Para além dos muros: experiências grupais com crianças na atenção primária à saúde de Lagoa Formosa (MG)

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Ana Paula Oliveira Fonseca

Laura Eloiza Braga Silva

Laura Eloiza Braga Silva

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Os grupos infantis na Atenção Primária à Saúde configuram-se como estratégias relevantes para o cuidado integral à infância. Este estudo objetiva analisar as contribuições desses grupos, desenvolvidos em Unidades Básicas de Saúde de Lagoa Formosa – Minas Gerais, destacando sua atuação para além dos muros institucionais. Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa, baseado na realização de atividades intra e extramuros com crianças da comunidade. As ações, de caráter lúdico e expressivo, favoreceram o desenvolvimento socioemocional, cognitivo e social, além do fortalecimento de vínculos e da promoção de hábitos saudáveis. Evidencia-se a ampliação do cuidado no território, consolidando os grupos como dispositivos relevantes na Atenção Primária à Saúde.

A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como a principal porta de entrada do sistema de saúde, sendo responsável por ações de promoção, prevenção e cuidado integral, orientadas pelos princípios da territorialidade, longitudinalidade e integralidade do cuidado (BRASIL, 2017).
Nesse contexto, as propostas grupais constituem-se como estratégias relevantes no âmbito das Equipes de Saúde da Família, ao possibilitarem não apenas a promoção da saúde e a prevenção de agravos, mas também a construção de um cuidado continuado, compartilhado e vincular com a população (RAIA; SOUZA, 2024). No Brasil, estima-se que entre 10% e 20% da população infantojuvenil apresente algum transtorno mental e, dentre esses casos, cerca de 3% a 4% demandam acompanhamento multidisciplinar (BARATA et al., 2015).
Os grupos infantis emergem, assim, como dispositivos coletivos eficazes, favorecendo intervenções que contemplam o desenvolvimento biopsicossocial, psicomotor e sensorial. Sob a perspectiva histórico-cultural, Lev Vygotsky (1991) compreende o desenvolvimento infantil como um processo mediado pelas interações sociais, no qual o ambiente assume papel constitutivo na construção do conhecimento. Em diálogo, Donald Winnicott (1975) enfatiza a relevância do ambiente facilitador e do brincar como condições fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável, compreendendo o brincar como um espaço potencial onde a criança pode expressar e elaborar sua experiência. Nesse sentido, a ação lúdica revela-se, muitas vezes, mais significativa do que a própria verbalização, por carregar conteúdos simbólicos que emergem no fazer (BARATA et al., 2015).
Ademais, destaca-se que o direito ao brincar é assegurado por organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas, sendo reconhecido como um elemento essencial ao desenvolvimento integral da criança. Dessa forma, o cuidado em saúde voltado à infância demanda abordagens específicas, que se diferenciem das práticas dirigidas ao público adulto, reconhecendo o lúdico como via privilegiada de acesso à experiência da criança, à sua estrutura cognitiva e às suas formas de estar-no-mundo (LOPES, VERONEZZI, 2022).

OBJETIVO
Compreender a experiência dos grupos infantis na Atenção Primária à Saúde como espaços de cuidado, considerando suas contribuições para o desenvolvimento infantil e sua construção no território para além dos muros institucionais.

METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, do tipo relato de experiência, desenvolvido no âmbito da Atenção Primária à Saúde, nas Unidades Básicas de Saúde Alzira Borges e Beatriz Garcia, localizadas no município de Lagoa Formosa, Minas Gerais.
A experiência refere-se à implementação de grupos infantis com crianças da comunidade adscrita, organizados de forma periódica, com o objetivo de promover o cuidado integral por meio de práticas intra e extramuros.
As atividades intraunidade foram realizadas no espaço das UBS, por meio de intervenções lúdicas com finalidade terapêutica, incluindo brincadeiras dirigidas, atividades expressivas e dinâmicas grupais, visando favorecer a expressão emocional, a criatividade, o desenvolvimento cognitivo e a socialização.
As ações extramuros foram desenvolvidas em equipamentos do território, como espaços públicos, biblioteca municipal e instituições de longa permanência para idosos, contemplando atividades físicas, visitas guiadas e encontros intergeracionais. Tais práticas buscaram ampliar o cuidado para além do espaço institucional, fortalecendo o vínculo das crianças com o território e promovendo experiências coletivas significativas.
A condução dos grupos ocorreu de forma interdisciplinar, com a participação de profissionais da equipe de saúde, considerando as necessidades identificadas no contexto local. As observações foram registradas de forma descritiva ao longo dos encontros, subsidiando a análise das experiências vivenciadas e dos efeitos produzidos no desenvolvimento das crianças.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os grupos realizados com as crianças nas Unidades Básicas de Saúde têm apresentado resultados significativos no desenvolvimento integral. Ao longo dos encontros, tornam-se perceptíveis mudanças comportamentais importantes, especialmente na forma como as crianças passam a lidar com conflitos do cotidiano, além de demonstrarem maior reconhecimento e manejo de suas emoções.
Também se evidencia o fortalecimento das habilidades sociais, observado na ampliação da capacidade de expressão, posicionamento e interação, tanto no contexto grupal quanto em outros espaços de convivência, como a escola e a família.
As práticas desenvolvidas, diversificadas e conduzidas de forma contínua, reforçam a importância da construção de hábitos saudáveis, sobretudo no que se refere à prática de atividades físicas e à alimentação. Ao mesmo tempo, os grupos favorecem o desenvolvimento cognitivo e linguístico, ao criarem espaços que estimulam a criatividade, a comunicação e a produção de sentidos.
No plano das relações, os encontros se constituem como espaços de troca e construção compartilhada, nos quais é possível exercitar empatia, respeito e convivência. Nessa direção, os grupos infantis mostram-se como importantes dispositivos de cuidado ampliado e humanizado, ao integrarem as dimensões subjetivas, sociais e territoriais do desenvolvimento infantil (DOS SANTOS et al., 2025, LOPES; VERONEZZI, 2022).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das experiências desenvolvidas, evidencia-se que os grupos infantis na Atenção Primária à Saúde configuram-se como estratégias relevantes para a promoção do cuidado integral à infância. Mais do que intervenções pontuais, os grupos se apresentam como espaços de encontro, nos quais o cuidado se constrói de forma compartilhada, considerando as dimensões emocionais, sociais e cognitivas do desenvolvimento infantil.
Ao articularem ações intra e extramuros, essas práticas possibilitam a ampliação do cuidado para além do espaço físico das Unidades Básicas de Saúde, fortalecendo o vínculo das crianças com o território e com os diferentes contextos de convivência. Esse movimento contribui não apenas para o desenvolvimento de habilidades individuais, mas também para a construção de experiências coletivas significativas, que favorecem a socialização, a autonomia e o reconhecimento de si e do outro.
Destaca-se, ainda, o papel do lúdico e do brincar como elementos centrais na condução das atividades, permitindo o acesso à experiência da criança de forma sensível e coerente com suas formas de expressão. Nesse sentido, os grupos se consolidam como dispositivos que produzem cuidado de maneira ampliada e humanizada, em consonância com os princípios da Atenção Primária à Saúde.
Por fim, ressalta-se a importância de fortalecer e ampliar iniciativas dessa natureza no âmbito do Sistema Único de Saúde, reconhecendo os grupos infantis como práticas que não apenas complementam o cuidado, mas que o reinventam ao se abrirem ao território e às múltiplas formas de existência da infância.

