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RESUMO
Este artigo apresenta um relato de experiência de abordagem qualitativa, restaurativa, integrativa e sistêmica sobre a implantação e consolidação da terapia floral no município de Santa Cruz Cabrália (BA), entre 2021 e 2025. A partir da escuta de uma autoridade histórica da terapia floral no Brasil e da articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS), com a justiça restaurativa e com a educação popular, discute-se o legado de Edward Bach e de Julian Barnard, bem como as evidências contemporâneas produzidas no Brasil. Os resultados apontam para a potencialidade da terapia floral como ferramenta de equidade, redução de medicalização, acolhimento de vítimas e agressores no âmbito da Lei Maria da Penha e fortalecimento de redes comunitárias. Conclui-se que a integração entre florais, práticas integrativas e justiça restaurativa constitui um modelo laboratorial de cuidado sistêmico aplicável a outros territórios.
Palavras-chave: Terapia floral. Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. Justiça restaurativa. Sistema Único de Saúde. Abordagem sistêmica.
ABSTRACT
This article presents a qualitative, restorative, integrative and systemic experience report on the implementation and consolidation of flower essence therapy in the municipality of Santa Cruz Cabrália (BA), between 2021 and 2025. Based on the listening of a historical authority of flower therapy in Brazil and its articulation with the Unified Health System (SUS), restorative justice and popular education, the legacy of Edward Bach and Julian Barnard is discussed, as well as contemporary Brazilian evidence. The results point to the potential of flower therapy as a tool for equity, reduction of medicalization, reception of victims and aggressors under the Maria da Penha Law, and strengthening of community networks. It is concluded that the integration between flower essences, integrative practices and restorative justice constitutes a laboratory model of systemic care applicable to other territories.
Keywords: Flower therapy. Complementary and Integrative Practices. Restorative justice. Unified Health System. Systemic approach.
1 INTRODUÇÃO
A terapia floral, sistematizada por Edward Bach na década de 1930, parte do princípio de que os desequilíbrios emocionais e mentais estão na raiz do adoecimento e que as essências florais atuam restaurando a harmonia entre personalidade e “eu superior” (BACH, 1931; SCHEFFER, 2001). No Brasil, a prática foi incluída na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC) e consolidada pela Portaria nº 702/2018 do Ministério da Saúde, que ampliou o rol de PICS no SUS (BRASIL, 2018).
Em Santa Cruz Cabrália (BA), a terapia floral tem sido desenvolvida de forma pioneira e articulada com a atenção psicossocial, a atenção básica, a educação popular e a justiça restaurativa. O presente trabalho, de natureza qualitativa e restaurativa, toma como ponto de partida a fala da professora Lizete Maria de Paula – ex-presidente do Conaflor e referência nacional na formação de terapeutas florais – e a experiência vivida no território desde 2021, com ênfase no período 2022-2025.
O objetivo é analisar, sob a ótica integrativa e sistêmica, como a terapia floral tem operado como dispositivo de cuidado, transformação e justiça no município, dialogando com a produção científica brasileira dos últimos cinco anos e com os autores clássicos mais respeitados do campo.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Fundamentos clássicos da terapia floral
Edward Bach (1886-1936) desenvolveu o sistema das 38 essências a partir da observação da natureza e da compreensão de que a doença é expressão de um desequilíbrio emocional (BACH, 1931). Julian Barnard, uma das maiores autoridades contemporâneas na continuidade do trabalho de Bach, aprofundou a compreensão da “forma e função” das plantas, da preparação original das essências e da dimensão espiritual do sistema (BARNARD, 2002, 2004). Mechthild Scheffer sistematizou o diagnóstico e a aplicação clínica, destacando a dimensão psicológica e o potencial transformador das essências (SCHEFFER, 2001).
A recente partida de Julian Barnard (2024/2025) representa uma perda significativa para o campo mundial, mas seu legado permanece vivo na produção de essências segundo o método original de Bach e na inspiração de milhares de terapeutas, especialmente no Brasil, onde ele realizou diversas visitas e lives, admirando o uso social e comunitário dos florais (entrevista com LIZETE MARIA DE PAULA, 2025).
