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Percepção do cirurgião-dentista sobre a prática odontológica centrada na pessoa, família e comunidade na atenção primária à saúde de Petrópolis

O modelo de atenção centrado na pessoa (ACP) procura proporcionar uma
abordagem holística que envolve as relações interpessoais e foca nos indivíduos e suas
virtudes. Nesta lógica, surge o Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) que se
destaca por apresentar uma conduta integral e mais humana. Porém, apesar da evolução
das políticas públicas em saúde e da inserção da saúde bucal na Estratégia de Saúde da
Família (ESF), o modelo de cuidado que prevalece na odontologia ainda é o biomédico.
Este trabalho trata sobre a ACP e tem por objetivo conhecer a percepção dos cirurgiõesdentistas (CD) em Petrópolis-RJ sobre a prática odontológica centrada na pessoa, família
e comunidade na Atenção Primária à Saúde (APS). Essa pesquisa é qualitativa, realizada
através de entrevistas semiestruturadas CD estatutários que atuavam na ESF em
Petrópolis. Desta análise foram reconhecidas quatro categorias temáticas: (1) Identidade
do CD na prática da ESF. Nesta categoria foram verificados fatores que levaram esses
profissionais a trabalharem no Sistema Único de Saúde (SUS), quais seriam as
habilidades e atitudes importantes, os aprendizados construídos na formação profissional
que precisariam ser estruturados, além da importância de se ter um perfil profissional para
trabalhar na ESF; (2) Tratar a boca ou a pessoa: a ACP na prática odontológica. Nesta
categoria foi destacada como é a visão do CD atuante na ESF sobre a ótica desse modelo.
Foram reforçadas aspectos como a valorização da pessoa em sua integralidade, a
compreensão de como se explora a saúde, a doença e as percepções sobre essas
experiências, a adequação da realidade para trabalhar inserido no contexto do território,
a conduta clínica no processo de trabalho, a importância das habilidades de comunicação,
o fortalecimento das relações entre profissional e paciente, a empatia e o não julgamento,
e as dificuldades encontradas ao longo desse processo; (3) O impacto das condições de
trabalho na APS. Esta categoria ressaltou questões relacionadas à infraestrutura de
trabalho. Destacou-se, também, a importância dos registros nos prontuários e a qualidade
deles, além das dificuldades a respeito da sobrecarga de demanda e da prevalência de
procedimentos curativos; (4) Aprendizados adquiridos a partir das práxis em saúde da
família. Esta categoria abordou a humanização das práticas e como os aprendizados na
estratégia impactaram o trabalho e a vida pessoal do profissional, além de reforçar como
o desencontro entre a formação universitária e as demandas do SUS apontam para a
necessidade da formação integral e holística. Concluiu-se que, apesar de não existir
informações suficientes relativas a ACP dentro da odontologia, foi através da rotina
voltada para saúde pública, em especial para a ESF, que esses profissionais
desenvolveram ao longo dos anos um cuidado diferenciado daquilo que identificaram ter
aprendido em sua formação, portanto, mais estudos sobre o assunto seriam fundamentais.
Como produto deste trabalho derivaram-se: um guia de orientação para odontologia e
uma proposta de semiologia voltados para a abordagem centradas na pessoa.

