Clínica comunitária de saúde sexual: abordagem de populações vulneráveis a partir do território e pares

Daniel Figueiredo

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A experiência foi e é desenvolvida na cidade de São Paulo, região central, nos correspondentes bairros da República, Campos Elíseos, Bela Vista e Sé (CRS Centro). Foram realizadas análises de território, mapeamento e intervenção comunitária em espaços de trabalho/socialização vinculados ao trabalho sexual, por exemplo: prostíbulos, casas de massagem, saunas, banheirões, cabines de sexo, cinemas pornográficos e pontos de rua de trabalho sexual. Esses estabelecimentos concentram populações vulnerabilizadas e com barreiras de acesso às tecnologias de prevenção ao HIV no SUS, como: população trans/travesti, HSH pardos e negros, mulheres cisgêneras trabalhadoras do sexo e usuários de SPA (chemsex ou não).

A região que compreende o entorno da Clínica Comunitária de Saúde Sexual, serviço de saúde responsável pela intervenção, historicamente apresenta uma alta densidade de estabelecimentos e espaços vinculados ao trabalho sexual e recentemente às práticas de chemsex (ou sexo químico, aditivado, etc). As diversas populações desses territórios apresentam tradicionalmente alta exposição às IST e vulnerabilidade ao contagio de HIV, marcadamente por questões trabalho, estruturais e de determinação social. Apesar dessa alta exposição e vulnerabilidade, é notório a baixa adesão aos métodos de prevenção combinada como testagem regular, tratamento de parcerias sexuais, PEP e PrEP, tanto por questões de desconhecimento quanto por barreiras institucionais de acesso aos serviços de saúde. Essas barreias estão majoritariamente relacionadas ao estigma do trabalho sexual, moralismos relacionados ao uso de SPA e baixa identificação dos usuários com os serviços de saúde e assistência social, baixa escolaridade e baixa renda. Dessa maneira, a justificativa da intervenção comunitária nesses espaços é a ampliação do acesso e oferta imediata para populações vulnerabilizadas os métodos de prevenção combinada dispendidos na Clínica Comunitária de Saúde Sexual.
Outro ponto que compreendemos como problemática a ser trabalhada é a contradição entre a elevada presença de serviços saúde na região central de São Paulo e a aparente lacuna de acesso e oferta imediata de método prevenção combinada direcionadas para populações vulneráveis. Além disso, essa contradição é demonstrada pela sobreposição insuficiente entre os perfis de usuários de PrEP e novos diagnósticos de HIV/AIDS, que estão desproporcionalmente concentrados jovens com menor tempo de escolaridade, HSH negros e pardos, pessoas trans/travestis e trabalhadores do sexo.

O objetivo geral é a ampliação do acesso e oferta imediata dos métodos de prevenção combinada ao HIV para populações vulneráveis da região central da cidade de São Paulo.
Objetivos específicos:
a) Ampliar acesso a testagem e tratamento de IST;
b) Ofertar PEP quando pertinente com início imediato;
c) Ofertar PrEP com início no mesmo dia para populações da epidemia concentrada (HSH negros/pardos, pessoas trans/travesti, trabalhadores do sexo e usuários de SPA);
d) Em diagnóstico de HIV realizar coleta de LT-CD4 e carga viral com inicio de TARV no mesmo dia (same day ART) e suprimento para 30 dias.

No período compreendido da experiência apresentada (outubro/24 a setembro/25) foram registrados 9.743 atendimentos (73,19% de homens cisgêneros, 20,29% de mulheres cisgêneras e 6,51% de pessoas trans e travestis), Também foram testados 115 pacientes em ações extra muros voltados para populações vulneráveis, 150 participantes em oficinas de prevenção e 60 participantes em formações sobre prevenção combinada. Após as diversas intervenções comunitárias foi experienciado o aumento em 61% da demanda de atendimentos mensais, dentre as diversas populações a que apresentou maior aumento relativo foi a de pessoas trans e travesti (182% de incremento).
Além disso, foram realizados 659 novos diagnósticos e tratamento de Sífilis em suas diversas formas clínicas, com uma taxa de abandono (ou incompletude) terapêutica de 5,0%. Com implementação da PEP e dispensação de primeira TARV, em fevereiro/25, foram realizadas 185 dispensas de PEP e 61 novos diagnósticos de HIV, dentre os casos de HIV a taxa de vinculação foi correspondente a 92% e com mediana e média de LT-CD4 em 505 células/mm³ (o que demonstra um padrão de diagnóstico recente).
Com a implementação da PrEP em agosto/25 foram realizadas 80 dispensações de PrEP, dos quais 60 são novos cadastros. Esse processo de implementação foi direcionado especificamente para populações chaves da epidemia concentrada e apresenta o seguinte perfil: 25% de pessoas trans/travesti (das quais 75% são trabalhadores do sexo), 40% de mulheres cisgêneras (da quais 85% são trabalhadoras do sexo) e 35% em HSH (dos quais 75% negros/pardos e 30% trabalhadores do sexo). Especialmente os dados de perfil sociodemográfico de PrEP demonstram a potencialidade de acesso as populações vulneráveis da epidemia concentrada a partir das práticas de intervenção comunitária e navegação por pares.

