APS que se organiza, ferida que cicatriza: protocolo municipal de manejo de feridas crônicas

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DAYANNE MARCELLE GUEDES FERREIRA MENEZES

profdayanneguedes@gmail.com

Dayanne Marcelle Guedes Ferreira Menezes

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As feridas crônicas configuram uma demanda elevada nos serviços de saúde, principalmente na Atenção Primária à Saúde (APS) e repercutem na vida das pessoas que convivem com elas. Questões que partem desde a sintomatologia até o isolamento social, como vergonha das feridas expostas, medo de julgamento ou até mesmo isolamento por pré-conceitos da sociedade, levam aos portadores a viverem dilemas que perpassam a lesão em si, afetando diretamente sua qualidade de vida. Em João Pessoa, capital do estado da Paraíba, a Secretaria Municipal de Saúde identificou a necessidade de reorganizar a linha de cuidado às pessoas com feridas crônicas e fortalecer a APS como coordenadora da assistência. A motivação surgiu em 2024 a partir da escuta ativa de profissionais e usuários da rede, especialmente das dificuldades vivenciadas no cotidiano das Unidades de Saúde da Família. Em uma dessas unidades, uma enfermeira externou inquietação ao perceber que, diante de uma usuária com ferida crônica, as possibilidades terapêuticas disponíveis eram restritas, inviabilizando sua assistência. Realidade presente também em outras unidades. Esse contexto evidenciou a necessidade de assegurar uma assistência mais digna, resolutiva, humanizada e baseada em evidências para os pacientes acompanhados na APS, reduzindo desigualdades no acesso ao tratamento e evitando agravamentos evitáveis. A partir dessa demanda concreta, a gestão municipal acolheu a proposta e implantou, no segundo semestre de 2024, o Protocolo Municipal de Manejo de Feridas na APS. A experiência abrangeu usuários de feridas crônicas atendidos na APS, bem como os profissionais responsáveis pela assistência. Partiu da construção de fluxos assistências, padronização clínica, construção de instrumento de avaliação, bem como educação permanente para profissionais da rede. Resultou na ampliação do acesso, otimização de recursos públicos, e qualificação do cuidado através da resolutividade da APS e longitudinalidade do cuidado.

Elaborar e implantar o Protocolo Municipal de Manejo de Feridas na Atenção Primária à Saúde de João Pessoa-PB, com vistas à ampliação do acesso, organização dos fluxos assistenciais da rede e qualificação do cuidado ofertado à população. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: • Fortalecer a APS como ordenadora do cuidado • Padronizar fluxos clínicos e assistenciais • Reduzir encaminhamentos evitáveis • Promover uso racional de coberturas especiais • Qualificar profissionais da rede • Melhorar acompanhamento longitudinal • Produzir melhores desfechos clínicos • Acompanhar nominalmente dos usuários de feridas crônicas da APS de maneira individualizada, e não apenas em números. • Tornar mais acessível ao usuário o cuidado em feridas. • Padronizar a organização e controle dos materiais e coberturas dispensadas, visando a otimização dos recursos, prevenindo desperdícios.
Trata-se de um relato de experiência da reorganização da assistência aos portadores de feridas crônicas, partindo da necessidade de qualificar os profissionais que as assistem na APS para facilitar o acesso e evitar encaminhamentos desnecessários a outros níveis de assistência Inicialmente, realizou-se um diagnóstico situacional e a partir deste foi instituído grupo técnico multiprofissional responsável pela construção participativa do Protocolo Municipal de Manejo de Feridas. O documento técnico contemplou critérios clínicos de inclusão e exclusão, classificação das lesões, avaliação integral do usuário, indicação padronizada de coberturas, periodicidade dos curativos, fluxos de referência e contrarreferência, ficha padronizada de acompanhamento, critérios para solicitação de materiais especiais, bem como os materiais disponibilizados para a assistência. Com a implantação, o usuário passou a ser assistido forma individualizada próximo a sua residência, através da UBS ou domicílio. A equipe avalia o paciente integralmente e quando incluído neste passa a ser acompanhado até a sua alta. Quinzenalmente, a equipe encaminha para comissão de pele, através de sistema interno da secretaria, a avaliação do paciente através da ficha de acompanhamento de que contém dados do paciente, sinais vitais, avaliação e descrição da lesão, bem como evolução do cuidado, com avaliação do profissional acrescida da prescrição. Além disso, solicita-se encaminhamento da foto da lesão, respeitando as normas vigentes da LGPD 3.709/2028, para a análise técnica e garantia de acompanhamento conjunto da comissão de pele junto à equipe. Após avaliação técnica, a comissão delibera os materiais necessários e os solicita para Central de Abastecimento Farmacêutico (CAF) que direciona de forma individual à farmácia de referência do usuário. Importante salientar que a distribuição não é direta ao paciente, pois faz-se necessário acompanhamento pela equipe, fazendo com que o usuário passe por consulta qualificada com profissional de saúde. Para aqueles que vão até a unidade, o curativo é realizado e o paciente leva seu material para casa, trazendo cada vez que vem fazer a troca. Para os domiciliados e acamados, os materiais são entregues durante visita domiciliar, onde o profissional realiza o curativo capacitando o usuário ou familiar para manejo em casa. E minimamente a cada quinze dias esse profissional visita novamente esse usuário para acompanhamento, até a sua alta.

