Resumo
Este artigo apresenta uma experiência intersetorial no município de Santa Cruz Cabrália (BA), articulando o Centro Judiciário de Solução de Conflitos (CEJUSC) com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS I) na prevenção ao feminicídio e à violência psicossocial. Com base na enfermagem psiquiátrica (Mary C. Townsend) e no uso de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), o modelo articula atendimento clínico e rodas restaurativas com base na Comunicação Não Violenta e nos Círculos de Kay Pranis. Foram realizados 400 atendimentos em outubro de 2023, destacando-se ações com florais, constelação familiar, terapia comunitária integrativa e acolhimentos sistêmicos. O modelo promove vigilância comunitária, cuidado ampliado e empoderamento feminino, com potencial de replicação em territórios vulneráveis.
Palavras-chave: feminicídio, CAPS, CEJUSC, PICS, constelação familiar, florais, comunicação não violenta, cuidado comunitário, enfermagem psiquiátrica.
1. Introdução
O feminicídio é a face mais extrema da violência de gênero. No Brasil, uma mulher é assassinada a cada 6 horas por razões associadas a sua condição de mulher. A resposta à violência letal exige integração entre justiça, saúde e cuidado comunitário. O município de Santa Cruz Cabrália criou um modelo inovador de enfrentamento que articula o CAPS I com o CEJUSC e com a rede local de práticas integrativas e restaurativas. Este artigo descreve essa experiência à luz de dados públicos do terceiro quadrimestre de 2023, com base na enfermagem psiquiátrica de Mary C. Townsend e em dispositivos como a constelação familiar, florais, rodas integrativas e práticas expressivas.
2. Referencial Teórico
2.1 Enfermagem psiquiátrica e cuidado ampliado
Mary C. Townsend enfatiza o vínculo terapêutico como instrumento central no cuidado em saúde mental. Isso inclui escuta ativa, acolhimento, abordagem sistêmica e empoderamento subjetivo — especialmente relevante em casos de violência doméstica e risco de feminicídio.
2.2 Práticas Integrativas e Restaurativas
As PICS promovem abordagens não invasivas e humanizadas que auxiliam na regulação emocional e no enfrentamento de traumas. Constelação Familiar, Florais de Bach e Terapia Comunitária Integrativa têm sido utilizadas como dispositivos complementares nos atendimentos do CAPS I. Os Círculos de Paz de Kay Pranis e a Comunicação Não Violenta criam espaços restaurativos, colaborativos e afetivos que reforçam o pertencimento, a empatia e o reconhecimento mútuo.
2.3 Interface CEJUSC-CAPS
O CEJUSC, com apoio da Justiça Restaurativa, permite abordagens interdisciplinares na mediação de conflitos, especialmente familiares. Integrado ao CAPS, oferece uma resposta ampliada à violência, centrada na saúde, mediação, cuidado emocional e reintegração social.
3. Metodologia
Trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa e análise documental. Os dados foram extraídos do Relatório Quadrimestral do CAPS I (setembro a dezembro de 2023). As categorias de análise incluíram:
Quantitativo de atendimentos mensais;
Procedimentos com PICS (florais, práticas expressivas, terapias online);
Ações de acolhimento, visitas domiciliares e trabalho com familiares.
Foram considerados apenas dados públicos e não identificáveis, respeitando o sigilo profissional e a ética em pesquisa.
4. Resultados
4.1 Perfil da Atuação CAPS I
Durante o 3º quadrimestre de 2023, o CAPS I realizou:
400 atendimentos em outubro (o mês de maior demanda);
195 a 200 atendimentos individuais/mês;
86 a 91 atendimentos familiares/mês;
15 a 44 estudos de caso/mês;
35 acolhimentos em crise psiquiátrica no período;
Acolhimento inicial entre 22 a 35 pacientes/mês.
A equipe foi composta, no período, por psiquiatra, psicólogo, enfermeiros, assistente social, fisioterapeuta e terapeutas PICS.
4.2 Procedimentos com PICS
As principais práticas integrativas adotadas incluem:
Tipo de Procedimento
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Atendimentos com Florais
53
53
46
44
Práticas Expressivas/Comunicativas
10
11
11
9
Outras PICS (Shiatsu, Aurículo, Reiki etc.)
26
22
5
49
PICS Online (comunitárias abertas)
0
0
9
51
4.3 Atividades em rede e intersetorialidade
Foram realizados:
10 reuniões com equipes e familiares;
10 ações de matriciamento com Atenção Básica;
Descentralização de casos leves para UBS;
Grupos com mulheres abordando ansiedade, automutilação e depressão;
Implementação de abordagens terapêuticas com florais, rodas em escolas e ações de “Cuidar de Quem Cuida”.
5. Discussão
A experiência de S.C. Cabrália evidencia a potência de ações intersetoriais e de base comunitária no combate à violência contra mulheres. O uso de PICS em ambientes clínicos e extraclínicos favorece a escuta sensível, o autocuidado e o fortalecimento da autonomia feminina. O CEJUSC, ao incorporar o CAPS e as práticas restaurativas, cria uma estrutura inovadora de prevenção ao feminicídio baseada na inteligência relacional e na espiritualidade aplicada.
Comparada a modelos internacionais (CPA, TIC), a experiência brasileira aqui relatada oferece:
Maior flexibilidade territorial e cultural;
Baixo custo e alta resolutividade comunitária;
Profundo vínculo com práticas ancestrais e espirituais.
6. Conclusão
O modelo CEJUSC–CAPS de Santa Cruz Cabrália é um exemplo promissor de resposta ampliada à violência de gênero. A união entre saúde, justiça e espiritualidade comunitária representa um avanço no cuidado psicossocial, com potencial de replicação nacional. As práticas integrativas, quando legitimadas e articuladas, se tornam instrumentos estratégicos para romper ciclos de dor, restaurar vínculos e salvar vidas.
Referências
TOWNSEND, Mary C. Psychiatric Mental Health Nursing. F.A. Davis, 2014.
Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Brasília, 2018.
Pranis, K. Círculos de Paz: um processo restaurativo. São Paulo: Palas Athena, 2009.
Relatório Quadrimestral CAPS I – Santa Cruz Cabrália, 2023.
Observatório da Violência Contra a Mulher. Atlas da Violência 2023. IPEA/FBSP.
Forum Jutahy Fonseca, Santa Cruz Cabrália - BA, Brasil
CADASTRO
ATUALIZAÇÃO