favor seguir as recomendações abaixo:
Na Atenção Primária à Saúde (APS), o cuidado aos tabagistas na Estratégia Saúde da Família (ESF) se organiza, predominantemente, por grupos de cessação do tabaco, conforme diretrizes do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT). Esses grupos, pautados em abordagem cognitivo‑comportamental e na definição de uma data para cessação, focam a interrupção do uso em curto prazo, com suporte psicossocial e farmacológico quando indicado (Brasil, 2023; INCA, 2022). O acesso é feito por avaliação individual, que identifica dependência, gatilhos e estágio motivacional (Prochaska; DiClemente, 1983), priorizando usuários prontos para cessar e tendendo a desvincular aqueles que desejam apenas reduzir o consumo ao longo do tempo, evidenciando lacuna assistencial que tensiona princípios da APS como equidade, acesso e integralidade (Starfield, 2002; Brasil, 2017). A Redução de Danos (RD) surge, então, como alternativa ao valorizar autonomia e metas possíveis (Brasil, 2003). O vínculo configura‑se como tecnologia leve central, sustentando escuta qualificada, corresponsabilização e cuidado longitudinal (Merhy, 2002), enquanto o cuidado em liberdade reforça o respeito à autonomia (Amarante, 2007). A criação de um grupo de RD para tabagismo mostra‑se estratégica para ampliar o acesso, fortalecer o vínculo e qualificar o cuidado na APS, com potencial de replicabilidade, em diálogo com a complexidade biopsicossocial do tabagismo e a necessidade de trabalho multidisciplinar.
O modelo de cuidado centrado em cessação estabelece uma expectativa de abstinência rápida, que nem sempre ressoa com a realidade dos usuários, muitos dos quais não se sentem dispostos ou prontos para parar de fumar em 30 dias, o que favorece a exclusão ou desistência daqueles que desejam apenas reduzir o consumo. Essa configuração tensiona princípios da APS e contribui para a perpetuação de desigualdades no acesso a cuidado qualificado, limitando a presença de tabagistas que poderiam se beneficiar de estratégias de atenção menos rígidas e mais acolhedoras. A adoção da Redução de Danos na APS configura‑se, portanto, como oportunidade de ressignificar o cuidado ao tabagista, trazendo a autonomia, o trabalho em rede e a possibilidade de mudanças graduais como elementos centrais do projeto terapêutico.
Em 2024 foi implementado o primeiro grupo de Redução de Danos para tabagistas, com seis sessões semanais, direcionado a usuários que haviam sido classificados como “não preparados para a ação” no grupo tradicional do PNCT. Apenas um usuário permaneceu até o final, situação associada a expectativas equivocadas por parte dos participantes, que esperavam o modelo de cessação com oferta de insumos. A partir desses dados, foram realizados ajustes na metodologia e no formato do grupo, incluindo maior ênfase na autonomia, reflexões sobre frustrações e alternativas de redução e abstinência. No segundo momento, o grupo foi ampliado para todas as equipes da unidade, passando a incluir tabagistas interessados em reduzir o consumo, com fluidez de entrada apenas nas primeiras sessões e redução do número total de encontros para cinco, visando sustentabilidade e rotatividade adequada. Foram implementados exercícios de planejamento factível (redução de cigarros, adiamento do primeiro cigarro, observação de gatilhos, pactuação de metas semanais) e, ao final, observou‑se melhor adesão, relatos de diminuição do uso, maior consciência sobre motivos e desejos associados ao tabaco, e aumento na motivação para reduzir ou cessar o consumo, mediados pela valorização do vínculo e da autonomia.
A experiência evidencia que a Redução de Danos pode ser incorporada de forma ética e estratégica na APS como alternativa complementar à abordagem de cessação tradicional, favorecendo acesso, vínculo qualificado e protagonismo do usuário frente ao tabagismo. Recomenda‑se a ampliação e a institucionalização de grupos de Redução de Danos para tabagistas nas unidades de APS, articulados às políticas de controle do tabaco, à educação permanente das equipes e ao fortalecimento da multidisciplinaridade, de modo a consolidar práticas de cuidado contínuo, menos culpabilizadoras e respeitosas aos tempos, motivações e condições de vida dos usuários, contribuindo para o controle do tabagismo no território.
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