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Os grupos infantis na Atenção Primária à Saúde configuram-se como estratégias relevantes para o cuidado integral à infância. Este estudo objetiva analisar as contribuições desses grupos, desenvolvidos em Unidades Básicas de Saúde de Lagoa Formosa – Minas Gerais, destacando sua atuação para além dos muros institucionais. Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa, baseado na realização de atividades intra e extramuros com crianças da comunidade. As ações, de caráter lúdico e expressivo, favoreceram o desenvolvimento socioemocional, cognitivo e social, além do fortalecimento de vínculos e da promoção de hábitos saudáveis. Evidencia-se a ampliação do cuidado no território, consolidando os grupos como dispositivos relevantes na Atenção Primária à Saúde.
A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como a principal porta de entrada do sistema de saúde, sendo responsável por ações de promoção, prevenção e cuidado integral, orientadas pelos princípios da territorialidade, longitudinalidade e integralidade do cuidado (BRASIL, 2017).
Nesse contexto, as propostas grupais constituem-se como estratégias relevantes no âmbito das Equipes de Saúde da Família, ao possibilitarem não apenas a promoção da saúde e a prevenção de agravos, mas também a construção de um cuidado continuado, compartilhado e vincular com a população (RAIA; SOUZA, 2024). No Brasil, estima-se que entre 10% e 20% da população infantojuvenil apresente algum transtorno mental e, dentre esses casos, cerca de 3% a 4% demandam acompanhamento multidisciplinar (BARATA et al., 2015).
Os grupos infantis emergem, assim, como dispositivos coletivos eficazes, favorecendo intervenções que contemplam o desenvolvimento biopsicossocial, psicomotor e sensorial. Sob a perspectiva histórico-cultural, Lev Vygotsky (1991) compreende o desenvolvimento infantil como um processo mediado pelas interações sociais, no qual o ambiente assume papel constitutivo na construção do conhecimento. Em diálogo, Donald Winnicott (1975) enfatiza a relevância do ambiente facilitador e do brincar como condições fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável, compreendendo o brincar como um espaço potencial onde a criança pode expressar e elaborar sua experiência. Nesse sentido, a ação lúdica revela-se, muitas vezes, mais significativa do que a própria verbalização, por carregar conteúdos simbólicos que emergem no fazer (BARATA et al., 2015).
Ademais, destaca-se que o direito ao brincar é assegurado por organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas, sendo reconhecido como um elemento essencial ao desenvolvimento integral da criança. Dessa forma, o cuidado em saúde voltado à infância demanda abordagens específicas, que se diferenciem das práticas dirigidas ao público adulto, reconhecendo o lúdico como via privilegiada de acesso à experiência da criança, à sua estrutura cognitiva e às suas formas de estar-no-mundo (LOPES, VERONEZZI, 2022).
OBJETIVO
Compreender a experiência dos grupos infantis na Atenção Primária à Saúde como espaços de cuidado, considerando suas contribuições para o desenvolvimento infantil e sua construção no território para além dos muros institucionais.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, do tipo relato de experiência, desenvolvido no âmbito da Atenção Primária à Saúde, nas Unidades Básicas de Saúde Alzira Borges e Beatriz Garcia, localizadas no município de Lagoa Formosa, Minas Gerais.
A experiência refere-se à implementação de grupos infantis com crianças da comunidade adscrita, organizados de forma periódica, com o objetivo de promover o cuidado integral por meio de práticas intra e extramuros.
As atividades intraunidade foram realizadas no espaço das UBS, por meio de intervenções lúdicas com finalidade terapêutica, incluindo brincadeiras dirigidas, atividades expressivas e dinâmicas grupais, visando favorecer a expressão emocional, a criatividade, o desenvolvimento cognitivo e a socialização.
As ações extramuros foram desenvolvidas em equipamentos do território, como espaços públicos, biblioteca municipal e instituições de longa permanência para idosos, contemplando atividades físicas, visitas guiadas e encontros intergeracionais. Tais práticas buscaram ampliar o cuidado para além do espaço institucional, fortalecendo o vínculo das crianças com o território e promovendo experiências coletivas significativas.
A condução dos grupos ocorreu de forma interdisciplinar, com a participação de profissionais da equipe de saúde, considerando as necessidades identificadas no contexto local. As observações foram registradas de forma descritiva ao longo dos encontros, subsidiando a análise das experiências vivenciadas e dos efeitos produzidos no desenvolvimento das crianças.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os grupos realizados com as crianças nas Unidades Básicas de Saúde têm apresentado resultados significativos no desenvolvimento integral. Ao longo dos encontros, tornam-se perceptíveis mudanças comportamentais importantes, especialmente na forma como as crianças passam a lidar com conflitos do cotidiano, além de demonstrarem maior reconhecimento e manejo de suas emoções.
Também se evidencia o fortalecimento das habilidades sociais, observado na ampliação da capacidade de expressão, posicionamento e interação, tanto no contexto grupal quanto em outros espaços de convivência, como a escola e a família.
As práticas desenvolvidas, diversificadas e conduzidas de forma contínua, reforçam a importância da construção de hábitos saudáveis, sobretudo no que se refere à prática de atividades físicas e à alimentação. Ao mesmo tempo, os grupos favorecem o desenvolvimento cognitivo e linguístico, ao criarem espaços que estimulam a criatividade, a comunicação e a produção de sentidos.