2.2 Terapia floral no SUS e evidências brasileiras recentes
A PNPIC reconhece a terapia de florais como prática de promoção, prevenção e cuidado complementar (BRASIL, 2018). Estudos brasileiros dos últimos cinco anos têm documentado efeitos positivos sobre ansiedade, estresse e estados psicoemocionais. Romão et al. (2025), em ensaio clínico randomizado com profissionais de enfermagem da atenção primária, demonstraram melhora no estado psicoemocional do grupo que utilizou fórmula floral padronizada em comparação ao placebo. Estudos quase-experimentais e ensaios clínicos sobre o uso de florais no trabalho de parto evidenciaram redução de cortisol, melhora da dinâmica uterina e diminuição do tempo de trabalho de parto (PITILIN et al., 2022; BARBIERI et al., 2022). Revisões integrativas confirmam o potencial da terapia floral no manejo da ansiedade em diferentes contextos (SILVA; MORAIS, 2023; pesquisas publicadas em Research, Society and Development, 2022).
Relatos de experiência publicados no IdeiaSUS/Fiocruz documentam especificamente a experiência de Santa Cruz Cabrália, evidenciando redução no uso de medicamentos controlados, fortalecimento de vínculos comunitários e articulação com a educação popular (LEAL et al., 2023-2025).
2.3 Abordagem restaurativa, integrativa e sistêmica
A justiça restaurativa, conforme sistematizada por Howard Zehr e desenvolvida no Brasil, busca a reparação do dano, a responsabilização e a restauração de vínculos. Quando articulada à constelação familiar, à terapia comunitária integrativa e à terapia floral, configura o que se tem denominado “justiça integrativa” – uma síntese entre justiça restaurativa, sistêmica e saberes indígenas (experiência local de Cabrália). Nessa perspectiva, o floral atua não apenas no indivíduo, mas no campo relacional e comunitário, favorecendo a transformação de padrões emocionais que sustentam ciclos de violência.
3 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo relato de experiência, com abordagem restaurativa, integrativa e sistêmica. A produção de dados baseou-se em:
– Entrevista em profundidade realizada em setembro de 2025 com a professora Lizete Maria de Paula, na beira-mar de Santa Cruz Cabrália;
– Observação participante e registros de campo das ações desenvolvidas no CAPS, nas Unidades Básicas de Saúde da Orla Norte (Santo André, Santo Antônio e Guaí), na Associação de Moradores de Santo André e no âmbito do CEJUSC (parceria desde 2018/2019);
– Análise documental de relatos publicados no IdeiaSUS/Fiocruz e de depoimentos de usuários, agentes comunitários e profissionais.
A análise seguiu os princípios da análise de conteúdo qualitativa, articulando as narrativas com o referencial teórico clássico e contemporâneo. Por se tratar de relato de experiência e escuta de liderança histórica, o estudo dialoga com os critérios éticos da pesquisa com seres humanos e pode ser registrado na Plataforma Brasil quando expandido para pesquisa formal com usuários.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Trajetória e energia de uma pioneira
A professora Lizete Maria de Paula, aos 80 anos, descreve-se como portadora de “espírito cheio de energia” e afirma que continua a semear a terapia floral porque ama o que faz. Sua chegada a Cabrália, em 2021, foi marcada pelo encontro com o articulador local (Diego), que “pescou” seu trabalho e abriu as portas do SUS. Após quase dois anos de atuação no CAPS, formou equipe e iniciou, em 2022, cursos de formação; em 2023, com as enchentes, consolidou o atendimento floral. Posteriormente, levou a prática para três postos de saúde da Orla Norte e, atualmente, mantém atendimento regular na Associação de Moradores de Santo André, absorvendo demandas do SUS de toda a região.
4.2 O legado de Julian Barnard
A entrevistada destaca o papel de Julian Barnard como continuador direto do trabalho de Bach e sua admiração pelo uso social dos florais no Brasil – algo raro na Europa. Barnard participou de programas sociais e de diversas lives com terapeutas brasileiros. Sua partida é sentida como luto coletivo, mas também como convocação à continuidade da missão: “os florais estão aí, com muita gente para continuar esse trabalho”.
