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Excelência operacional no SUS: lean healthcare e cuidados paliativos na rede de urgências

Gabriel Cimada da Silva

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Gabriel Cimada da Silva

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A experiência consiste na implementação de um modelo assistencial integrado entre Lean Healthcare e Cuidados Paliativos em um hospital público municipal da rede de urgências do Sistema Único de Saúde (SUS), com foco na reorganização dos fluxos de cuidado e na qualificação da tomada de decisão clínica em pacientes com doenças graves e ameaçadoras da vida.

A iniciativa foi estruturada a partir da criação de uma Comissão de Cuidados Paliativos (CCPali), com atuação transversal nos setores assistenciais, especialmente na emergência e nas unidades críticas. Foram desenvolvidos e institucionalizados protocolos clínicos, realizada capacitação multiprofissional das equipes e aplicada a ferramenta Value Stream Mapping (VSM) para análise dos fluxos assistenciais, permitindo identificar desperdícios, gargalos e oportunidades de melhoria.

Com base nesse diagnóstico, os fluxos foram reorganizados com ênfase na identificação precoce de pacientes elegíveis para cuidados paliativos, na comunicação estruturada com pacientes e familiares e na definição de planos terapêuticos proporcionais aos objetivos de cuidado.

A implementação promoveu maior integração entre equipes, fortalecimento da governança clínica e melhoria na alocação de recursos, com redução de intervenções de baixo valor e qualificação do cuidado ofertado.

Trata-se de uma experiência concreta, de baixo custo incremental e alto potencial de replicação, que demonstra como a integração entre ferramentas de gestão e práticas clínicas centradas na pessoa pode contribuir para a eficiência, a sustentabilidade e a humanização do cuidado na rede de urgências do SUS.

A experiência descrita também foi objeto de investigação científica, resultando em artigo aceito para publicação em periódico internacional, anexado como material complementar.

A rede de urgências do Sistema Único de Saúde (SUS) opera sob pressão contínua, marcada por superlotação, elevada demanda assistencial e limitação de recursos, configurando um dos principais pontos críticos do sistema de saúde brasileiro.

Nesse cenário, observa-se a permanência prolongada de pacientes com doenças graves e ameaçadoras da vida em unidades de alta complexidade, como emergência, unidades intermediárias e UTI, frequentemente submetidos a intervenções invasivas de baixo valor clínico e desalinhadas aos seus objetivos de cuidado. Esse padrão assistencial contribui para o uso ineficiente de leitos críticos, aumento de custos, sobrecarga das equipes e restrição de acesso para pacientes com potencial de reversibilidade clínica.

Além disso, a ausência de fluxos estruturados e de critérios sistematizados para identificação precoce de elegibilidade para cuidados paliativos favorece a tomada de decisão tardia, reativa e fragmentada, perpetuando práticas desproporcionais e dificultando a coordenação do cuidado ao longo da trajetória do paciente.

Como consequência, o sistema mantém um modelo centrado na intensificação terapêutica, com baixa integração entre gestão e clínica, resultando em desperdícios assistenciais, sofrimento evitável e perda de eficiência operacional.

Esse contexto evidencia uma oportunidade estratégica de intervenção: integrar ferramentas de gestão da qualidade, como o Lean Healthcare, com abordagens clínicas centradas na pessoa, como os Cuidados Paliativos, para reorganizar fluxos, reduzir desperdícios e promover maior proporcionalidade terapêutica. Trata-se de uma resposta concreta a um problema estrutural do SUS, com potencial de impacto simultâneo na eficiência, na sustentabilidade e na qualidade do cuidado na rede de urgências.