No plano das relações, os encontros se constituem como espaços de troca e construção compartilhada, nos quais é possível exercitar empatia, respeito e convivência. Nessa direção, os grupos infantis mostram-se como importantes dispositivos de cuidado ampliado e humanizado, ao integrarem as dimensões subjetivas, sociais e territoriais do desenvolvimento infantil (DOS SANTOS et al., 2025, LOPES; VERONEZZI, 2022).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das experiências desenvolvidas, evidencia-se que os grupos infantis na Atenção Primária à Saúde configuram-se como estratégias relevantes para a promoção do cuidado integral à infância. Mais do que intervenções pontuais, os grupos se apresentam como espaços de encontro, nos quais o cuidado se constrói de forma compartilhada, considerando as dimensões emocionais, sociais e cognitivas do desenvolvimento infantil.
Ao articularem ações intra e extramuros, essas práticas possibilitam a ampliação do cuidado para além do espaço físico das Unidades Básicas de Saúde, fortalecendo o vínculo das crianças com o território e com os diferentes contextos de convivência. Esse movimento contribui não apenas para o desenvolvimento de habilidades individuais, mas também para a construção de experiências coletivas significativas, que favorecem a socialização, a autonomia e o reconhecimento de si e do outro.
Destaca-se, ainda, o papel do lúdico e do brincar como elementos centrais na condução das atividades, permitindo o acesso à experiência da criança de forma sensível e coerente com suas formas de expressão. Nesse sentido, os grupos se consolidam como dispositivos que produzem cuidado de maneira ampliada e humanizada, em consonância com os princípios da Atenção Primária à Saúde.
Por fim, ressalta-se a importância de fortalecer e ampliar iniciativas dessa natureza no âmbito do Sistema Único de Saúde, reconhecendo os grupos infantis como práticas que não apenas complementam o cuidado, mas que o reinventam ao se abrirem ao território e às múltiplas formas de existência da infância.
Identificou-se, no âmbito da Atenção Primária à Saúde, a insuficiência de estratégias sistematizadas e contínuas voltadas à promoção do desenvolvimento infantil integral, sobretudo nos domínios socioemocional, cognitivo e relacional, evidenciando a predominância de um modelo assistencial centrado em atendimentos individuais e de caráter curativo. Tal lacuna configurou-se como problemática relevante, indicando a necessidade de reorientação das práticas de cuidado. Nesse contexto, delineou-se como oportunidade de qualificação das ações a implementação de grupos terapêuticos infantis, fundamentados em abordagens interdisciplinares, com ênfase em práticas lúdicas, coletivas e territorializadas, visando à ampliação do acesso, ao fortalecimento de vínculos comunitários e à promoção de um cuidado integral, resolutivo e humanizado no território adscrito.
Os grupos realizados com as crianças nas Unidades Básicas de Saúde têm apresentado resultados significativos no desenvolvimento integral. Ao longo dos encontros, tornam-se perceptíveis mudanças comportamentais importantes, especialmente na forma como as crianças passam a lidar com conflitos do cotidiano, além de demonstrarem maior reconhecimento e manejo de suas emoções.
Também se evidencia o fortalecimento das habilidades sociais, observado na ampliação da capacidade de expressão, posicionamento e interação, tanto no contexto grupal quanto em outros espaços de convivência, como a escola e a família.
As práticas desenvolvidas, diversificadas e conduzidas de forma contínua, reforçam a importância da construção de hábitos saudáveis, sobretudo no que se refere à prática de atividades físicas e à alimentação. Ao mesmo tempo, os grupos favorecem o desenvolvimento cognitivo e linguístico, ao criarem espaços que estimulam a criatividade, a comunicação e a produção de sentidos.
No plano das relações, os encontros se constituem como espaços de troca e construção compartilhada, nos quais é possível exercitar empatia, respeito e convivência. Nessa direção, os grupos infantis mostram-se como importantes dispositivos de cuidado ampliado e humanizado, ao integrarem as dimensões subjetivas, sociais e territoriais do desenvolvimento infantil
Para facilitar a implementação de prática similar, recomenda-se iniciar com mapeamento ativo da demanda infantil no território, utilizando dados do e-SUS APS aliados à escuta da equipe e das famílias, a fim de identificar perfis prioritários e organizar grupos mais homogêneos por faixa etária.
Como estratégia inicial, orienta-se começar com grupos piloto de pequeno porte (6 a 10 crianças), com encontros periódicos previamente definidos, o que permite melhor manejo clínico, avaliação da adesão e ajustes metodológicos antes de expansão da prática. Para viabilizar ações extramuros, orienta-se estabelecer parcerias locais de baixo custo (escolas, praças, biblioteca, instituições sociais), facilitando a inserção territorial sem necessidade de grandes recursos.
Recomenda-se também incorporar as famílias no processo, por meio de orientações breves ou momentos de devolutiva, ampliando o impacto das intervenções no cotidiano da criança.
Por fim, orienta-se realizar registros objetivos e contínuos das atividades e evoluções, ainda que de forma simplificada, permitindo monitoramento dos resultados, justificativa institucional da prática e possibilidade de ampliação do projeto dentro do serviço
R. Profa. Afra da Fonseca, 174 - Lagoa Formosa, MG, Brasil
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