favor seguir os ajustes necessários abaixo:
No âmbito do SUS de Betim, a Política Municipal de Educação Permanente em Saúde (EPS) é operacionalizada de forma transversal em todos os níveis de atenção. Esta política consolida-se no contexto dos serviços de saúde por meio de programas e práticas continuadas de ensino, projetos de pesquisa, estágios e projetos de extensão, todos viabilizados por sólidas parcerias com instituições de ensino superior.
A dinamicidade e a complexidade dos processos formativos de profissionais de saúde e futuros profissionais, aliadas ao desafio da prestação de um serviço de saúde público qualificado e resolutivo à população, apontam para a necessidade de buscar incessantemente ações interdisciplinares e intersetoriais que fomentem novos saberes e práticas. Nesse cenário, iniciativas organizadas e induzidas pelo Ministério da Saúde, como o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), atuam como dispositivos que visam fortalecer e expandir a relação ensino-serviço-comunidade existente entre as instituições.
Dessa forma, a proposta da edição atual, o PET-Saúde Equidade, realizada entre maio de 2024 e abril de 2026, prioriza o processo de integração com ênfase na valorização das trabalhadoras e futuras trabalhadoras do SUS. O projeto foi estruturado em estrita consonância com o previsto no Edital SGTES/MS nº 11 de 16 de setembro de 2023, organizando-se para atuar na qualificação dos serviços, no fortalecimento do controle social, no incremento de metodologias ativas no processo de ensino-aprendizagem, na criação de espaços permanentes de diálogo e na produção científica orientada para as demandas loco-regionais.
O objetivo central desta iniciativa foi fomentar a Educação Permanente em Saúde (EPS) para o conjunto de trabalhadores e gestores da Rede SUS Betim, com foco na valorização das trabalhadoras e no enfrentamento das iniquidades. A proposta buscou sensibilizar gestores e equipes para que desenvolvessem um olhar crítico sobre os marcadores sociais (gênero, raça, etnia, deficiências e orientação sexual) e interseccionalidades, estimulando mudanças de percepção e de atitudes, qualificando as relações laborais e o cuidado à população.
O desenvolvimento desta estratégia ocorreu por meio dos seguintes Grupos de Aprendizagem Tutorial (GAT):
• GAT 1 – Enfrentamento da Violência contra as trabalhadoras do SUS Betim: Focou na prevenção e no combate sistemático a práticas discriminatórias no SUS Betim. Buscou a implementação de protocolos de enfrentamento e a instituição de práticas que sensibilizem a rede para a ampliação das notificações e a promoção de uma cultura de paz no trabalho, articulada com o Controle Social.
• GAT 2 – PATHOS (Programa de Acolhimento à Trabalhadora Hospitalar): Priorizou a saúde mental e o bem-estar no ambiente hospitalar. A proposta envolveu a oferta de acolhimento e oficinas de manejo de estresse, investindo na Educação Permanente em Saúde para que todo o corpo clínico e administrativo reconhecesse as dimensões subjetivas e as vulnerabilidades interseccionais presentes no trabalho vivo em saúde.
• GAT 3 – SER Agente (Agentes Comunitárias de Saúde – ACS): Promoveu a valorização das ACS com ênfase na equidade de gênero e no enfrentamento às iniquidades e violências no território. Utilizou metodologias ativas para a formação com essas profissionais e seus pares em processos de trabalho integrados, desenvolvendo um caderno tutorial para replicação dessa tecnologia de educação permanente e cuidado.
• GAT 4 – Climatério e Trabalho: Acolheu trabalhadoras no ciclo do climatério e menopausa e, simultaneamente, buscou sensibilizar a gestão e as equipes sobre os impactos psicológicos, físicos e sociais desta fase. O grupo buscou transformar o ambiente laboral em um espaço de suporte, fomentando o protagonismo feminino e incentivando o uso de Práticas Integrativas e Complementares (PICS) como política de cuidado institucional.
