceptíveis na análise individual. Essa visualização possibilitou o direcionamento mais preciso das ações da equipe, com priorização de visitas domiciliares, organização do acompanhamento longitudinal e planejamento de intervenções conforme a distribuição do risco no território. Houve reorganização do processo de trabalho, com transição de um modelo reativo para um modelo programado, orientado por estratificação de risco e evidências territoriais. As ações educativas junto às equipes contribuíram para maior sensibilidade na identificação precoce de sinais de risco, qualificando a avaliação clínica e o acompanhamento dos usuários. Do ponto de vista da gestão, a utilização dos mapas e da análise de densidade e clusters de alto risco ampliou a capacidade de planejamento em saúde, subsidiando a definição de áreas prioritárias para intervenção, otimização da alocação de recursos e organização de ações coletivas e intersetoriais. A estratégia demonstrou potencial para orientar políticas públicas voltadas à população idosa, ao fornecer base territorial para planejamento de ações preventivas, organização da rede de cuidado, integração com a vigilância em saúde e articulação com outras políticas, como assistência social e planejamento urbano. Observou-se maior uso dos dados na tomada de decisão, melhor distribuição das ações no território e fortalecimento da coordenação do cuidado na APS. Trata-se de uma prática em andamento, com expansão progressiva da cobertura e perspectiva de ampliação do georreferenciamento para todo o território adscrito.
A geovigilância do risco clínico-funcional mostrou-se estratégia eficaz para qualificar o cuidado à população idosa na Atenção Primária à Saúde, ao integrar dados assistenciais e análise territorial na organização do processo de trabalho. A utilização dessas informações permitiu maior precisão na identificação de vulnerabilidades, possibilitando à equipe direcionar intervenções clínicas de forma mais assertiva e qualificar o acompanhamento longitudinal. A experiência influenciou diretamente a tomada de decisão clínica, ao subsidiar a definição de condutas, o monitoramento contínuo e a organização das agendas conforme estratificação de risco, fortalecendo atributos da APS como coordenação do cuidado, longitudinalidade e integralidade. No âmbito da gestão, a análise espacial ampliou a capacidade de planejamento em saúde, contribuindo para melhor alocação de recursos, definição de áreas prioritárias e apoio à formulação de ações voltadas à população idosa. Destaca-se por seu custo zero, alta aplicabilidade e potencial de replicação em diferentes contextos municipais, além de abrir perspectivas para análises epidemiológicas, planejamento territorial e acompanhamento longitudinal. Trata-se de uma prática em consolidação, com potencial de expansão para todo o território.
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