Doença de Chagas no SUS: atenção primária e vigilância integradas ampliam o cuidado em Espinosa (MG)

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Carlos Keliton Nunes de Oliveira

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Apresentação/Introdução:
A Doença de Chagas permanece como condição crônica historicamente negligenciada em áreas rurais do Norte de Minas Gerais, onde coexistem transmissão vetorial residual, provável transmissão vertical, importante carga de morbimortalidade, envelhecimento de coortes infectadas, subdiagnóstico, barreiras geográficas de acesso e baixa visibilidade nos sistemas de informação em saúde. Em Espinosa/MG, município de pequeno porte, com ampla dispersão territorial, predomínio rural e relevante vulnerabilidade social, o enfrentamento da doença tem sido marcado por uma resposta fragmentada, com limitações na busca ativa, no diagnóstico oportuno, na notificação, na classificação clínica, no tratamento e no seguimento longitudinal, além de fragilidades na articulação entre a vigilância em saúde, a Atenção Primária à Saúde (APS), a atenção especializada e outros setores, como educação e assistência social. A experiência foi motivada pelo reconhecimento de que a permanência de casos ocultos, a circulação de triatomíneos e as iniquidades de acesso exigiam uma resposta mais abrangente, territorializada e sustentável. Desenvolvida entre 2024 e 2026 no âmbito do projeto IntegraChagas Brasil, a iniciativa buscou reorganizar a linha de cuidado da doença de Chagas a partir da APS, integrar vigilância epidemiológica, entomológica e ambiental, qualificar o cuidado clínico e fortalecer a ação intersetorial e comunitária, sob a perspectiva de Uma Só Saúde. Trata-se, portanto, de uma experiência orientada a ampliar o acesso, reduzir a invisibilidade, institucionalizar fluxos e induzir mudanças permanentes na capacidade local de resposta a uma condição crônica negligenciada, com potencial de replicação em municípios endêmicos de pequeno porte do país.
Objetivos:
Descrever a implementação, os resultados e os aprendizados de uma estratégia territorial integrada para ampliar o acesso ao diagnóstico, à notificação, ao tratamento e ao seguimento de pessoas acometidas pela doença de Chagas em Espinosa/MG. Especificamente, buscou-se: 1) organizar a linha de cuidado da doença na APS, com definição de fluxos assistenciais e de vigilância 2) integrar vigilância epidemiológica, entomológica, ambiental e assistência, superando a fragmentação das ações 3) ampliar a testagem especialmente em áreas rurais e populações vulnerabilizadas 4) qualificar os processos de confirmação diagnóstica, classificação clínica, tratamento etiológico, monitoramento de eventos adversos e seguimento longitudinal dos casos 5) articular saúde, educação, assistência social, meio ambiente e comunidade na resposta local 6) fortalecer a institucionalização municipal e a replicabilidade do modelo em outros territórios endêmicos e 7) produzir evidências úteis à gestão municipal para planejamento, monitoramento e sustentação de uma resposta territorializada e longitudinal à doença.

Metodologia:
Relato de experiência desenvolvido em Espinosa/MG, entre março de 2024 e março de 2026, no âmbito do projeto IntegraChagas Brasil, A intervenção iniciou-se com diagnóstico situacional ampliado, análise epidemiológica, territorial e social e priorização de áreas vulneráveis, com uso de bases como e-SUS Notifica, SINAN, SIM e SIH-SUS, além da leitura do território pelas equipes locais. Estruturou-se a governança intersetorial por meio de um Grupo Gestor da Linha de Cuidado para a doença de Chagas, envolvendo saúde, educação, assistência social, meio ambiente e lideranças comunitárias, com a pactuação de responsabilidades, o planejamento de ações e o monitoramento contínuo. Na APS, implantou-se o Teste Rápido de Triagem para doença de Chagas em diferentes estratégias territoriais, incluindo ações nas unidades, em comunidades rurais e em mobilizações locais, articuladas ao fluxo de confirmação sorológica, notificação, avaliação e classificação clínica, com a realização de eletrocardiograma, avaliação da indicação de tratamento etiológico e seguimento longitudinal dos casos. Paralelamente, foram desenvolvidas ações de vigilância entomológica e controle vetorial, com apoio do SisVetor (módulo de doença de Chagas), investigação domiciliar e resposta às notificações de triatomíneos. A estratégia incorporou educação permanente das equipes, educação popular em saúde, comunicação em saúde, ações em escolas e comunidades, articulação com o SUAS para a identificação de vulnerabilidades e o apoio às famílias, além de mobilização social. A resposta foi reforçada pela institucionalização normativa no município, pela organização da linha de cuidado e pela incorporação da abordagem territorial e de Uma Só Saúde à rotina dos serviços de saúde.

