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Da Fiocruz: projeto sobre saúde antirracista na favela vai circular pelo Rio de Janeiro

Iniciativa resulta da parceria entre a Cooperação Social da Fiocruz com o Movimento Negro Unificado (MNU) e outros nove coletivos populares do estado

Leitura: 6 minutos
Imagem colhida do documentário "Saúde antirracista na favela, é possível?"

No dia 28 de janeiro, ocorreu o lançamento do documentário Saúde Antirracista na Favela é possível?, uma produção conjunta da Cooperação Social da Fiocruz com o Movimento Negro Unificado (MNU) e outros nove coletivos populares do estado do Rio de Janeiro. O evento aconteceu na Arena Dicró, espaço de lazer público e popular localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, com a presença de cerca de 70 pessoas, entre lideranças comunitárias, integrantes do MNU e pesquisadores da Fiocruz.

A Saúde na Favela pela Perspectiva Antirracista é um projeto em fase de encerramento, resultado da articulação entre o MNU e a Cooperação Social da Fiocruz, com atuação na Vila Cruzeiro, Jacarezinho, Vila Kennedy e Mangueirinha, localizadas no estado do Rio de Janeiro. Fez parte do escopo do projeto: a formação de 139 promotores populares de saúde nesses territórios; a elaboração de uma cartilha que está em fase de distribuição; e a gravação do longa de 21 minutos com entrevistas de lideranças sociais dos territórios, pesquisadores e pessoas que passaram pela formação falando sobre a importância da perspectiva da raça quando são analisados os serviços oferecidos pelo SUS e a experiência de viver nas favelas.

Após a exibição do documentário, também disponível no canal Cidades em Movimento, uma roda de conversa debateu o assunto. Integraram a mesa: João Batista, professor de História e líder estadual do Movimento Negro Unificado (MNU); Cristiane Vicente, enfermeira e doutoranda em Saúde Pública pela Fiocruz – uma das autoras da Cartilha Saúde na Favela pela Perspectiva Antirracista; Raimundo Ferreira (Carrapa), liderança na Vila Kennedy e membro do MNU; e Melquizedeque Silva, advogado, liderança municipal do MNU e educador popular – um dos autores da Cartilha também.

Da esquerda para direita: Melquizedeque, Carrapa, Cristiane e João Batista integraram a mesa de debates após a exibição do documentário / Foto: Cooperação Social da Fiocruz

“Nós, negros, já nascemos lutando. A gente tem que andar de ônibus, tem que levar criança pra escola, a gente precisa de creche e a gente não tem dinheiro. Tudo nosso é público, então a gente tem que fazer política. A gente tem que conhecer os aparelhos que estão disponíveis para nós, precisamos ter consciência total dos nossos direitos. Nem que seja para só dizer que estamos sendo desrespeitados”, disse João Batista, líder do MNU no Estado do Rio de Janeiro. “Precisamos de formações como as que foram oferecidas para nos ajudar a ampliar a consciência desses direitos. E também seria importantíssimo que os profissionais de atendimento passassem por isso para que tivessem mais empatia para lidar com a nossa realidade”, completou.

Cristiane Vicente iniciou sua fala lembrando que a Saúde da População Negra é uma política nacional instituída desde 2009, mas que poucos municípios a implementaram. Ela ressaltou que o Rio de Janeiro hoje está criando as estratégias para a implementação da política de Saúde da População Negra Carioca. “Precisamos de uma política voltada para essa população porque é o corpo negro quem morre mais, adoece e sofre mais. Segundo o IBGE de 2010, 56% dos brasileiros são negros, então fazer uma política voltada para essa população é cuidar de mais da metade da nossa população”, disse ela.

Carrapa começou sua fala perguntando para o público de quais territórios as pessoas presentes eram e remarcou que não havia no encontro pessoas moradoras de territórios de favelas da Zona Sul. “Favela não é tudo igual. Precisamos identificar os lugares de fala e de ação de cada um. Quando um favelado da Rocinha, do alto do morro, abre a janela ele vê São Conrado e a Mata Atlântica. Nós, favelados da Zona Norte e da Zona Oeste vemos helicóptero, caveirão, tiroteio”, disse a liderança da Vila Kennedy. O assunto mobilizou o público para refletir as diferenças de experiências nos territórios favelados de acordo com os zoneamentos da cidade em um microfone aberto.

Já o advogado Melquizedeque contou sua história de formação, os desafios para se formar e as conquistas que compartilha com os alunos do pré-vestibular comunitário no qual ele milita. “Eu morro de inveja dos colegas de classe média que se formaram comigo, que estão sempre postando das redes sociais fotos em que reproduzem encontros com seus amigos de infância e juventude, agora com todo mundo de cabelo e barba branca, abraçado. Eu não posso fazer isso porque a maior parte dos meus amigos não estão mais vivos, eu sou um sobrevivente da Cidade Alta. É isso que o estado vem proporcionando ao povo negro, o extermínio”, relatou o pastor e líder do MNU no Rio de Janeiro.

Reconhecer o racismo: um passo para a liberdade e para a defesa dos direitos humanos

“Ontem eu estava aguardando para fazer um exame na unidade de saúde na Ilha do Governador quando ouvi uma denúncia de abuso de uma criança. Depois do que aprendi, eu não podia deixar passar aquilo. Automaticamente liguei para a Valéria [Montezuma, pesquisadora da Cooperação Social] e me informei do que poderia fazer. Agora o caso está encaminhado. Como pode que ninguém na unidade de saúde estivesse fazendo nada ao ouvir aquela história?”, disse Kleber, morador do Complexo Maré, integrante do Movimento Negro Unificado e promotor popular de saúde da Vila Cruzeiro no evento de lançamento da Cartilha na Fiocruz.