Minha formação profissional de base não foi direcionada para uma abordagem humanizada, generalista e
centrada na pessoa. Por este motivo, me confrontei com questionamentos sobre a prática do
cirurgião-dentista (CD) da atenção primária e o cuidado centrado no paciente. Senti que o
trabalho realizado no Sistema Único de Saúde (SUS) estava exigindo algo de mim que não
estava qualificada e preparada para exercer. No Brasil, o serviço realizado no SUS é estruturado no primeiro nível de atenção
através da APS. O fortalecimento e a reorganização da APS são de responsabilidade da ESF
. Desde sua implantação, a saúde da família surge como um parâmetro
para mudança do modelo assistencial à saúde no Brasil e tem como base, a humanização.
O Programa de Saúde da Família (PSF) foi criado em 1994 com o intuito de articular
as intervenções de saúde junto à comunidade, para proporcionar estratégias que não
evidenciassem apenas ações curativas e o cuidado centrado na doença, mas também ações
direcionadas para promoção de saúde relacionadas com os determinantes sociais. Essa
abordagem da atenção primária valoriza o paciente em sua integralidade, ressignificando a
relevância do indivíduo (MORETTI-PIRES e BUENO, 2009).
A partir do ano 2000, políticas públicas no Brasil incorporaram a saúde bucal na ESF.
Em 2004 foi estabelecida a Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB) – Brasil Sorridente –
transformando a saúde bucal em uma das quatro áreas de prioridade do SUS, dessa forma, ficou
instituída a ideia de integralidade do cuidado (GRAFF e TOASSI, 2018). Além disso,
aconteceram mudanças curriculares na educação através das novas Diretrizes Curriculares
Nacionais (DCN) com o objetivo de se adequar o ensino de odontologia às demandas no Brasil
e do SUS (GRAFF e TOASSI, 2018). Com todas essas transformações políticas, o trabalho do
profissional de saúde também teve que sofrer mudanças para se adequar à atenção primária
(MORETTI-PIRES e BUENO, 2009).
Apesar dessa inserção na saúde pública, para Grande et al. (2016) geralmente os CD
não apresentam conhecimentos capazes de alcançar os princípios e diretrizes do SUS em suas
condutas clínicas. Isso ocorre devido ao fato de que a formação e prática clínica dos CD são
decorrentes de uma odontologia ainda fortemente estruturada no modelo flexneriano, baseada
em conceitos curativos, tecnicistas, biologicistas, hiperespecializados, e individualistas e com
pouco direcionamento para promoção e prevenção em saúde e deixando as disciplinas com
enfoque antropológico e social em segundo plano.
A odontologia ainda é hegemonicamente influenciada pelo modelo biomédico, onde a
saúde é compreendida de forma mecânica e dissociada dos princípios e crenças de cada pessoa
(APELIAN et al., 2017). Sabe-se, porém, que o modelo biomédico não é o mais adequado e os
aspectos sociais e psicológicos que devem ser considerados como relevantes ao longo da
abordagem odontológica. (MILLS, 2017).
Com isso, o interesse no cuidado centrado no paciente dentro da odontologia começou
a se desenvolver, porém ainda existem poucos estudos avaliando como esse modelo de cuidado
pode apresentar benefícios no conceito do cuidado em odontologia (ALRAWIAI;
ASIMAKOPOULOU; SCAMBLER, 2021).
O CD que adote uma conduta de ACP não deve apenas cuidar da doença, mas também
da enfermidade, ou seja, da experiência do indivíduo com a doença. Nessa compreensão, o profissional irá conhecer as demandas e necessidades dos pacientes que estarão relacionadas
com questões biopsicossociais, econômicas e culturais (APELIAN; VERGNES; BEDOS,
2020).
Embora existam poucos estudos sobre os conceitos da Abordagem Centrada na Pessoa
(ACP) dentro da odontologia, os modelos que se apresentam, procuram mostrar a importância
de promover um cuidado humanizado e desenvolver uma conexão entre profissional e a pessoa
que receberá o cuidado (ALRAWIAI; ASIMAKOPOULOU; SCAMBLER, 2021).
Os cuidados embasados nas relações interpessoais deveriam nortear não só a formação
como a prática dos profissionais CD. Se assim fosse, este profissional teria qualificação
científica e, também, uma atitude empática, receptiva, franca, capaz de criar vínculo. Por estes
motivos, diversos autores levantam questionamentos sobre a conduta na prática do profissional,
tais como: de que forma o cuidado vem sendo estudado e praticado? Como é compreendido o
cuidado dentro das tecnologias relacionais (GRAFF e TOASSI 2017)? “Como é definido o
cuidado centrado no paciente em odontologia?” (SCAMBLER; DELGADO;
ASIMAKOPOULOU, 2016). “O que é e como é praticado o cuidado centrado no paciente
dentro da odontologia?” (SCAMBLER; GUPTA; ASIMAKOPOULOU, 2014). “Como
podemos promover o cuidado centrado no paciente dentro da odontologia?” (APELIAN et al.,
2017). “O CD está preparado para o cuidado centrado no paciente?” (APELIAN; VERGNES;
BEDOS, 2020).
Estudos realizados no Reino Unido e no Canadá (SCAMBLER e
ASIMAKOPOULOU, 2014; SCAMBLER; GUPTA; ASIMAKOPOULOU, 2014; MILLS et
al., 2015; APELIAN et al., 2017; APELIAN; VERGNES; BEDOS, 2020) mostraram que há
poucas pesquisas sobre a ACP e que são necessários mais estudos para ajudar CD a adquirirem
conhecimento teórico sobre esse modelo de cuidado e, posteriormente, sobre como o cuidado
deverá ser praticado sob esta ótica em odontologia.
Buscando responder à angústia inicial que me levou a conhecer mais sobre esta
temática, meu interesse foi compreender qual seria a percepção do CD sobre a prática
odontológica centrada na pessoa, família e comunidade na APS, no local o qual exerço minha
profissão, o município de Petrópolis.
O objetivo geral deste trabalho foi conhecer a percepção do CD sobre a prática odontológica centrada na pessoa, família
e comunidade na APS no município de Petrópolis. Os objetivos específicos foram: a) Explorar como os CD da APS do município de Petrópolis observam a saúde, a doença e a experiência com a doença; b) Perceber como as concepções e habilidades dirigidas pela integralidade influenciam a realização do cuidado e, mais especificamente os planos terapêuticos.

