O Programa de Geração de Trabalho e Renda do Museu Bispo do Rosário compreende o trabalho como expressão das potencialidades individuais e como princípio educativo, assumindo caráter formativo e papel central no desenvolvimento integral dos sujeitos. Essa concepção abrange tanto dimensões materiais quanto culturais, valorizando saberes, formas de sociabilidade e o fortalecimento de vínculos comunitários, ao mesmo tempo em que amplia oportunidades e estimula a construção de redes de sustentabilidade e autonomia.
Pautado nos princípios da economia popular e solidária, da agroecologia e do bem viver, o Programa propõe alternativas ao modelo econômico dominante, reconhecido por seu caráter excludente e alienante. Suas estratégias de atuação priorizam a cooperação, a justa distribuição de renda, a gestão participativa dos processos produtivos e a centralidade do bem-estar dos participantes, articulando trabalho, cuidado, cultura e saúde como dimensões indissociáveis.
O público-alvo prioritário do Programa são usuários da Rede de Atenção Psicossocial e os moradores do território da Colônia Juliano Moreira, reafirmando o compromisso com o cuidado em liberdade, a promoção da saúde integral e a ressignificação da presença de grupos historicamente marginalizados na cidade. Parte-se do entendimento de que o trabalho justo e solidário é um potente dispositivo de transformação social, por meio do qual os sujeitos transformam o mundo e são por ele transformados, operando saúde a partir da arte, da criatividade, da cidadania e das trocas materiais e imateriais.
O Programa estrutura-se em quatro segmentos principais de atuação: Horta Agroecológica, Bistrô Bispo, Ateliê Fios do Rosário e Loja B. No âmbito da Horta Agroecológica, a experiência tem como objetivo central promover a autonomia dos sujeitos por meio do contato direto com a terra, fundamentando-se na compreensão de que um solo saudável gera plantas saudáveis e, consequentemente, indivíduos mais saudáveis. A prática articula saberes populares e conhecimentos técnicos relacionados ao cuidado com o solo e à biodiversidade, incentivando o intercâmbio de conhecimentos e a construção coletiva de tecnologias sociais.
As ações desenvolvidas baseiam-se em práticas de construção de agroecossistemas, orientadas por soluções baseadas na natureza, que respeitam seus ciclos e promovem relações de cooperação inter e intraespecíficas. Dessa forma, a horta consolida-se como espaço de produção de alimentos, aprendizagem coletiva, cuidado em saúde e fortalecimento comunitário, integrando ambiente, trabalho e bem viver no cotidiano do território.
A prática surge na Colônia Juliano Moreira, território da Zona Sudoeste do Rio de Janeiro marcado por ocupação urbana recente, fragilização dos vínculos territoriais e profundas desigualdades socioambientais. A partir de 2021, em um contexto agravado pela pandemia de Covid-19, tornaram-se evidentes os impactos da insegurança alimentar, da precarização do trabalho e do enfraquecimento das redes comunitárias, afetando diretamente a saúde e o bem-estar da população. Soma-se a esse cenário a existência de uma área degradada, anteriormente ocupada por um núcleo manicomial desativado, que passou a receber descarte irregular de resíduos. Diante desse quadro, identificou-se a oportunidade de transformar um passivo ambiental em um espaço de cuidado, produção de alimentos saudáveis, geração de trabalho e fortalecimento comunitário, integrando saúde, ambiente, cultura e economia solidária como estratégia de desenvolvimento territorial.
A prática demonstra que a articulação entre agroecologia, tecnologias sociais e economia popular e solidária gera resultados concretos de transformação social em territórios urbanos periféricos. Entre os principais resultados alcançados destacam-se o fortalecimento dos vínculos comunitários, a ampliação da autonomia dos participantes e a promoção da inclusão produtiva, com protagonismo das mulheres e de outros grupos historicamente vulnerabilizados. Como inovação, a experiência compreende a agroecologia como um modo de organização social que integra produção, cuidado, trabalho e vida, orientado pela gestão compartilhada e pela construção coletiva. As lições aprendidas indicam que processos participativos, territorializados e baseados no comum potencializam a sensibilização para emancipação social, respeitando seus tempos, limites e singularidades, com a partilha de saberes e a autogestão fortalecendo a capacidade dos sujeitos de reconhecer e transformar suas próprias realidades.
Para a implementação de práticas similares, recomenda-se partir de um diagnóstico participativo do território, reconhecendo suas potências e saberes locais. É fundamental envolver os participantes desde o planejamento, garantindo gestão compartilhada, escuta ativa e corresponsabilização dos processos. A articulação intersetorial entre saúde, ambiente, arte e cultura fortalece a sustentabilidade da iniciativa. Investir em metodologias de educação popular, na valorização dos saberes tradicionais e na construção coletiva de tecnologias sociais contribui para o enraizamento territorial da prática. Por fim, é importante respeitar os tempos dos sujeitos e do território, compreendendo que os processos de autonomia e emancipação são graduais, não lineares e dependem da continuidade das ações.
Museu Bispo do Rosario, Edifício Sede da Colônia Juliano Moreira - Estrada Rodrigues Caldas - Curicica, Rio de Janeiro - RJ, Brasil
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