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Há muitas questões totalmente elucidadas ou não em relação à saúde de crianças com Transtorno do Espectro Autista. Sabe-se que há alterações endócrinas, hormonais e biológicas que fazem este público mais vulnerável à algumas condições clínicas. Soma-se a isto, a prevalência de seletividade alimentar e rigidez cognitiva, que causa uma dieta em sua maioria restritiva e padronizada, insuficiente para uma nutrição e metabolismo compatíveis com as necessidades de saúde destas crianças.
O CAPSi em Cuité/PB é um serviço regionalizado que tem hoje cerca de 700 usuários ativos, sendo sua maioria TEA e TDAH. Diante deste cenário, foi identificado a prevalência de sintomatologias e achados em anamneses durante as consultas nutricionais. O que foi propulsor da busca de maneiras de viabilizar e facilitar a prescrição e obtenção de exames bioquímicos de forma especial a esta comunidade. O que culminou com a busca de liberação mais direta pela Secretaria de Saúde do município, sendo por ela permitido. A partir deste ponto foram prescritos e realizados exames em grande parte de crianças atendidas em consulta nutricional e os resultados foram mais importantes do que a propositura inicial. Foi possível identificar deficiências nutricionais próprias de grande parte dos pacientes, além de agir antecipadamente em situações que exigiriam futuros tratamentos invasivos como cirurgias. Percebeu-se que havia muita sintomatologia interpretada como psicológica, mas que sua origem era, de fato, endócrina, hormonal e nutricional. Houve também condições de deficiências nutricionais que após supridas, dispensaram o uso de medicações. Estas condições mostraram a importância no rastreio nutricional e biológico no público autista.
METODOLOGIA
A busca nutricional foi realizada durante consultas nutricionais aos usuários do CAPSi em Cuité e iniciaram em maio de 2025. Foi criada uma tabela para adicionar todos os dados apresentados em consulta, seja por relatos do paciente ou responsáveis, seja por observação na anamnese e antropometria. Foi requerido junto a Secretaria Municipal de Saúde, a possibilidade de que as mães, ao portar a prescrição, poderiam ir diretamente ao ponto de coleta, sem necessidade de ir à Unidade de Saúde fazer agendamento. O que foi permitido e um ponto importante, considerando que as saídas com crianças atípicas são um desafio e cada pequeno ponto burocrático pode dificultar ou mesmo diminuir a adesão ao tratamento. Os exames foram prescritos conforme indicadores previstos na consulta e a mãe orientada a trazer os resultados assim que os obtivesse. Diante dos resultados, foi traçada uma terapia nutricional com plano alimentar, orientações aos pais, suplementação quando necessária e até encaminhamentos a especialidades em casos de necessidade.
Executar uma verdadeira busca nutricional como forma de rastrear a saúde destas crianças e agir de forma mais eficiente em padrões de condições de saúde associadas ao TEA. Identificar déficits nutricionais e a necessidade de intervenção nutricional de acordo com o perfil do paciente. Fazer acepção do que são problemas de origem nutricional ou psíquico, permitindo um tratamento mais eficiente e redução do uso medicações que possam ser remediadas através da alimentação. Evitar futuros danos graves à saúde, que possam ser identificados antecipadamente de forma clínica, já que nestes pacientes muitos sintomas clínicos podem se confundir com as questões sensoriais próprias do TEA.
Diante de uma verdadeira busca nutricional, foi possível identificar alterações até então de baixa prevalência no público infantil. Alterações hormonais, hepáticas e clínicas severas, que ao serem precocemente detectadas tiveram uma terapia nutricional efetiva e os que necessitaram de encaminhamento já puderam ser atendidos pelos respectivos especialistas e serem cuidados a tempo de evitar complicações mais graves futuramente.
Foi visto numerosa prevalência de alteração hepática e de glicemia, com resistência à insulina e pré-diabetes em crianças de 3-5. Alterações no apetite que antes eram vistas como resultado de reações adversas de medicamentos, foram esclarecidas e solucionadas no âmbito da nutrição.
Questões de desnutrição e deficiência de vitaminas como D e B12, assim como o Ferro, causando névoa mental, irritabilidade, inapetência e alterações no sono foram tratadas e suplementadas, chegando ao ponto de a criança não precisar de medicamento psiquiátrico. Estes sintomas confundem-se como se viessem apenas de origem psiquiátrica, mas podem ser de origem nutricional, por isso mesmo tomando as medicações algumas permaneciam com estas sintomatologias, o que foi esclarecido diante do rastreio: o problema psíquico era uma sintomatologia de uma desnutrição grave.
Estes resultados demonstram a importância não apenas de olhar o paciente e ouvir seus sintomas, mas de verdadeiramente buscar, rastrear e identificar onde eles se iniciam e só então podermos efetivamente trata-lo.
Diante dos resultados foi percebido a grande importância do rastreio bioquímico em crianças com TEA, visto que seus sintomas podem ser confundidos com uma problemática puramente psíquica, mas podem não ser propriamente limitadas a isto.
Fica ainda evidente que o trabalho da nutrição pode ter uma importância de conotação ainda mais profunda em se tratando de saúde mental. Precisando submergir nas profundezas do corpo biológico, para elucidar aspectos psicológicos. Nesta perspectiva, o uso de exames bioquímicos como ferramenta de rastreio nutricional mostrou-se não apenas eficiente, mas também um importante condutor de saúde pública, no sentido de prevenção, tratamento e produção de saúde em grupos de maior vulnerabilidade, como é o caso do TEA.
Secretaria Municipal de Saúde de Cuité PB
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