Programa Maringá Protegida: estratégia territorial integrada de prevenção combinada ao HIV com foco na redução de vulnerabilidades e ampliação do acesso às tecnologias biomédicas

A experiência Programa Maringá Protegida foi concebida a partir de um diagnóstico territorial amplo que identificou múltiplas barreiras estruturais, comportamentais e biomédicas relacionadas ao acesso às tecnologias de prevenção combinada ao HIV na 15ª Regional de Saúde. O levantamento situacional revelou baixa procura por testagem entre jovens e populações vulnerabilizadas, desconhecimento e subutilização sobre o uso de PrEP e PEP, resistência à utilização de autotestes devido ao estigma, limitações de orientação adequada e fragmentação entre setores da rede de atenção. Essas evidências demonstraram a necessidade de desenvolver uma intervenção territorial integrada capaz de atuar simultaneamente nos eixos de educação em saúde, promoção de direitos, qualificação profissional e ampliação de acesso.

O contexto de Maringá, enquanto polo regional de saúde e educação superior, favoreceu a criação de um modelo inovador de articulação ensino-serviço-comunidade. A presença da Universidade Estadual de Maringá, com grande concentração de jovens, combinada à existência de serviços especializados da 15ª Regional de Saúde, ofereceu condições estratégicas para a implementação de práticas capazes de modificar o cenário epidemiológico e fortalecer a prevenção combinada no território. A experiência também se alinhou às diretrizes nacionais que orientam o enfrentamento às IST/HIV/aids, priorizando populações em maior vulnerabilidade segundo marcadores como raça, gênero, território e juventude.

O objetivo geral foi implementar uma estratégia territorial integrada de prevenção combinada ao HIV, articulando instituições acadêmicas, serviços de saúde e gestão pública para qualificar ações e ampliar o acesso às tecnologias biomédicas de prevenção. Como objetivos específicos, destacaram-se o desenvolvimento de um modelo replicável de integração ensino-serviço, a ampliação do acesso à testagem e às tecnologias PrEP/PEP, o fortalecimento da rede de atenção da 15ª Regional de Saúde, a capacitação de profissionais para sustentação das ações e o incentivo a mudanças comportamentais com redução de estigma.

A implementação ocorreu por meio de um conjunto articulado de componentes e atividades. No campus da UEM, realizaram-se feiras de saúde em áreas de alta circulação, com oferta de autotestes e testagens rápidas de HIV, sífilis e hepatites, além de orientações sobre prevenção combinada voltadas principalmente à juventude universitária. No Paço Municipal, as ações comunitárias ampliadas expandiram o acesso para a população geral, incorporando estratégias de aconselhamento e vinculação. Na esfera regional, um seminário técnico reuniu profissionais, gestores e estudantes com participação do Ministério da Saúde e da OPAS, fortalecendo a articulação entre serviços e consolidando a lógica territorial integrada. Paralelamente, desenvolveu-se um programa de capacitação continuada voltado a médicos e enfermeiros da rede para qualificação da prescrição de PrEP e manejo das tecnologias biomédicas. Complementando as ações, implantou-se na Biblioteca Central da UEM um ponto permanente de acesso a autotestes HIV, garantindo disponibilidade contínua, sigilosa e acessível aos estudantes.

Todas essas ações foram guiadas por uma abordagem interseccional, considerando raça, gênero, orientação sexual, território e condições sociais, o que permitiu alcançar diferentes perfis populacionais e vulnerabilidades. A estruturação por componentes extramuros, comunitários, biomédicos e formativos garantiu coerência e continuidade à estratégia, fortalecendo o caráter inovador e sustentável da experiência. A articulação entre CTA de Maringá, UEM, 15ª Regional de Saúde, gestão municipal e parceiros nacionais foi decisiva para viabilizar os recursos, integrar fluxos e consolidar um arranjo institucional capaz de sustentar a política territorializada de prevenção combinada.