A metodologia dessa experiência fundamentou-se na consolidação da integração ensino-serviço-comunidade e nos preceitos da Educação Permanente em Saúde (EPS), operando por meio dos grupos de aprendizagem tutorial (GATs) como células de transformação da rede. O itinerário formativo e interventivo iniciou-se com uma imersão teórica e documental acerca das políticas de equidade e saúde do trabalhador, evoluindo para um processo de reconhecimento e mapeamento da realidade nos cenários reais de prática, abrangendo Unidades Básicas de Saúde, hospitais, Unidades de Pronto Atendimento e centros especializados. Nesse processo, estudantes, preceptores e tutores estabeleceram um diálogo horizontal e permanente que permitiu identificar “nós críticos” e vulnerabilidades interseccionais relacionadas a gênero, raça, etnia, orientação sexual e deficiências no cotidiano laboral.
As ações práticas foram conduzidas por meio de metodologias ativas e participativas, que privilegiaram a escuta qualificada e a dimensão lúdica como ferramentas de engajamento. Foram realizadas oficinas de sensibilização, rodas de conversa e formações em Comunicação em Saúde e em Comunicação Não Violenta (CNV), além da implementação das Práticas Integrativas e Complementares (PICS) como dispositivos fundamentais de cuidado à saúde de quem cuida. Foram também desenvolvidas narrativas e simulações realísticas, através das quais os trabalhadores e gestores do SUS Betim foram estimulados a refletir criticamente sobre violências institucionais, assédios e preconceitos. Para garantir a sustentabilidade institucional e a capilaridade das ações, a metodologia incorporou o desenvolvimento de tecnologias sociais e estratégias de comunicação digital. Esse esforço materializou-se na elaboração coletiva de produtos como cartilhas informativas, cadernos tutoriais, podcasts e documentários, que traduzem as evidências científicas e os saberes do serviço em uma linguagem acessível para toda a rede municipal.
A governança do projeto nestes dois anos foi assegurada por um Comitê Gestor, formado por representantes de todos os perfis integrantes do projeto, e responsável pelo monitoramento mensal e pela avaliação das metas, garantindo que as atividades de extensão permanecessem alinhadas às necessidades reais da rede de saúde de Betim e às diretrizes nacionais de equidade preconizadas pelo Ministério da Saúde. Ressalta-se também o papel da Orientadora de Serviço que, junto aos coordenadores, tutores, preceptores, estudantes e representantes institucionais, foi responsável por potencializar a articulações de todas as estratégias com o controle social do SUS e movimentos sociais. Ressalta-se que todos os integrantes do PET participaram em peso das conferências de saúde que tivemos ao longo desses dois anos. Duas estudantes e uma preceptora foram delegadas na Conferência Estadual de GTES. Houve também ampla aprovação de trabalhos escritos pelos quatro grupos em congressos nacionais e internacionais nas áreas de psicologia e saúde coletiva.
A iniciativa foi impulsionada pelo reconhecimento, em conjunto com a gestão municipal, de que o ambiente laboral na nossa rede reflete desafios estruturais que impactam o bem-estar das trabalhadoras e dos trabalhadores do SUS. O diagnóstico inicial identificou a necessidade de fortalecer mecanismos de proteção contra a violência no trabalho, visto que uma pesquisa local apontou que 73,4% dos profissionais — em sua maioria mulheres (86%) — já haviam vivenciado episódios de violência, predominantemente verbal. Somaram-se a esse cenário oportunidades estratégicas de aperfeiçoamento institucional, como a necessidade de dar visibilidade ao climatério no ambiente laboral para promover suporte integral à mulher trabalhadora, além da oportunidade de potencializar o papel das Agentes Comunitárias de Saúde ao superar desafios históricos de valorização e autonomia profissional. No âmbito hospitalar, o projeto identificou a importância de mitigar riscos ocupacionais e o desgaste emocional inerentes à complexidade do setor. A oportunidade identificada residiu em fortalecer a integração ensino-serviço por meio da Educação Permanente em Saúde, visando implementar tecnologias sociais compartilhadas, que considerassem as interseccionalidades de gênero, raça, deficiências e etnia. Assim, o projeto desenvolveu estratégias para que os ambientes de trabalho se tornassem mais inclusivos e seguros, compreendendo que o cuidado com os trabalhadores e trabalhadoras é condição fundamental para a excelência e humanização do atendimento prestado à população de Betim.
