Oftalmologia e equidade: atendimento especializado à população em situação de rua em Belo Horizonte (MG)

Você já pode imprimir seu certificado

Romilda Euzébio Araújo

Romilda Euzebio Araujo

Romilda Euzébio Araújo

favor seguir os ajustes necessários abaixo:

Nenhuma recomendação da moderação

APRESENTAÇÃO:
A População em Situação de Rua (Dec 7.053, 23/12/09) é um grupo heterogêneo marcado por pobreza extrema, fragilidade de vínculos familiares e uso de espaços públicos para moradia. Esse grupo enfrenta barreiras geográficas, burocráticas e sociais que dificultam o acesso à atenção especializada em saúde. A maior exposição a doenças infecciosas, agravos de saúde mental e limitações no acesso aos serviços evidencia a necessidade de ampliar e integrar as políticas do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), garantindo equidade no cuidado. Em Belo Horizonte, a atenção a essa população ocorre por meio dos Centros de Referência para a População em Situação de Rua (Centro POP), vinculados à Secretaria Municipal de Assistência Social (SMASAC). Esses centros oferecem acolhimento e serviços básicos como lanches, higiene e lavagem de roupas, apoio para documentação, guarda de pertences e orientações sobre trabalho e direitos. A proposta deste trabalho surgiu da necessidade de ampliar o acesso à atenção oftalmológica de média complexidade, reduzindo desigualdades. O Centro Municipal de Oftalmologia (CMO) já realiza atendimentos mediante solicitações dos Centros POP, do Consultório na Rua e por demanda espontânea, com avaliação no mesmo dia conforme a necessidade clínica. Contudo, persistem limitações do acesso relacionadas ao deslocamento dos usuários, adesão ao acompanhamento e continuidade do cuidado. Diante disso, optou-se por levar o atendimento oftalmológico diretamente aos locais de acolhimento. Por meio de parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) e SMASAC, já existente para atividades de promoção e prevenção em saúde, o CMO passou a integrar essas ações a partir de julho de 2025, com equipes e equipamentos deslocados aos Centros POP. A iniciativa prevê realização anual e visa ofertar exames oftalmológicos no território, favorecendo diagnóstico precoce, encaminhamento adequado e ampliação do acesso ao cuidado integral.

OBJETIVOS:
Objetivo Geral:
– Ofertar e realizar o atendimento oftalmológico às pessoas em situação de rua diretamente nos espaços de acolhimento, centros POP de Belo Horizonte.
Objetivos Específicos:
– Ampliar o acesso dessa população aos serviços especializados da rede SUS.
– Diagnosticar precocemente problemas oftalmológicos e promover tratamento oportuno.
– Identificar as principais patologias oculares que acometem esse grupo.
– Fortalecer a intersetorialidade entre SMSA e SMASAC na atenção à população em situação de rua.
– Evidenciar a Oftalmologia como uma especialidade essencial no cuidado com a saúde considerando que todas as pessoas necessitam de avaliação oftalmológica.

METODOLOGIA:
Trata-se de um relato de experiência de intervenção assistencial, realizada entre julho de 2025 e abril de 2026, nos Centros de Referência para a População em Situação de Rua (Centro POP) de Belo Horizonte.
A ação foi desenvolvida a partir de convite do Núcleo de Atenção Psicossocial, Promoção da Saúde e Intersetorialidade da Diretoria Regional de Saúde Noroeste ao Centro Municipal de Oftalmologia (CMO), com o objetivo de integrar o atendimento oftalmológico às atividades mensais já realizadas nesses espaços, como vacinação, testes rápidos de IST, orientação sobre saúde bucal, saúde mental e outras ações educativas.
Após pactuação entre as equipes, definiu-se a realização de atendimento oftalmológico completo no local, incluindo avaliação da acuidade visual, refração, biomicroscopia, medida da pressão intraocular e exame de fundo de olho, visando garantir maior resolutividade da assistência. Foram selecionados os equipamentos e materiais necessários: tabela de Snellen, lâmpada de fenda, auto refrator, tonômetro de sopro, refrator manual, oftalmoscópio binocular indireto, colírios midriáticos, fichas para identificação e anotação dos dados da avaliação além de álcool 70%, máscaras e luvas descartáveis, algodão, gaze, canetas e pranchetas.
O planejamento das ações ocorreu com antecedência mínima de 30 dias, envolvendo organização das agendas dos profissionais, articulação com os Centros POP para divulgação e mobilização do público, além do suporte logístico dos setores de Engenharia Clínica e Transporte para deslocamento e instalação dos equipamentos.
Participaram das ações oftalmologistas, enfermeiro, técnicos de enfermagem e assistentes administrativos do CMO. Em dois Centros POP, acadêmicos de medicina contribuíram com a triagem inicial da acuidade visual.
Foram realizadas a prescrição de óculos e colírios e indicação de procedimentos cirúrgicos oftalmológicos de acordo com a necessidade. Os casos com necessidade de avaliação especializada foram encaminhados por meio de agendamento direto no sistema de regulação municipal, garantindo continuidade do cuidado na rede SUS-BH.