Identificou-se, no âmbito da Atenção Primária à Saúde, a insuficiência de estratégias sistematizadas e contínuas voltadas à promoção do desenvolvimento infantil integral, sobretudo nos domínios socioemocional, cognitivo e relacional, evidenciando a predominância de um modelo assistencial centrado em atendimentos individuais e de caráter curativo. Tal lacuna configurou-se como problemática relevante, indicando a necessidade de reorientação das práticas de cuidado. Nesse contexto, delineou-se como oportunidade de qualificação das ações a implementação de grupos terapêuticos infantis, fundamentados em abordagens interdisciplinares, com ênfase em práticas lúdicas, coletivas e territorializadas, visando à ampliação do acesso, ao fortalecimento de vínculos comunitários e à promoção de um cuidado integral, resolutivo e humanizado no território adscrito.

Os grupos realizados com as crianças nas Unidades Básicas de Saúde têm apresentado resultados significativos no desenvolvimento integral. Ao longo dos encontros, tornam-se perceptíveis mudanças comportamentais importantes, especialmente na forma como as crianças passam a lidar com conflitos do cotidiano, além de demonstrarem maior reconhecimento e manejo de suas emoções.
Também se evidencia o fortalecimento das habilidades sociais, observado na ampliação da capacidade de expressão, posicionamento e interação, tanto no contexto grupal quanto em outros espaços de convivência, como a escola e a família.
As práticas desenvolvidas, diversificadas e conduzidas de forma contínua, reforçam a importância da construção de hábitos saudáveis, sobretudo no que se refere à prática de atividades físicas e à alimentação. Ao mesmo tempo, os grupos favorecem o desenvolvimento cognitivo e linguístico, ao criarem espaços que estimulam a criatividade, a comunicação e a produção de sentidos.
No plano das relações, os encontros se constituem como espaços de troca e construção compartilhada, nos quais é possível exercitar empatia, respeito e convivência. Nessa direção, os grupos infantis mostram-se como importantes dispositivos de cuidado ampliado e humanizado, ao integrarem as dimensões subjetivas, sociais e territoriais do desenvolvimento infantil

Para facilitar a implementação de prática similar, recomenda-se iniciar com mapeamento ativo da demanda infantil no território, utilizando dados do e-SUS APS aliados à escuta da equipe e das famílias, a fim de identificar perfis prioritários e organizar grupos mais homogêneos por faixa etária.
Como estratégia inicial, orienta-se começar com grupos piloto de pequeno porte (6 a 10 crianças), com encontros periódicos previamente definidos, o que permite melhor manejo clínico, avaliação da adesão e ajustes metodológicos antes de expansão da prática. Para viabilizar ações extramuros, orienta-se estabelecer parcerias locais de baixo custo (escolas, praças, biblioteca, instituições sociais), facilitando a inserção territorial sem necessidade de grandes recursos.
Recomenda-se também incorporar as famílias no processo, por meio de orientações breves ou momentos de devolutiva, ampliando o impacto das intervenções no cotidiano da criança.
Por fim, orienta-se realizar registros objetivos e contínuos das atividades e evoluções, ainda que de forma simplificada, permitindo monitoramento dos resultados, justificativa institucional da prática e possibilidade de ampliação do projeto dentro do serviço

autor Principal

Ana Paula Oliveira Fonseca

laurapsifpm@gmail.com

Psicológa

Coautores

Ana Paula Oliveira Fonseca, Laura Eloíza Braga Silva

A prática foi aplicada em

Lagoa Formosa

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

R. Profa. Afra da Fonseca, 174 - Lagoa Formosa, MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Laura Eloiza Braga Silva

Conta vinculada

06 maio 2026

CADASTRO

06 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

04 fev 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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