O PET-Saúde Equidade em Betim consolidou a integração ensino-serviço como uma potente estratégia de cidadania e valorização dos sujeitos que constroem o SUS municipal. Os resultados demonstram o fortalecimento do sistema público como um espaço inclusivo e promotor de saúde mental, materializando-se em entregas específicas de cada Grupo de Aprendizagem Tutorial:
No eixo de Enfrentamento da Violência, a iniciativa promoveu 36 oficinas de reflexão e debate sobre violência no trabalho, alcançando gestores e trabalhadores de diversas categorias em todos os níveis assistenciais, além de conselheiros municipais de saúde. Esse processo resultou na elaboração da cartilha técnica “DIGA NÃO À VIOLÊNCIA NO SUS BETIM”, produto validado coletivamente durante as oficinas. Além da produção de materiais audiovisuais para a replicação da metodologia, o grupo integrou trilhas formativas em Comunicação Não Violenta (CNV) e mediação de conflitos para gestores da Atenção Primária, visando a construção de uma cultura de paz e a ampliação qualificada das notificações de violência.
O grupo PATHOS (Trabalhadoras Hospitalares) concentrou esforços na análise e transformação das condições que impactam a saúde mental em ambientes de alta complexidade. Para além do suporte subjetivo, o grupo priorizou o enfrentamento das causas estruturais do desgaste profissional através de um mapeamento de iniquidades e da elaboração de um inventário de riscos ocupacionais hospitalares — validado junto à gestão e aos trabalhadores. Foram realizadas diversas intervenções pedagógicas, com destaque para a “Oficina dos Sentidos” voltada à humanização do cuidado e das relações laborais. O impacto técnico-científico traduziu-se na publicação de sete resumos em congresso internacional e no suporte técnico ao Núcleo LGBTQIA+, com o desenvolvimento de materiais sobre acolhimento e o respeito ao nome social no ambiente hospitalar. Uma entrega estratégica deste grupo, em parceria com o curso de Direito da PUC Minas, foi a elaboração da minuta para o Programa de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador do SUS Betim, reafirmando a responsabilidade institucional na proteção à saúde de quem cuida.
No âmbito da valorização das Agentes Comunitárias de Saúde (Grupo SER Agente), o projeto reafirmou essas profissionais como articuladoras de equidade. Após a realização de quatro módulos de oficinas com a totalidade das ACS de 16 Unidades Básicas de Saúde, o grupo sistematizou essa tecnologia no Caderno Tutorial, recurso pedagógico para a continuidade da educação permanente na rede. A visibilidade social da categoria foi ampliada pela produção de uma série de nove vídeos de valorização, em parceria com a Secretaria de Comunicação da Prefeitura, disseminando a importância do papel das ACS para a saúde pública.
Por fim, o grupo Climatério e Trabalho logrou êxito ao transpor evidências sobre a transição menopáusica para ações práticas de cuidado integral. Foram implementadas oficinas de Práticas Integrativas e Complementares (PICS), como fitoterapia e escalda-pés, alcançando trabalhadoras e gestoras de toda a rede assistencial. A estratégia de comunicação digital via Instagram foi utilizada para a disseminação de “pílulas de saúde”, desmistificando tabus sobre o tema e sensibilizando os níveis decisórios para a necessidade de um acolhimento institucional sensível aos ciclos de vida da mulher trabalhadora. Foi realizada também uma pesquisa sobre o perfil das trabalhadoras da rede que estão na transição menopáusica, gerando saberes importantes que podem contribuir para a Gestão do Trabalho do SUS Betim.