A proposta deste trabalho surgiu da necessidade de ampliar o acesso à atenção oftalmológica de média complexidade, reduzindo desigualdades, considerando o contexto de vulnerabilidade da população em situação de rua. O Centro Municipal de Oftalmologia (CMO) já realiza atendimentos mediante solicitações dos Centros POP, do Consultório na Rua e por demanda espontânea, com avaliação no mesmo dia conforme a necessidade clínica. Contudo, persistem limitações do acesso relacionadas ao deslocamento dos usuários, adesão ao acompanhamento e continuidade do cuidado.

RESULTADOS:
Entre julho de 2025 e abril de 2026, foram realizadas ações em três Centros POP, com atendimento de 154 pessoas em situação de rua. Destas, 50 (32,5%) apresentaram alterações que demandaram encaminhamento para avaliação especializada na rede SUS-BH. Os principais achados incluíram erros refrativos e patologias como pterígeo, catarata, glaucoma e estrabismo. Dentre as patologias a análise diagnóstica revelou que o erro refrativo foi a patologia mais comum, presumido em 81 (52,6%) usuários, sendo que desses, 45 (29,2%) já receberam a prescrição dos óculos, realizada no momento do atendimento. A suspeita de glaucoma foi a segunda condição mais comum, afetando 25 indivíduos (16,2%), seguida do pterígio em 14 casos (9,1%) e da catarata em 9 pacientes (5,8%). Outros achados clínicos incluíram o estrabismo (3 casos; 1,9%) e patologias de retina (3 casos; 1,9%). Condições mais raras na amostra, como a seclusão pupilar e afecções de neuro-oftalmologia, ocorreram em um caso cada. Garantindo a integralidade, os pacientes indicados receberam agendamento imediato e orientações sobre o seguimento clínico, viabilizando o acesso direto à continuidade da assistência. A estratégia possibilitou a identificação de casos com risco potencial de perda visual e contribuiu para a redução de barreiras de acesso à atenção especializada, especialmente em uma população historicamente excluída dos serviços de saúde.

CONCLUSÃO:
A inserção da atenção oftalmológica nos Centros POP mostrou-se uma estratégia eficaz para ampliar o acesso à atenção especializada, promover diagnóstico precoce e garantir tratamento inicial e encaminhamento oportuno na rede SUS. Essa descentralização do atendimento especializado mostra-se uma ferramenta eficaz de equidade. A experiência evidencia o papel central da intersetorialidade na organização do cuidado, ao integrar saúde e assistência social para alcançar populações em alta vulnerabilidade. Além disso, a iniciativa apresenta potencial de replicabilidade em outros territórios, contribuindo para o fortalecimento de redes de atenção mais inclusivas, resolutivas e alinhadas às diretrizes do SUS.

A experiência demonstra que a descentralização do atendimento especializado pode ser uma estratégia eficaz para ampliar o acesso e garantir a equidade considerando populações vulneráveis. É necessário assumir a intersetorialidade como um pilar central na organização do cuidado e buscar a integração entre os diferentes serviços, o que é crucial para garantir o envolvimento e a adesão dos profissionais com a proposta de ação.

autor Principal

Romilda Euzébio Araújo

romilda.araujo@pbh.gov.br

Técnico Superior de Saúde/Gerente Unidade de Saúde II

Coautores

Camila Munayer Lara, Danielle Pessoa Machado Franco, Romilda Euzébio Araújo

A prática foi aplicada em

Belo Horizonte

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Rua Frederico Bracher Júnior, 103 - Carlos Prates, Belo Horizonte - MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Romilda Euzébio Araújo

Conta vinculada

30 abr 2026

CADASTRO

30 abr 2026

ATUALIZAÇÃO

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

Arquivos