Kleber falou dos aprendizados colhidos a partir dos ciclos formativos promovidos pelo projeto durante o ano de 2023 para moradores, moradoras e articuladoras territoriais que desejavam se tornar promotores populares de saúde na comunidade. As oficinas foram realizadas com as contribuições de uma equipe multidisciplinar, que trabalhou o tema do antirracismo a partir da base conceitual da Promoção da Saúde e da participação nas diversas instâncias do Sistema Único de Saúde (SUS). A atuação aconteceu em quatro territórios do Rio de Janeiro: Vila Cruzeiro, localizada na Penha, Zona da Leopoldina; Jacarezinho, Zona Norte; Vila Kennedy, Zona Oeste; e Mangueirinha, município de Duque de Caxias, região da Baixada Fluminense.

Ana Tobossi, moradora da Vila Cruzeiro, disse que antes de fazer parte do projeto ela acreditava que nunca tinha sofrido racismo. “Nós somos de um território que veio de um quilombo, a Vila Cruzeiro. Lá quase todo mundo é preto, então ninguém achava que sofria racismo. Na nossa primeira roda ninguém disse que já tinha sofrido”, disse Ana. Ela revelou que foi a partir das oficinas que entendeu que a dificuldade para ser atendida no serviço de saúde ou a relação que a polícia tem com as famílias e casas no seu território derivam do racismo. “Eu achava que porque nunca fui xingada com expressões evidentemente racistas, eu não era vítima dele. Hoje me pergunto: a polícia entra metendo o pé na nossa porta e não faz isso na Zona Sul. Por quê?”, completou.

“Antes eu estava muito desanimada, me achando muito velha para sonhar. No projeto eu conheci a Cleo e pensei: uma mulher trans preta formada na PUC e por que não eu também? Essas oficinas mudaram a minha vida, até vestibular eu fiz”, afirmou Ana. Para ela sempre esteve óbvio que o mundo tinha oportunidades e caminhos, mas nunca acreditou que essas possibilidades estariam acessíveis para ela. Hoje, Ana diz que convence outras mulheres porque quer que elas também percebam que podem mais do que acreditam. “Isso tinha que acontecer em todos os lugares porque a maioria das pessoas não entende o racismo de fato e não sabe o quanto ele nos limita até de construir um futuro”, completou.

A professora de filosofia Pri Abebe também se formou nas oficinas como mobilizadora na Vila Cruzeiro e destaca o caráter de integração que o projeto tem. “A formação acabou, mas ainda estamos conectadas, nos sentindo parte de uma família que está engajada na luta por direitos. E para mim o mais importante é que a gente possa tratar de assuntos sérios com leveza, com alegria, confiando na sabedoria que já mora em nós”, afirmou a também erveira e mãe da Maion.

Entender o impacto do racismo no atendimento de saúde foi o que mais impactou os promotores em formação. “A saúde aqui onde moro é marcada pela capilaridade do SUS. Em cada aula, a gente tinha uma noção de certos direitos que são nossos e como o racismo afeta a todos de forma sistêmica”, disse a estudante de enfermagem e moradora da Mangueirinha, Ana Paula. “Me mobilizei a fazer parte do projeto porque eu, uma simples pessoa sem nenhuma graduação na área da saúde, teria a possibilidade de atuar com o assunto. Quero ajudar as pessoas a cuidarem das consequências que a violência causa nos nossos corpos”, disse Vania, aluna da turma da Vila Cruzeiro. “Olhar a saúde na perspectiva coletiva, não só nas suas bases técnicas, foi o mais importante para mim sobre a formação. Lutar pela saúde pensando os fatores sociais e como isso impacta o acesso e o tratamento das pessoas fortaleceu o meu entendimento de que saúde é um tema transversal de interesse de todos”, disse Kayo, aluno no Jacarezinho.

Kleber, Ana, Pri, Ana Paula, Vania e Kayo são seis dentre os 139 mobilizadores formados em 2023 pelo projeto. Ao todo 10 turmas passaram pelas oficinas nos quatro territórios. Essa rede de promotores populares de saúde na comunidade será referência para o desenvolvimento da Campanha de Promoção da Saúde Antirracista.

Cartilha Saúde na Favela numa Perspectiva Antirracista

É um material para uso de moradoras, moradores e profissionais dos territórios que foi lançado em evento público na Fiocruz no dia 13 de novembro. O documento instrui sobre temas transversais à Promoção da Saúde, questões de raça, violência armada, garantia de direitos, entre outros. Clique aqui para acessar e baixar. 

Sobre o projeto

O projeto “Saúde na favela pela perspectiva antirracista” objetiva a formação em Promoção da Saúde com acolhimento, escuta ativa, e enfoque antirracista voltada para moradores de quatro favelas do Rio de Janeiro que tenham passado por violações de direitos humanos. Também visa analisar as demandas locais frente a disponibilidade de serviços psicossociais para moradores dessas favelas na perspectiva antirracista do compartilhamento de Saberes Ancestrais, sobretudo reconhecendo e valorizando tais saberes que estão presentes nos quatro lugares de atuação do projeto. O projeto é realizado pela Coordenação de Cooperação Social da Fiocruz, em parceria com o Movimento Negro Unificado (MNU) e conta com o apoio da Biblioteca Parque de Manguinhos, do Centro de Referência Para a Saúde da Mulher (Cresam), da Associação Brasileira Terra dos Homens, do Projeto Cultural Arte Transformadora, da Igreja Batista Central do Centenário e do Centro Comunitário Irmãos Kennedy.

Por Luiza Toschi (Cooperação Social da Fiocruz), publicada originalmente no Portal Fiocruz, em 5/2/2024.

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