A hipótese inicial desse estudo pressupôs que haveria por parte dos profissionais
entrevistados pouco fundamento teórico sobre a ACP dentro da odontologia na APS e sobre os
métodos que podem ser desenvolvidos ao longo das consultas para que se alcance o cuidado
centrado.
De fato, ACP e o MCCP, não foram citados diretamente nas entrevistas e, na maioria
das vezes, o termo utilizado foi “paciente” e não pessoa. Após transcrição e análise das
entrevistas, os resultados indicaram que os profissionais atuantes na ESF relataram ter tido uma
formação voltada para a odontologia curativa, tecnicista, individual e mais direcionada para
atuação em consultórios privados com retorno financeiro, porém, foi possível observar que
àqueles que se identificam com a prática voltada para a saúde pública, em especial para a ESF,
desenvolveram ao longo dos anos e, principalmente, com a prática clínica e baseados na
experiência, um cuidado diferenciado daquilo que identificam ter aprendido em sua formação.
As dificuldades e restrições observadas sobre a prática odontológica centrada na pessoa, família
e comunidade podem estar relacionadas à falta de conhecimento teórico sobre o assunto.
Os profissionais identificaram as percepções das pessoas com relação à sua saúde e
doença, parecem levar em consideração essas questões pois observam como o território, as
competências culturais, e outros aspectos podem interferir nessas compreensões, mas não fica
claro como observam a experiência da pessoa com a doença e nem se esse aspecto é levado em
consideração para definir os planos terapêuticos e as orientações para o cuidado.
Os resultados dessa pesquisa reforçaram que ESF nesses moldes é capaz de mudar o
modelo do cuidado, pois, o grupo pesquisado parece sensibilizado à causa através da prática
clínica. Portanto, mais discussões são importantes sobre como os princípios da APS e da ESF
podem afetar diretamente a prática de uma abordagem integral e centrada na pessoa e sobre como a estabilidade e o tempo de trabalho vinculado na lógica da estratégia podem favorecer
esse modelo de prática em odontologia. Essas discussões podem reforçar a importância de
valorizar a contratação pelos municípios através de concursos com regime estatutário e enfatizar
as educações continuadas e permanentes para melhor capacitar esses profissionais e propiciar
o cuidado de qualidade a longo prazo.
Apresentou-se como uma limitação deste estudo a mensuração de como o profissional
percebe a comunicação não verbal, a imposição da sua fala e se esse profissional foi treinado
ou não para ser habilidoso e compreendido na sua comunicação ou se ele percebe a magnitude
desse aspecto para ser centrado naquela pessoa e não em sua doença. Outro entrave encontrado
foi a falta de verificação de coerência entre o discurso e a conduta da prática clínica. Para ser
possível reparar ambas as limitações seria importante observar e analisar não só as falas durante
as entrevistas como também os atendimentos clínicos dos profissionais participantes da
pesquisa.
Para que haja mais conhecimento teórico e discussões clínicas a respeito do cuidado
voltado para a pessoa e seus modelos de prática na odontologia da APS é fundamental que
sejam realizados mais estudos e pesquisas sobre a prática clínica odontológica centrada na
pessoa, família e comunidade.
Desta pesquisa foi possível gerar a produção de duas contribuições técnicas que podem
auxiliar durante a formação de futuros profissionais e também na prática clínica dos CD que se
sentirem interessados em realizar ACP. A primeira contribuição é uma sugestão de condução
clínica em saúde bucal com base no MMCP e a segunda sugestão é a anamnese odontológica
que favoreça a construção do diálogo e do vínculo.