A trajetória do PET-Saúde Equidade em Betim consolida-se como uma experiência exitosa na superação da dicotomia entre teoria e prática no campo da Saúde Coletiva. Ao centralizar esforços na valorização das trabalhadoras e dos trabalhadores do SUS, o projeto transcendeu o cumprimento de metas acadêmicas para instituir uma nova cultura de reflexão crítica sobre a saúde de quem cuida. A integração orgânica entre estudantes, docentes e profissionais da rede permitiu a ressignificação do ambiente laboral como um espaço de aprendizagem mútua e produção de saberes, onde a equidade deixou de ser um conceito abstrato para se materializar em protocolos, fluxogramas, oficinas, minuta, inventário e tecnologias sociais concretas.
Os resultados alcançados pelos quatro grupos tutoriais — abrangendo desde o enfrentamento às violências e a mitigação de riscos ocupacionais hospitalares até a valorização das ACS e o suporte integral no ciclo do climatério — compõem um mosaico de intervenções estratégicas que atacam as iniquidades em suas múltiplas faces e interseccionalidades. A entrega de produtos robustos, como cartilhas técnicas, cadernos metodológicos e documentários, assegura a sustentabilidade das ações, servindo como recurso permanente para a Educação Permanente em Saúde (EPS) no município e garantindo que o acúmulo produzido permaneça como patrimônio da rede.
A experiência reafirma a potência da interprofissionalidade e do controle social como pilares da gestão democrática do SUS. Conclui-se que a parceria entre a PUC Minas e a Rede SUS Betim logrou êxito em humanizar as relações de trabalho e qualificar a gestão sob a ótica da diversidade (gênero, raça, etnia e deficiências). Mais do que formar futuras profissionais tecnicamente qualificadas, o projeto fomentou o desenvolvimento de trabalhadoras dotadas de visão crítica e sensibilidade ética frente às complexidades do sistema público.
Este legado de cidadania reverbera diretamente na qualidade do cuidado ofertado à população betinense. Ao promover ambientes laborais mais justos, seguros e saudáveis, o projeto reconhece uma premissa fundamental da saúde pública: o cuidado com as trabalhadoras não é um fim em si mesmo, mas uma dimensão indissociável da saúde da comunidade. Cuidar de quem cuida é, em última análise, garantir que o SUS seja um sistema vivo, capaz de acolher a população com a mesma dignidade e equidade que cultiva para seus próprios profissionais.
A experiência do PET-Saúde Equidade em Betim demonstra que a replicabilidade de práticas similares depende, primordialmente, do fortalecimento da integração ensino-serviço e do trabalho interprofissional. Para facilitar a implementação em outros cenários, os autores recomendam a utilização das tecnologias sociais produzidas, como as cartilhas técnicas, cadernos metodológicos e documentários, que detalham o passo a passo das intervenções realizadas nos quatro grupos tutoriais.
Uma orientação crucial é que o planejamento das ações ocorra de forma participativa, envolvendo desde o início os gestores da Secretaria de Saúde e da Gestão do Trabalho. Como as temáticas de equidade, saúde do trabalhador e enfrentamento às violências tocam em pontos sensíveis das relações institucionais, é indispensável que a gestão municipal esteja engajada e ofereça sustentação política à proposta. Além disso, aconselha-se a criação de espaços de escuta ativa e diálogo horizontal entre estudantes, docentes e profissionais da rede, garantindo que as intervenções sejam construídas “com” os trabalhadores e não apenas “para” eles. Essa abordagem assegura que o projeto não apenas cumpra metas acadêmicas, mas promova uma transformação real na cultura organizacional e no cuidado à saúde de quem cuida.
Rua Pará de Minas, 640 - Brasiléia, Betim - MG, Brasil
CADASTRO
ATUALIZAÇÃO