Com intuito de avaliar a qualidade dos resultados das intervenções comunitárias realizadas pelos trabalhadores da Clínica Comunitária de Saúde Sexual, foram elencados como dados e indicadores: número de atendimentos e testagens no serviço, número de diagnósticos de IST (HIV e Sífilis), dispensação de PEP e PrEP e perfil sociodemográfico dos usuários em cuidado (idade, sexo, gênero, orientação sexual, ocupação, escolaridade e perfil de vulnerabilidade). Além disso, especificamente para HIV foram avaliadas as taxas de vinculação a rede municipal e estadual de SAE IST/AIDS, mediana/média de CD4 e para Sífilis a taxa de abandono de tratamento das diversas formas clínicas.

As lições aprendidas no processo de desenvolvimento são a candente necessidade de serviços de saúde com abordagens focalizadas e intervenções comunitárias voltadas para as populações vulneráveis em seus territórios de abrangência. Compreendemos que o aumento significativo dos atendimentos, além do perfil de usuários de PrEP, é causalidade das intervenções e presença comunitária. A inserção comunitária e atuação por pares são imprescindíveis para criar identificação entre os usuários e serviço de saúde, o que possibilita realizar diagnóstico recente, implementação de index testing e prevenção combinada direcionadas como estratégias de controle e eliminação da epidemia de HIV como problema de saúde pública.

A partir da lições aprendidas pela experiência de intervenção comunitária e navegação por pares para acesso e vinculação de populações vulneráveis, podemos descrever os seguintes benéficos ao sistema de saúde pública (SUS):
a) Demonstração da eficiência programática da estratégia de intervenção comunitária e navegação por pares pelo aumento do número de atendimentos, novos diagnóstico, taxa de vinculação e ofertar de métodos de prevenção combinada.
b) Esse modelo de organização da assistência em saúde promove ganhos reais de promoção, ampliação e oferta de métodos de prevenção combinada para populações vulneráveis. O que é demonstrado pelo perfil de usuário de PrEP da Clínica Comunitária de Saúde Sexual
c) O processo de identificação doa usuários com o serviço de saúde acentua a possibilidade da viabilidade de práticas de index testing, elevado sucesso de vinculação de novos diagnósticos de HIV e confiabilidade de dispensação de TARV no mesmo dia (same day ARV). Além disso, é notório o padrão elevado de LT-CD4 dos novos casos, o que permiti trabalhar em modelos bloqueio de cadeia de transmissão e de estratégias de controle e eliminação da epidemia enquanto problema de saúde pública.
d) Aproximação da linha de cuidado de IST/AIDS com outras redes de saúde (APS e Saúde Mental) e com serviços da assistência social. O que permiti uma resposta mais densa e coesa de saúde pública as complexidades de vulnerabilidade e de determinação social.

autor Principal

Daniel Figueiredo

Daniel.Figueiredo@ahf.org

Diretor médico

Coautores

Daniel Figueiredo, Ederson Renan Silva, Fábio Sato, Márcia dos Anjos, Ana Caroline Ferreira, Hugo Ishioka, Sheila Martins, Carlos Eduardo Oliveira, Renato Chuster, Ronaldo Hallal, Beto de Jesus

A prática foi aplicada em

São Paulo

São Paulo

Sudeste

Esta prática está vinculada a

AHF Brasil - República, São Paulo - SP, Brasil

Uma organização do tipo

Terceiro Setor

Foi cadastrada por

Daniel Figueiredo

Conta vinculada

19 nov 2025

CADASTRO

19 nov 2025

ATUALIZAÇÃO

10 out 2024

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fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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