autor da pratica

Meu nome não é cracudo

CAPS ad III Paulo da Portela

meunomenaoecracudo

Esta prática está EM MODERAÇÃO por

Tatiane Guimarães Amparo

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O estigma em torno do uso de drogas ainda é uma das principais barreiras no acesso e permanência das pessoas em tratamento nos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

O documentário “Meu Nome Não É Cracudo” (45min) foi produzido por usuários e profissionais do CAPS AD Paulo da Portela, localizado em Madureira, bairro da Zona Norte do RJ. A iniciativa surge em um contexto de forte estigmatização das pessoas que fazem uso de substâncias psicoativas, agravado por fatores como o racismo estrutural e a violência social.

Os participantes, em sua maioria pessoas negras, vivenciam cotidianamente situações de preconceito e exclusão, tanto em espaços públicos quanto institucionais. Um exemplo marcante foi o impedimento de participação em uma aula pública, sob justificativas discriminatórias, evidenciando barreiras sociais que ultrapassam o campo da saúde.

“Meu nome não é cracudo” tem como objetivo desconstruir estigmas associados ao uso de substâncias psicoativas por meio de práticas artísticas e culturais, utilizando o audiovisual como ferramenta de cuidado e transformação social para promover reflexões sobre preconceito, racismo estrutural e exclusão social, e em consequência, dar visibilidade às histórias de vida, talentos e aspirações dos participantes, fortalecendo o protagonismo e a autonomia dos usuários do CAPS.
Diante da invisibilização e dos estigmas que reduzem suas identidades à condição de “usuários de drogas”, surgiu a necessidade de criar um espaço de escuta, expressão e reconhecimento.

Protagonizado pelos próprios usuários, o documentário se justifica como uma estratégia de redução de danos e de enfrentamento ao preconceito, permitindo que os próprios usuários contem suas histórias e apresentem suas múltiplas dimensões humanas. A proposta também dialoga com iniciativas como o projeto “Meu nome não é cracudo”, da Redes da Maré, reforçando a importância de narrativas construídas a partir do protagonismo dos sujeitos.

A construção do documentário ocorreu de forma coletiva, envolvendo usuários e profissionais do CAPS AD. Os participantes foram incentivados a compartilhar suas trajetórias, experiências, habilidades e projetos de vida.
O processo foi inspirado em metodologias participativas, valorizando a escuta ativa e o protagonismo dos sujeitos. A produção audiovisual funcionou não apenas como registro, mas como espaço terapêutico e de expressão, onde os participantes puderam ressignificar suas narrativas e fortalecer vínculos.

A manifestação artística intitulada “Meu Nome Não é Cracudo” surge enquanto uma resposta a partir da problemática vivenciada cotidianamente pelos usuários de um serviço de alta complexidade, voltado para o cuidado de pessoas em sofrimento intenso decorrente do uso de substâncias. O estigma que dita o que, onde e como estes corpos devem transitar pela cidade atravessou um grupo de usuários durante uma tentativa de participação em uma aula de dança pública. Corpos violentamente desautorizados a existir e ocupar este espaço, cansados deste cotidiano que segrega, se uniram para direcionar a raiva e propuseram um documentário que contasse quem eles são para além do uso, como existem, compartilhando suas histórias, vivências e desejos.

Desejo este que inicialmente se apresenta informalmente, ainda tímido, nos espaços de convivência, toma forma e fôlego após um prêmio de melhor estandarte -em um concurso da Rede de atenção psicossocial- com o título que marcaria o filme e uma longa experiência de redução de danos. A partir de muitas conversas e encaminhamentos da raiva, foi sendo construído um debate acerca do pejorativo termo “cracudo”, tendo em vista que, no episódio citado, falas violentas como “cracudo aqui não!” foram escutadas pelos usuários e equipe presentes. Assim, os usuários foram se apropriando do termo e subvertendo a lógica não só do que significa para o senso comum chamá-los desta forma quem são e como existem enquanto sujeitos de direito. As exibições movimentaram, inclusive, uma frente de trabalho do CAPS e a retomada de um potente dispositivo de cuidado em redução de danos e racialização que envolve todo o estigma e a necropolítica envolvida a cada fala e proibição de ocupar a cidade.

A participação ativa dos usuários durante todo o processo de produção e exibição do filme, vem sendo capaz de transformar a ideia de que estes corpos merecem ser excluídos e aniquilados e dando possibilidade de existir de forma potente, firme e em todos os espaços que almejarem.

O efeito da construção, elaboração e divulgação do projeto do Documentário vem sendo recolhido não apenas na clínica dos usuários protagonistas do projeto, mas também no território onde o serviço atua, assim como no próprio centro de atenção psicossocial.

O projeto inclui como prática de redução de danos exibições por espaços públicos e privados da cidade do Rio de Janeiro, com a presença dos protagonistas, usuários e profissionais do Caps ad III Paulo da Portela compondo uma roda de conversa com os espectadores, tirando dúvidas e dissertando sobre todo processo de construção do filme. Com isto temos recolhido uma maior organização e a redução do uso de substâncias destes usuários, para ocuparem este espaço.

Vem sendo possível, recolher efeitos políticos, entendendo que os usuários deste serviço vem conseguindo colocar como pauta de discussão a vulnerabilidade dos seus corpos, em sua maioria corpos pretos que conseguem hoje fazer um atrelamento da moralidade e racismo da sociedade quando falamos de uso de substâncias. Utilizando da crítica ao motivo inicial para a produção do documentário ter sido exatamente problematizar quais corpos são violentados quando a sociedade identifica o uso de substâncias e como de fato usam de maneira pejorativa e nomeando uma única substância como a problemática da situação sem incluir toda a realidade individual e territorial que cada sujeito vivencia, com isto não se interessando por seus nomes e suas histórias.

