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APRESENTAÇÃO
O município de Angra dos Reis, localizado no estado do Rio de Janeiro, possui uma rede de Atenção Primária à Saúde estruturada por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), responsável pelo acompanhamento do pré-natal das gestantes no território. O município registra, em média, cerca de 1.900 nascidos vivos ao ano. Embora esse número não seja elevado quando comparado a outros municípios do estado, Angra dos Reis apresenta significativa diversidade geográfica, étnica e cultural, incluindo áreas insulares e populações indígenas, quilombolas e caiçaras, o que impõe desafios específicos à organização e à qualificação do cuidado materno-infantil.
De acordo com os Sistemas de Informação em saúde do SUS, observou-se aumento progressivo dos casos de sífilis em gestantes e de sífilis congênita no município, evidenciando fragilidades no diagnóstico oportuno, no tratamento adequado e no seguimento das gestantes durante o pré-natal realizados nas unidades de saúde do município. Diante desse cenário, tornou-se necessária a implementação de estratégias voltadas à qualificação do cuidado na Atenção Primária à Saúde, com foco na sífilis na gestação.
Objetivo geral: Fortalecer o cuidado pré-natal na Atenção Primária à Saúde por meio da qualificação dos profissionais e da implantação de estratégias de monitoramento das gestantes com sífilis.
Objetivos específicos: Qualificar médicos e enfermeiros quanto ao diagnóstico, manejo e seguimento da sífilis na gestação; ampliar a oferta de testagem rápida; padronizar condutas assistenciais; e implementar instrumento de monitoramento para acompanhamento dos casos.
A experiência foi desenvolvida a partir da articulação entre a Área Técnica de Saúde da Mulher e a Coordenação de Doenças e Agravos de Importância à Saúde Pública. Durante o ano de 2024, durante reuniões distritais com as equipes da ESF, realizou-se a sensibilização dos profissionais quanto à importância do enfrentamento da sífilis na gestação, além da construção coletiva de um instrumento de monitoramento das gestantes diagnosticadas.
Esse instrumento consiste em uma ficha de acompanhamento anexada ao cartão de pré-natal da rede pública de saúde, contendo informações essenciais para o monitoramento do tratamento e seguimento da sífilis na gestação, como registro da administração da benzilpenicilina benzatina e controle mensal do VDRL, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde. Sua utilização possibilita maior organização do cuidado, acompanhamento sistemático pelas equipes da APS e acesso às informações pela maternidade municipal vinculada, especialmente diante da ausência de integração entre os prontuários dos diferentes pontos de atenção.
Em setembro de 2024, foi realizada capacitação conjunta com o serviço de infectologia do município, direcionada aos médicos e enfermeiros responsáveis pelo pré-natal, abordando diagnóstico, manejo clínico, tratamento e seguimento da sífilis na gestação. A capacitação contou com ampla adesão dos profissionais, favorecendo a padronização das práticas e a incorporação do instrumento de monitoramento na rotina das equipes.
A experiência justificou-se pela necessidade de qualificar o cuidado pré-natal e reduzir agravos evitáveis, como a sífilis congênita, por meio de estratégias factíveis, replicáveis e alinhadas às diretrizes do Sistema Único de Saúde.
De acordo com os dados dos Sistemas de Informação do SUS (SIA/SUS e SISAB), o município de Angra dos Reis apresentava, em 2023, cenário preocupante relacionado à sífilis na gestação e seus desfechos, com registro de 123 casos de sífilis em gestantes e 37 casos de sífilis congênita, sendo 36 em nascidos vivos. Além disso, a cobertura de testagem rápida para HIV e sífilis no 3º quadrimestre de 2023 era de 61%, indicando fragilidades no diagnóstico oportuno durante o pré-natal.
Esse contexto evidenciou lacunas no manejo clínico, no tratamento completo e no seguimento das gestantes, bem como baixa padronização das condutas entre as equipes da Atenção Primária à Saúde. Observou-se também ausência de monitoramento sistemático dos casos, comprometendo a interrupção da transmissão vertical.
Diante desse cenário, identificou-se a necessidade de qualificar o cuidado pré-natal e estruturar estratégias de acompanhamento das gestantes com sífilis, com a participação e contribuição das equipes assistenciais, visando fortalecer a organização do cuidado e a resolutividade da APS.
A implementação da estratégia produziu avanços relevantes na qualificação do cuidado às gestantes com sífilis na Atenção Primária à Saúde. Observou-se ampliação da cobertura de testagem rápida para HIV e sífilis, que passou de 61% no 3º quadrimestre de 2023 para 80% no 1º quadrimestre de 2025, indicando melhora no acesso ao diagnóstico oportuno.
Também se verificou redução no número de casos de sífilis congênita, que passaram de 37, em 2023, para 19, em 2025, acompanhada de diminuição expressiva dos desfechos em nascidos vivos, de 36 para 4 casos. Destaca-se que, anteriormente à intervenção, não havia registro qualificado de óbitos ou natimortos relacionados à sífilis, o que sugere possível subnotificação ou fragilidades no preenchimento dos sistemas de informação.
No que se refere à sífilis em gestantes, houve redução de 123 casos em 2023 para 70 em 2025, resultado que pode ser associado ao aprimoramento do monitoramento, ao diagnóstico mais oportuno e ao tratamento adequado ao longo do pré-natal.
A incorporação do instrumento de monitoramento no cotidiano das equipes contribuiu para maior organização do cuidado e fortalecimento do acompanhamento sistemático das gestantes, além de favorecer a integração entre os pontos da rede, mesmo na ausência de prontuário eletrônico integrado. Como diferencial, destaca-se a construção coletiva de uma ferramenta simples, de fácil utilização e com elevado potencial de replicação, aliada ao fortalecimento da educação permanente e à corresponsabilização das equipes no cuidado.
De modo geral, a experiência aponta que a articulação entre qualificação profissional e monitoramento contínuo pode produzir mudanças concretas nos indicadores de saúde e na qualidade da assistência prestada no pré-natal.
A experiência evidencia que a qualificação dos profissionais, associada ao uso de ferramentas simples de monitoramento, pode fortalecer o cuidado pré-natal e contribuir para a redução de agravos evitáveis. Nesse sentido, é recomendável que outros municípios invistam em estratégias de educação permanente, envolvendo ativamente as equipes assistenciais desde a concepção das soluções, o que tende a favorecer maior adesão, corresponsabilização e continuidade das ações.
Destaca-se, nesse processo, a relevância da construção coletiva dos instrumentos de trabalho utilizados pelas equipes. Essa abordagem não apenas amplia a identificação dos profissionais com o material produzido, como também incorpora contribuições práticas relacionadas à sua aplicabilidade no cotidiano dos serviços, favorecendo seu uso efetivo e qualificando o cuidado prestado.
Outro aspecto importante refere-se à adoção de instrumentos de fácil utilização, integrados à rotina dos serviços, possibilitando o acompanhamento sistemático dos casos, especialmente em contextos em que não há integração entre sistemas de informação. Paralelamente, é fundamental fortalecer a articulação entre os diferentes pontos da rede de atenção, de modo a garantir a continuidade do cuidado.
Como encaminhamento, recomenda-se a realização de diagnóstico situacional dos indicadores locais, o envolvimento das equipes no planejamento das ações e a manutenção de monitoramento contínuo, com devolutivas periódicas. Essas estratégias contribuem para sustentar as melhorias alcançadas e favorecem a replicação da experiência em outros territórios.
Rua Almirante Machado Portela, 85 - Balneário, Angra dos Reis - RJ, Brasil
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