A experiência promoveu mudança concreta no modelo de cuidado às pessoas com feridas no município. Os principais resultados alcançados foram a ampliação de usuários acompanhados na APS e resolutividade do cuidado. No primeiro ano da implantação, que contemplou o segundo semestre de 2024, o número de usuários portadores de feridas crônicas assistidos na APS saiu de aproximadamente 100 para 414 pacientes. Atualmente, até o mês de abril deste ano, são cerca de 408 pacientes assistidos pelo programa, com 642 lesões de pele. Só no ano de 2025 foram realizadas 288 altas de pacientes que tiveram suas lesões de pele curadas apenas no cenário da APS. Configura-se como uma descentralização efetiva do cuidado para território, redução de encaminhamentos desnecessários à média e alta complexidade, maior rapidez no início do tratamento, padronização de condutas na rede municipal, uso mais eficiente e controlado de insumos especiais, evidências clínicas de melhoras importantes das lesões acompanhadas pela APS. A experiência demonstrou que casos antes concentrados em outros níveis assistenciais podem ser resolvidos com segurança na Atenção Primária quando há organização, protocolo e suporte técnico, evitando a superlotação de outros níveis de assistência com casos que podem ser sancionados diretamente na ponta.

A implantação do Protocolo Municipal de Manejo de Feridas transformou a assistência no município de João Pessoa-PB, fortalecendo APS como porta de entrada resolutiva, acessível e capaz de responder a demandas complexas. Além de ampliar o acesso e qualificar o cuidado, a iniciativa otimizou recursos públicos, reduziu sobrecarga de outros pontos da rede e valorizou o trabalho multiprofissional. A experiência confirma que inovação no SUS nem sempre depende de alto custo, mas de gestão qualificada, organização de processos e compromisso com as necessidades reais da população. Trata-se de modelo sustentável, replicável e alinhado aos princípios do SUS, com potencial de inspiração para outros municípios brasileiros.

autor Principal

DAYANNE MARCELLE GUEDES FERREIRA MENEZES

profdayanneguedes@gmail.com

Enfermeira Responsável Técnica da Enfermagem da APS de João Pessoa - PB

Coautores

Dayanne Marcelle Guedes Ferreira Menezes, Maria do Socorro Ferreira Paulino, Gilcélia Maria Ribera Menezes, Andrezza Barbosa da Silva, Irna Emanuelle Medeiros de Albuquerque.

A prática foi aplicada em

João Pessoa

Paraíba

Nordeste

Esta prática está vinculada a

Avenida Júlia Freire - Torre, João Pessoa - PB, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Dayanne Marcelle Guedes Ferreira Menezes

Conta vinculada

13 maio 2026

CADASTRO

13 maio 2026

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