O diagnóstico territorial da 15ª Regional de Saúde evidenciou um cenário de vulnerabilidades acumuladas no campo da prevenção combinada ao HIV, revelando barreiras estruturais, comportamentais e institucionais que limitavam o acesso das populações prioritárias às tecnologias de cuidado. Observou-se baixa procura por testagem entre jovens e grupos vulnerabilizados, especialmente no ambiente universitário, onde a circulação é intensa, mas o engajamento com estratégias de autocuidado ainda é insuficiente. Constatou-se também desconhecimento generalizado e subutilização de tecnologias biomédicas como PrEP e PEP, apesar da disponibilidade dos serviços e da posição de Maringá como polo regional responsável por ofertar e distribuir insumos de prevenção para toda a 15ª Regional de Saúde.

Além da desinformação, identificou-se forte estigma associado ao uso de autotestes de HIV, frequentemente relacionados a medo do diagnóstico, receio de julgamento social e ausência de orientação qualificada. Esse estigma se entrelaçava com marcadores sociais como raça, gênero, sexualidade, condição socioeconômica e território, configurando barreiras interseccionais que impactavam diretamente a autonomia dos usuários. A fragmentação das ações entre instituições, a falta de articulação entre setores e a ausência de estratégias integradas também dificultavam a construção de linhas de cuidado contínuas. A rede, embora tecnicamente estruturada, operava de forma segmentada, o que limitava o alcance e a efetividade das ações preventivas.

Ao mesmo tempo, emergiu uma oportunidade estratégica: a posição singular de Maringá como polo regional de saúde e educação superior, abrigando uma das maiores universidades do estado, com forte presença de jovens, e concentrando serviços especializados de IST/HIV/Aids vinculados à 15ª Regional de Saúde. Esse arranjo territorial revelou um potencial ainda pouco explorado de articulação entre ensino, serviço e comunidade. A conjunção de demandas epidemiológicas, lacunas assistenciais e capacidade instalada tornou possível vislumbrar a criação de um modelo de intervenção territorial replicável, capaz de enfrentar o estigma, fortalecer tecnologias de cuidado e ampliar o acesso às ferramentas de prevenção combinada.

Dessa forma, o problema não se restringia apenas à baixa testagem ou ao desconhecimento sobre PrEP e PEP, mas a um conjunto articulado de fatores que incluía barreiras culturais, ausência de estratégias educativas contínuas, fragilidade de fluxos institucionais, desigualdades interseccionais e pouca integração entre os atores envolvidos. Transformar esse cenário exigia requalificar a lógica da prevenção no território, aproximando a comunidade acadêmica dos serviços de saúde, fortalecendo a rede regional, promovendo práticas educativas sustentadas e garantindo acesso apropriado, sigiloso e permanente aos insumos de prevenção. Foi nesse encontro entre desafio e oportunidade que se estruturou a experiência Programa Maringá Protegida, concebida como resposta inovadora, sustentável e territorialmente contextualizada.

A prática resultou em avanços expressivos na prevenção combinada do HIV no território. Observou-se aumento significativo de usuários vinculados à PrEP, com razão PrEP:HIV de 5,04, classificada como Grupo 4, nível máximo segundo o Ministério da Saúde. Houve redução de 23,9% nos novos casos de HIV, qualificação da rede regional de atenção e fortalecimento da articulação entre serviços da 15ª Regional de Saúde. As ações alcançaram diretamente mais de 1.500 pessoas por meio de testagens, distribuição de autotestes, atividades educativas e capacitações. Além do impacto quantitativo, a experiência promoveu redução do estigma, ampliação do conhecimento entre jovens, incorporação de práticas inovadoras de integração ensino–serviço–comunidade e desenvolvimento de competências profissionais para a prescrição e manejo da PrEP.

A implementação do Programa Maringá Protegida produziu um conjunto expressivo de resultados quantitativos e qualitativos que evidenciam a efetividade da abordagem territorial integrada. Um dos marcos mais significativos foi o aumento consistente de usuários vinculados à profilaxia pré-exposição (PrEP), culminando na razão PrEP:HIV de 5,04, indicador que posiciona Maringá no Grupo 4, o nível máximo definido pelo Ministério da Saúde. Esse patamar demonstra excelência na incorporação das tecnologias biomédicas de prevenção e supera amplamente a meta nacional, comprovando a capacidade do programa de alcançar populações-chave e reduzir vulnerabilidades.

