favor seguir as recomendações abaixo:
O município do Carmo, localizado no interior do estado do Rio de Janeiro, com uma população estimada de 17.198 habitantes, segundo o censo (2022-IBGE), apresenta uma história singular no processo de desinstitucionalização das pessoas em sofrimento psíquico e sua inclusão na cidade. Reconhecido por suas bem sucedidas ações no contexto da Reforma Psiquiátrica Brasileira, cenário do fechamento do Hospital Psiquiátrico Teixeira Brandão e da construção de complexa Rede de Atenção Psicossocial reconhecido nacionalmente por suas práticas exitosas em Saúde Mental, sendo um campo fértil para a produção de conhecimento e experiência em ações comprometidas com os preceitos do SUS (Sistema Único de Saúde) – universalidade, integralidade e equidade. Possui uma rede complexa de serviços de base comunitária e territorial incluindo: CAPS II; 4 Leitos de crise no Hospital Geral; Centro de Convivência, Ambulatório de Saúde mental, 16 Serviços Residenciais Terapêuticos e cobertura total de Estratégia de Saúde da Família. Neste contexto, iniciativas que articulam saúde, cultura e comunidade têm se mostrado importantes estratégias de promoção de saúde e reabilitação psicossocial. A partir do desejo dos próprios usuários de participar mais ativamente das manifestações culturais da cidade, foi criado em 2016, o Bloco Carnavalesco Enlouquece Carmo, inspirado na tradição brasileira, o bloco se constitui como espaço de expressão artística e fortalecimento dos vínculos comunitários., permitindo que pessoas historicamente excluídas ocupem os espaços públicos e participem da vida cultural da cidade. Essa iniciativa do SUS, traz para o debate o conceito mais amplo sobre promoção de saúde, em que não se resume a ausência de doença, mas, na produção de estratégias de cuidado que entendam o sujeito de forma integral em um determinado território.
Objetivos:
Objetivo geral: Promover ações intersetoriais no campo da arte, cultura e lazer como formas alternativas de cuidado na promoção de saúde, buscando o bem estar biopsicossocial e o protagonismo dos usuários de saúde mental nos espaços da cidade;
Objetivos Específicos: Refletir sobre os efeitos da inclusão de práticas alternativas de promoção de saúde na despatologização das condições de vida e estimular o protagonismo do usuário de saúde mental na cidade;
Promover ações intersetoriais para garantia dos direitos fundamentais (saúde, lazer, cultura) ofertando o cuidado integral da comunidade;
Construir uma linha de cuidado em saúde que atravesse as paredes dos consultórios médicos e circule pelos espaços da cidade, através de ações comunitárias e territoriais;
Estimular o protagonismo dos usuários de saúde mental em atividades culturais e comunitárias;
Valorizar o Carnaval como tradição cultural na promoção do bem-estar, inclusão social e participação comunitária das pessoas em sofrimento psíquico.
O Bloco Enlouquece Carmo surge como uma iniciativa do Centro de Convivência Paula Cerqueira, que integra a Rede de Atenção Psicossocial local e atende principalmente usuários oriundos do CAPS e sSrviços Residenciais Terapêuticos. Funciona estrategicamente no Centro Cultural da cidade, com ações de promoção de saúde, em articulação intersetorial com instituições e saberes no campo da cultura, arte e lazer. A experiência envolve usuários, familiares, profissionais e comunidade local, totalizando aproximadamente 260 participantes.
As ações são realizadas de forma participativa e intersetorial, com parcerias entre as secretarias municipais de saúde e cultura, além de instituições comunitárias, como AUFASSAMC (Associação de Usuários, Familiares e Amigos dos Serviços de Saúde Mental do Carmo) e Liga de Blocos Carnavalescos.
As atividades incluem oficinas culturais e artísticas voltadas à preparação para o desfile carnavalesco, como música, percussão, dança e confecção de fantasias e adereços. Também são realizados encontros de socialização, rodas de conversa sobre cultura e saúde mental e ensaios coletivos. Integra a Liga Carnavalesca da cidade, abrindo oficialmente os festejos, com o prefeito entregando as chaves da cidade para nosso Rei Momo, mobilizando usuários e comunidade em um evento público de celebração cultural.
. O samba enredo tem o compromisso político de dar voz e transformar as relações sociais e de cuidado em nossa comunidade. Os bonecos gigantes homenageiam nossos usuários marcados pelas violências sofridas, deixando em nossas memórias, o legado de resistência e força.
O Bloco possui estatuto próprio, mesa diretora, e fontes de financiamento como o COFIRAPS (Cofinanciamento, Fomento e Inovação da RAPS), recurso proveniente do Fundo Estadual de Saúde e subvenção municipal proveniente da Liga dos Blocos Carnavalescos.
Após as atividades, são realizados momentos de avaliação coletiva entre participantes e equipe, com o objetivo de refletir sobre os resultados e planejar ações futuras.
A experiência do Bloco Carnavalesco Enlouquece Carmo evidenciou que a cultura pode atuar como importante dispositivo de cuidado no campo da atenção psicossocial. A participação dos usuários nas atividades culturais possibilitou ampliar sua circulação na cidade e fortalecer o sentimento de pertencimento social.
Observou-se também o fortalecimento da autoestima dos participantes, que passaram a ocupar espaços públicos tradicionalmente associados à celebração coletiva e à produção cultural. A presença do bloco no calendário oficial do Carnaval municipal representa um importante reconhecimento institucional e social da iniciativa.
Outro aspecto relevante refere-se à redução do estigma relacionado ao sofrimento psíquico. Ao compartilhar com a comunidade momentos de festa, criatividade e convivência, os participantes contribuem para transformar representações sociais historicamente construídas acerca da loucura.
Além disso, a experiência fortaleceu a articulação intersetorial entre saúde, cultura e comunidade, elemento fundamental para a consolidação das práticas de cuidado em liberdade no âmbito da Reforma Psiquiátrica.
A experiência do Bloco Carnavalesco Enlouquece Carmo demonstra o potencial das práticas culturais como estratégias de inclusão social e promoção da saúde mental. Ao valorizar a tradição cultural do Carnaval, a iniciativa possibilita que usuários da Rede de Atenção Psicossocial ocupem os espaços públicos da cidade e participem ativamente da vida cultural do município.
Mais do que uma atividade recreativa, o bloco se constitui como um dispositivo de cuidado em liberdade, alinhado aos princípios da Reforma Psiquiátrica e da Atenção Psicossocial. A experiência evidencia que a articulação entre saúde, cultura, território e participação comunitária pode contribuir significativamente para promoção de saúde, redução do estigma e construção de processos efetivos de reabilitação psicossocial.
R. Ulisses Lengruber de Andrade, 777 - Centro, Carmo - RJ, 28640-000, Brasil
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