A implementação ocorreu em cenário de aumento expressivo da demanda assistencial, com crescimento de 26,9% no número médio de atendimentos mensais (de 13.715 ± 1.802 para 17.402 ± 1.277; p<0,0001), sem expansão proporcional da capacidade instalada. Mesmo sob maior pressão assistencial, foram observados ganhos consistentes de eficiência. O tempo médio de permanência foi reduzido em 22,7% nas unidades críticas (UTI/unidade intermediária), passando de 7,09 para 5,48 dias (p=0,0055), e em 10,4% na enfermaria, de 5,58 para 5,00 dias (p=0,0088), indicando melhor utilização dos leitos e redução de gargalos na rede de urgências. A mortalidade hospitalar total permaneceu estável (p=0,3033), demonstrando que a melhoria da eficiência não ocorreu às custas de piora nos desfechos clínicos. Observou-se ainda uma mudança estrutural no padrão de cuidado, com redistribuição do local de morte: redução de 27,4% nos óbitos em unidades intermediárias (de 9,29 para 6,74 óbitos/mês; p=0,0091) e aumento de 66,5% na enfermaria (de 10,53 para 17,53 óbitos/mês; p=0,0003), refletindo maior adequação do cuidado ao perfil clínico dos pacientes. A análise por série temporal confirmou reversão da tendência previamente crescente do tempo de permanência na enfermaria, passando a apresentar redução progressiva de 0,135 dias por mês (p=0,0012). Além dos indicadores quantitativos, a intervenção promoveu redução de intervenções de baixo valor (como suporte invasivo desproporcional), melhoria da governança clínica e maior alinhamento do cuidado aos objetivos dos pacientes, com impacto direto na sustentabilidade e na qualidade da atenção na rede de urgências do SUS.

Recomenda-se a adoção de um modelo integrado entre Lean Healthcare e Cuidados Paliativos como estratégia para qualificar o cuidado e otimizar o uso de recursos na rede de urgências do SUS.

Como primeiro passo, sugere-se a criação de Comissões de Cuidados Paliativos com atuação transversal, formalmente inseridas na governança institucional, capazes de apoiar a tomada de decisão clínica desde a admissão, especialmente em unidades de emergência e setores críticos.

A utilização de ferramentas Lean, como o Value Stream Mapping (VSM), deve ser priorizada para identificação de gargalos, desperdícios assistenciais e pontos críticos do fluxo, permitindo a reorganização do cuidado com base em valor para o paciente.

A padronização de protocolos clínicos é essencial para reduzir variabilidade, aumentar a segurança assistencial e garantir proporcionalidade terapêutica, especialmente em decisões relacionadas a intervenções de alta complexidade e fim de vida.

A capacitação multiprofissional contínua deve ser incorporada como eixo estruturante, promovendo mudança cultural, qualificação da comunicação com pacientes e familiares e maior alinhamento das condutas aos objetivos de cuidado.

Destaca-se a importância da identificação precoce de pacientes elegíveis para cuidados paliativos, preferencialmente na porta de entrada da rede, como estratégia para evitar intervenções de baixo valor e otimizar a alocação de leitos hospitalares.

Adicionalmente, a experiência apresentada pode ser compreendida como um modelo prático para implementação da Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS, ao operacionalizar, em nível local, diretrizes como organização de fluxos assistenciais, integração entre equipes, padronização de condutas e promoção do cuidado centrado na pessoa.

Por fim, trata-se de um modelo de baixo custo incremental, baseado na reorganização de processos e qualificação da prática clínica, com alto potencial de replicação em diferentes contextos do SUS, contribuindo para a sustentabilidade do sistema e a ampliação do acesso a cuidados paliativos de qualidade.

autor Principal

Gabriel Cimada da Silva

gabrielcimada@gmail.com

Presidente da Comissão de Cuidados Paliativos do Hospital Conde Modesto Leal

Coautores

Gabriel Cimada da Silva, Robisom Damasceno Calado, Osvaldo Luiz Goncalvez Quelhas, Camila Moreira dos Santos de Oliveira, Ana Carolina Sanches Zeferino, Alexandre Beraldi Santos, Lilian Kazuko Shio, Simone Del Rosse Elizeu, Thiago Keiy Sugimoto, Sineide de Paula Silva

A prática foi aplicada em

Maricá

Rio de Janeiro

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Hospital Municipal Conde Modesto Leal

Hospital Municipal Conde Modesto Leal - Rua Domicio da Gama 433 - Centro, Maricá - RJ, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Gabriel Cimada da Silva

Conta vinculada

26 mar 2026

CADASTRO

26 mar 2026

ATUALIZAÇÃO

01 nov 2023

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fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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