4.3 Terapia floral no SUS: equidade e transformação
A experiência de Cabrália demonstra que a terapia floral, quando institucionalizada, amplia o acesso de populações de baixa renda a práticas de cuidado integral. A entrevistada relata que a população começou a compreender a possibilidade de “mudança suave”, de equilíbrio e de transformação. Estudos recentes corroboram esses achados: a redução de sintomas de ansiedade e estresse e a melhora de estados psicoemocionais são consistentes com os resultados de Romão et al. (2025) e com os relatos de redução de medicamentos controlados documentados no IdeiaSUS.
4.4 Articulação com a justiça restaurativa e a Lei Maria da Penha
A parceria com o CEJUSC permitiu a oficialização do voluntariado floral e o encaminhamento formal de processos. Vítimas e agressores passaram a ter acesso gratuito à terapia floral pelo SUS, presencial e online. A professora Lizete participa de atendimentos relacionados ao Fórum e reconhece o caráter de “trabalho de amor profundo” direcionado a pessoas frequentemente julgadas, visando sua reintegração e o cumprimento de sua humanidade. Essa articulação configura um modelo de justiça integrativa, em que o floral atua como dispositivo de restauração emocional e relacional.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência de Santa Cruz Cabrália evidencia que a terapia floral, quando desenvolvida sob uma perspectiva qualitativa, restaurativa, integrativa e sistêmica, transcende o atendimento individual e se torna ferramenta de equidade, de justiça e de transformação comunitária. O legado de Edward Bach e de Julian Barnard encontra, no território brasileiro, um solo fértil de experimentação social e de produção de conhecimento.
Recomenda-se a ampliação de estudos longitudinais, o registro formal de projetos na Plataforma Brasil e a disseminação do modelo de Cabrália para outros municípios, especialmente aqueles que ainda não oferecem PICS de forma consistente. A homenagem à professora Lizete Maria de Paula e a memória de Julian Barnard servem de inspiração para que novas gerações de terapeutas florais continuem a semear equilíbrio, bem-estar e humanidade.
REFERÊNCIAS
BACH, E. *Heal thyself*: an explanation of the real cause and cure of disease. London: C.W. Daniel, 1931.
BARNARD, J. *Bach flower remedies*: form and function. Great Barrington: Lindisfarne Books, 2004.
BARNARD, J. *A guide to the Bach flower remedies*. London: C.W. Daniel, 2000.
BARBIERI, M. et al. Efetividade das essências florais no trabalho de parto e nascimento: avaliação dos parâmetros obstétricos e neuroendócrinos. *Acta Paulista de Enfermagem*, v. 35, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 702, de 21 de março de 2018. Altera a Portaria de Consolidação nº 2/GM/MS para incluir novas práticas na PNPIC. *Diário Oficial da União*, Brasília, 2018.
LEAL, D. R. et al. Relatos de experiência sobre terapia floral, educação popular e justiça restaurativa em Santa Cruz Cabrália – BA. *IdeiaSUS/Fiocruz*, 2023-2025. Disponível em: https://ideiasus.fiocruz.br. Acesso em: 19 set. 2026.
PITILIN, E. B. et al. Terapia floral na evolução do parto e na tríade dor-ansiedade-estresse: estudo quase-experimental. *Acta Paulista de Enfermagem*, v. 35, eAPE02491, 2022.
ROMÃO, F. G. S. G.; GOMES, A. M. T.; GNATTA, J. R.; TURRINI, R. N. T. Efeitos psicoemocionais da terapia floral em profissionais de enfermagem: análise prototípica. *Cogitare Enfermagem*, v. 30, e98619, 2025. DOI: 10.1590/ce.v30i0.98619pt.
SCHEFFER, M. *The encyclopedia of Bach flower therapy*. Rochester: Healing Arts Press, 2001.
SILVA, J. P. L.; MORAIS, M. S. T. A terapia floral no cuidado integral à população durante a pandemia de COVID-19. *BVS*, 2023.
ZEHR, H. *Justiça restaurativa*. Tradução de Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2008.
**Observação final:** Este relato foi elaborado a partir da transcrição integral da entrevista realizada em 19 de setembro de 2026 e da articulação com a produção científica nacional e internacional mais recente e clássica.
Forum Jutahy Fonseca, Santa Cruz Cabrália - BA, Brasil
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