Resultados:
Entre março de 2024 e março de 2026, foram realizados 10.616 testes rápidos de triagem para a doença de Chagas, com expressiva ampliação do acesso ao diagnóstico em áreas historicamente subassistidas e demonstração da capacidade mobilizadora da APS. Do total de pessoas testadas, 94,3% não possuíam diagnóstico prévio, evidenciando a magnitude da demanda reprimida e a presença de casos ocultos no território. Foram confirmados 778 casos, dos quais 739 foram notificados 336 apresentaram indicação de tratamento etiológico, 321 iniciaram tratamento e 253 concluíram o esquema terapêutico. Entre os tratados, 21,8% apresentaram eventos adversos, o que reforça a necessidade de monitoramento clínico qualificado e de farmacovigilância na APS. Observou-se ampliação da visibilidade epidemiológica da doença e da capacidade municipal de detectar, notificar e acompanhar os casos. O perfil dos casos confirmou maior carga da doença em populações vulnerabilizadas, especialmente entre pessoas pardas, residentes na zona rural e com 50 anos ou mais. No componente entomológico, 1.021 unidades domiciliares foram investigadas entre 2024 e 2025, com identificação de triatomíneos em proporção relevante de domicílios, o que mantém o alerta quanto ao risco vetorial e à necessidade de vigilância contínua. No cuidado clínico, registrou-se elevada realização de eletrocardiograma, presença de manifestações cardíacas em parte dos casos e baixa realização de ecocardiograma, o que evidencia limitações no acesso regional à atenção especializada. A APS assumiu papel ordenador do cuidado, articulando-se ao SUAS, à educação e à vigilância (com boletins epidemiológicos produzidos), além de impulsionar a mobilização social e a organização comunitária por meio da associação de pessoas acometidas.

Conclusões:
A experiência demonstrou que a integração entre APS, vigilância em saúde e ações intersetoriais pode ampliar de forma consistente o acesso ao diagnóstico, à notificação, ao tratamento e ao cuidado da doença de Chagas em território endêmico, rural e socialmente vulnerável. Ao combinar busca ativa, testagem descentralizada, organização da linha de cuidado, vigilância entomológica, controle vetorial, educação permanente, educação popular, comunicação em saúde, mobilização comunitária e institucionalização municipal, Espinosa fortaleceu a resposta local a uma doença historicamente negligenciada, reduziu as barreiras de acesso e ampliou a visibilidade epidemiológica da doença. Trata-se de experiência relevante, inovadora, aplicável e com elevado potencial de replicação em municípios de pequeno porte com características semelhantes, por articular cuidado, vigilância e território sob a perspectiva de Uma Só Saúde. Além de produzir resultados assistenciais e de vigilância, a iniciativa contribuiu para qualificar a gestão local, consolidar fluxos, fortalecer as capacidades das equipes de saúde e promover maior coordenação entre setores e pontos de atenção. Persistem como desafios a ampliação do acesso regional à média e alta complexidade, especialmente a exames complementares e seguimento especializado, bem como a sustentabilidade técnico-financeira e político-institucional das ações em longo prazo.

autor Principal

Carlos Keliton Nunes de Oliveira

kelitonrn@gmail.com

Coordenador Geral da Secretaria Municipal de Saúde

Coautores

Carlos Keliton Nunes de Oliveira, Antonio Henrique da Silva Barboza, Karoline Alves Cruz Silveira, Michella Assunção Roque, Alberto Novaes Ramos Jr, Eliana Amorim de Souza, Andréa Silvestre de Sousa, Klécia Nascimento Mendes da Silva, Samuel Henrique Tolentino Cerqueira, Karlla Martins Ludgero da Cruz, Nilson Faber Sepúlveda

A prática foi aplicada em

Espinosa

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Rua Getúlio Vargas, 89, Espinosa - Minas Gerais, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Carlos Keliton Nunes de Oliveira

Conta vinculada

06 maio 2026

CADASTRO

06 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

06 maio 2026

inicio

28 fev 2026

fim

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

Arquivos