Outro resultado estruturante foi a redução de 23,9% nos novos casos de HIV no período analisado, movimento que contraria tendências observadas em outros territórios e que se relaciona diretamente à intensificação das ações de prevenção combinada, ampliação da testagem, qualificação profissional e maior disseminação de informações de qualidade. Esse efeito epidemiológico indica não apenas impacto imediato, mas potencial sustentável para alterar o curso da epidemia local e contribuir para as metas nacionais de eliminação da aids como problema de saúde pública.

As ações integradas alcançaram diretamente mais de 1.500 pessoas em diversas modalidades de intervenção, incluindo testagens rápidas, distribuição de autotestes, rodas de orientação, feiras de saúde, ações extramuros e capacitações profissionais. Esse alcance amplo possibilitou envolver diferentes perfis populacionais e atender às especificidades de cada segmento, da juventude universitária às populações em maior vulnerabilidade social.

Entre os benefícios qualitativos observados, destaca-se a redução do estigma relacionado ao HIV no ambiente universitário, com aumento da procura espontânea por testagem e fortalecimento das práticas de autocuidado. Houve também ampliação da circulação de informações qualificadas sobre prevenção combinada, o que favoreceu mudanças comportamentais e maior autonomia dos usuários no manejo de sua própria saúde sexual.

No âmbito institucional, a experiência promoveu significativa qualificação da rede de atenção da 15ª Regional de Saúde, consolidando fluxos, fortalecendo vínculos intersetoriais e aprimorando a coordenação entre serviços. A capacitação continuada de médicos e enfermeiros resultou no desenvolvimento de competências técnicas essenciais para a prescrição de PrEP e manejo clínico das tecnologias de prevenção, o que amplia a resolutividade dos serviços e assegura sustentabilidade de longo prazo.

Entre as inovações implementadas, destaca-se a criação de um modelo replicável de integração ensino–serviço–comunidade, o uso permanente de pontos de acesso a autotestes em espaços de livre circulação e o fortalecimento da abordagem interseccional como eixo estruturante da prevenção. As lições aprendidas reforçam que estratégias territoriais integradas, combinando educação em saúde, insumos biomédicos, qualificação profissional e ações extramuros, produzem resultados mais robustos do que intervenções isoladas, gerando impacto epidemiológico, social e organizacional.

A experiência demonstra que a prevenção combinada, quando articulada de forma estratégica e territorializada, não apenas qualifica os serviços de saúde, mas transforma a relação da população com o cuidado, amplia o acesso e fortalece a resposta regional ao HIV. Esse arranjo permite que o SUS opere de maneira mais coordenada, maximizando o impacto das ações preventivas e ampliando sua capacidade de resposta frente às necessidades das populações mais vulneráveis. Outro benefício relevante é a qualificação da rede de atenção, viabilizada pela capacitação contínua de profissionais de saúde para o manejo das tecnologias biomédicas, como PrEP e PEP.

Ao aprimorar competências técnicas, o programa fortalece a linha de cuidado em HIV, melhora a resolutividade dos serviços e contribui para a padronização de práticas baseadas em evidências no âmbito do SUS. Esse investimento em formação reverbera em ganhos de longo prazo, uma vez que consolida uma rede preparada para sustentar as estratégias de prevenção combinada de forma duradoura. Do ponto de vista epidemiológico, o programa contribui para a redução sustentada da incidência de HIV, evidenciando que intervenções integradas e territorializadas são eficazes para modificar o cenário local da epidemia. Essa repercussão extrapola os limites municipais, alinhando-se diretamente às metas globais de eliminação da aids como problema de saúde pública até 2030.

autor Principal

Marcelo da Silva

marceloascencio@gmail.com

Enfermeiro Responsável pelo Centro de Testagem e Aconselhamento

Coautores

Pedro Henrique Paiva Bernardo, Juliana Karyna Romanini Cioffi, Gabriela Tavares Magnabosco

A prática foi aplicada em

Maringá

Paraná

Sul

Esta prática está vinculada a

Rua Tabaetê - Jardim Tabaete, Maringá - PR, 87005-140, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Marcelo da Silva

Conta vinculada

21 nov 2025

CADASTRO

03 dez 2025

ATUALIZAÇÃO

01 fev 2023

inicio

31 maio 2024

fim

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

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