Cabe salientar que o maior benefício deste projeto tem sido recolher os efeitos da ocupação dos espaços na cidade, dos usuários podendo de fato se sentirem pertencentes e protagonistas das suas histórias, espaços esses que já foi idealizado por muitos mas ocupados pouquíssimas vezes, já que a sociedade ainda exclui e violenta a diferença. Os usuários têm conseguido planejar e organizar em conjunto com os profissionais toda a organização das exibições e ocupação dos espaços, com isto e com a redução do uso de substâncias notamos que os mesmos vem conseguindo pensar projetos futuros, para além de se apresentarem sempre com o autocuidado preservado, a aproximação do território as histórias desses usuários também vem trazendo um novo olhar para os mesmos – um olhar para além do uso, um olhar que reverbera em discussão onde a prioridade é a história do sujeito, o sofrimento que é singular e as potencialidades de cada um, e não mais o uso de substâncias seja qual for a droga de escolha dos mesmos.

O filme teve sua estreia na Arena Carioca Fernando Torres em agosto de 2025 contanto com um público de mais de 400 pessoas entre usuários e profissionais da RAPS, familiares e população local. Desde então segue sendo exibido através de convites e parcerias em diversos dispositivos de educação, arte, cultura e saúde pública passando pelo Instituto Municipal Nise da Silveira, UERJ para o Fórum da SES e para a Frente Estudantil de Luta Antimanicomial, Cinemateca do MAM, CIPOP Niterói e na Aula inaugural das Residências da Prefeitura do Rio. Ainda para este semestre o filme estará no Teatro Qorpo Santo (Praia Vermelha), Teatro Arthur Azevedo (Zona Oeste) e SESC RAMOS.

Cabe salientar a respeito do processo de criação desta Prática, que ela foi construída como objeto de desejo dos usuários do serviço. Neste sentido, é fundamental que os trabalhadores de Saúde Mental de serviços como Caps, Deambulatórios, Centros de Convivência ou demais dispositivos possam sustentar em suas práticas um compromisso com a escuta atenta desses sujeitos. Essa escuta entretanto por vezes vai precisar estar afinada e sensível para que seja possível perceber e ampliar o que aparece como interesse e desejo do usuário para além dos espaços individuais e/ou de consultórios.

Destacamos que foi em um dos dispositivos de cuidado estruturais do Caps – a convivência – que foi possível ouvir e dar corpo ao desejo dos usuários acompanhados de realizar uma criação de audiovisual em formato de Documentário para que pudessem contar suas histórias. Identificar, dar credibilidade e apoiá-los nesta construção é parte fundamental deste processo.

Sem que os usuários possam ser protagonistas do processo criativo seja de um filme ou de quaisquer outras produções artísticas, a Prática pouco se sustenta como uma ferramenta potente de cuidado em Saúde Mental para esses sujeitos.

Portanto, é essencial que a construção seja desde o início a partir dos atravessamentos vividos pelos usuários. O que nos foi fundamental a partir daí, foi também entender quais profissionais do serviço poderiam estar engajados neste projeto junto aos usuários para que houvesse um alinhamento institucional onde a Prática pudesse ser de fato uma direção de trabalho em Redução de Danos neste serviço.

Sabemos que pensar e atuar em Atenção Psicossocial precisa ser um trabalho necessariamente em rede, a partir de uma coletividade onde a equipe cuida e dá sustentação, mas o cuidado é construído junto com o usuário e com demais serviços.

No caso da construção de um filme, foi fundamental contar com uma parceria sem a qual a Prática não teria o mesmo resultado, que foi o trabalho voluntário do cineasta Roma Miranda. Não obtivemos nenhum recurso ou financiamento nesta produção. Apresentamos a proposta para pensar possibilidades e a partir de então iniciamos uma organização coletiva envolvendo o funcionamento do serviço junto aos demais profissionais da equipe, uma mini equipe de trabalho composta por 5 profissionais, o cineasta Roma na direção, captação e edição das imagens e 6 usuários que estiveram à frente como protagonistas, além dos demais.

Esta produção foi incluída no Projeto Terapêutico Singular dos usuários acompanhados e a partir daí foram organizadas reuniões para pensar roteiro, cenários, datas de filmagem e alinhar maiores detalhes do projeto desde a execução até a estreia do filme, em agosto de 2025.

Por fim, se podemos dizer de recomendações que possam incentivar outros serviços e profissionais na criação de Práticas como esta, seriam ESCUTA E DESEJO como disparadores essenciais para possibilitar a realização e sustentação deste trabalho que iniciou-se em fevereiro de 2025 e segue ainda hoje gerando impactos potentes tanto no cuidado dos usuários quanto para toda a RAPS.

autor Principal

CAPS ad III Paulo da Portela

meunomenaoecracudo@gmail.com

Diretora

Coautores

Daiana Alves - Psicóloga, Giovanna Caruso - Psicóloga, Laryssa França - Professora de Artes, Tatiane Amparo - Enfermeira, Diretora.

A prática foi aplicada em

Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Rua Pirapora, 69 - Turiaçú, Rio de Janeiro - RJ, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Tatiane Guimarães Amparo

Conta vinculada

26 mar 2026

CADASTRO

26 mar 2026

ATUALIZAÇÃO

01 fev 2025

inicio

31 dez 2026

fim

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

Arquivos