Proposta 1: Protocolo de Abordagem Centrada na Pessoa em Saúde Bucal
Conforme descrito anteriormente, há uma carência de estudos sobre a ACP em
odontologia e de como ele pode ser traduzido para a prática odontológica, neste sentido, essa
proposta é uma sugestão de um protocolo que procura orientar a prática
odontológica centrada na pessoa com fundamentos no MCCP. A proposta sugere
recomendações tanto para auxiliar na formação de CD, quanto para a prática clínica em saúde
bucal dos profissionais já formados atuantes ou não na ESF.
6.2 Proposta 2: Guia para uma Anamnese Odontológica Dialógica
A abordagem ao indivíduo não começa na intervenção clínica, mas sim no acolhimento,
no diálogo, na criação do vínculo, e na anamnese (BASTOS et al., 2017). A criação de vínculo,
o acolhimento, e o fortalecimento da relação entre a pessoa e o profissional deve ser feito em
cada consulta e a todo momento. Porém, no primeiro contato é importante romper barreiras e
“quebrar o gelo”. Nesse sentido, a segunda contribuição propõe uma anamnese baseada na
ACP. A sugestão é que após a anamnese sobre a saúde geral e sua relação com as
consequências na cavidade bucal, como medicações, doenças e condições sistêmicas, ocorram
perguntas mais específicas sobre a saúde bucal, e que essas questões sejam abordadas de forma
mais humanizada para facilitar o acolhimento e posteriormente possibilitar o fortalecimento da
relação interpessoal entre os envolvidos.
Observar no prontuário a assiduidade e o motivo das visitas dos usuários à unidade,
tentar identificar as potencialidades para cuidado, e sinalizar as fraquezas e fragilidades vão
ajudar a identificar o potencial da pessoa na autonomia do cuidado, não só na capacidade de
produzir atos de saúde, como também, mantê-los. Esses detalhes não são falados diretamente,
vem em comentários ou situações nas quais o profissional deve estar atento como aspectos
religiosos, crenças e crendices populares.
Gestos e olhares são particularidades que devem ser observadas ao longo da anamnese.
Conforme já destacado anteriormente, a comunicação não verbal também é importante fonte da
construção de relacionamentos, empatia e compreensão. O contato visual e a conduta também
são relevantes para que se compreenda a pessoa de forma integral. (BALLESTER et al., 2010;
MILLS, 2017).
Considerando que a comunicação é um dos mecanismos de grande relevância para
atitudes mais humanizadas e que a relação interpessoal na prática clínica deve ser mais
dialógica, a colaboração propõe um guia de perguntas que possam fluir de forma mais natural
gerando na anamnese odontológica uma relação potencialmente mais humana e pessoal.
Essas contribuições têm por objetivo facilitar a
conduta da ACP para os CD que tenham interesse em realizar a anamnese através de um modelo
que valorize as relações interpessoais em sua rotina clínica, em especial na ESF.

São necessárias mais capacitações e educações permanentes para que os profissionais consigam aprender, discutir e colocar em prática um modelo de atenção voltado para a pessoa e não somente para a sua doença. Além disso, a longitudinalidade do profissional está relacionado ao vínculo criado entre profissional e usuário e também no conhecimento do território vivo que o profissional está inserido, por isso, a criação de concursos estatutários e de benefícios que possam fortalecer o interesse do profissional em se manter ligado à rede são fundamentais para a formação de uma abordagem holística.

Principal

Cristina Pinto de Souza PAulo

cre_psp@yahoo.com.br

Cirurgiã dentista

Coautores

Cristina Pinto de Souza Paulo; Katlin Darlen Maia; Cesar Augusto Orazem Favoreto.

A prática foi aplicada em

Petrópolis

Rio de Janeiro

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Rua Teresa, 1515, Alto da Serra - Petrópolis

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Cristina Pinto de Souza Paulo

Conta vinculada

A prática foi cadastrada em

30 mar 2024

e atualizada em

30 mar 2024

Fim da Execução

26/05/2023

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

Arquivos

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