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RESUMO
Este relato de experiência descreve uma intervenção de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) realizada na Aldeia Guiomar, integrando a Terapia Comunitária Integrativa (TCI), o Círculo Sistêmico e a Terapia Floral. O objetivo foi promover o acolhimento e o gerenciamento da ansiedade em um grupo composto majoritariamente por educadores e membros da comunidade local. A metodologia fundamentou-se na horizontalidade da pedagogia freiriana e nas “Ordens da Ajuda” de Bert Hellinger, utilizando dinâmicas de toque sistêmico, meditação guiada e a administração do “Floral de Paciência”. Os resultados evidenciaram o fortalecimento dos vínculos territoriais e uma transição qualitativa do sofrimento ético-político e da sobrecarga do cuidador para um estado de resiliência e reconhecimento de limites individuais. Conclui-se que a simplicidade técnica das PICS, quando aliada ao rigor metodológico, constitui uma estratégia de alta eficácia e baixo custo para a promoção da saúde mental coletiva na Atenção Primária.
Palavras-chave: Práticas Integrativas e Complementares; Saúde Mental; Atenção Primária à Saúde; Terapia Comunitária Integrativa; Terapia Floral.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: MATERIAIS E MÉTODOS
A intervenção ocorreu no território da Aldeia Guiomar, utilizando o espaço escolar como âncora para a prática. Este cenário é determinante, pois a escola atua como ponto de convergência comunitária, facilitando o acolhimento de profissionais da educação e moradores.
A Terapia Floral e o acolhimento inclusivo Como estratégia de harmonização inicial, administrou-se o “Floral de Paciência”. A intervenção consistiu na administração direta de 4 gotas por participante, apresentando o floral como um “remédio natural” para o manejo da agitação mental. A orientação técnica incluiu a recomendação de diluição de 4 gotas em garrafas de 2 litros de água para uso contínuo (manutenção), permitindo que o cuidado se estendesse para além do momento da roda. A flexibilidade da prática foi demonstrada na recepção de participantes que chegaram após o início, como o morador Jejão (conhecido como Sucuri), que foi prontamente integrado e recebeu a terapia floral, ilustrando o caráter inclusivo e não rígido da intervenção comunitária.
A TCI e o espaço pedagógico horizontal A condução seguiu os cinco pilares da TCI, adotando a roda como um espaço pedagógico horizontal. Os “combinados” éticos foram estabelecidos para assegurar a segurança psicológica: proibição de conselhos, julgamentos ou críticas; uso estrito da fala na primeira pessoa (“eu”); e o compromisso com o sigilo. Tais regras garantem que cada participante seja reconhecido como mestre de sua própria história, evitando a hierarquização do saber.
Sistematização das etapas da roda A dinâmica foi estruturada nas seguintes fases:
Acolhimento: Utilização de musicalidade com canções de boas-vindas (“Seja bem-vindo Lelê/Lalá”) para reduzir resistências iniciais.
Celebração: Momento de gratidão voltado à vitalidade, saúde e família, fortalecendo a percepção de abundância sobre a falta.
Check-in: Expressão dos sentimentos iniciais, mapeando o estado emocional do grupo.
Toque Respeitoso e Sistêmico: Dinâmica de massagem em mãos e ombros, enfatizando a conexão relacional (especialmente entre casais e pares presentes). Durante o toque, os participantes foram orientados a repetir a frase terapêutica: “Estou aqui somente para mim”. O objetivo foi promover o desbloqueio energético e a conexão com o “toque sistêmico” — o afeto herdado de antepassados (pais e avós), permitindo que aqueles que habitualmente cuidam pudessem, enfim, ser cuidados.
Ordens da Ajuda: Aplicação de meditação guiada baseada na abordagem de Bert Hellinger. Através de representantes, o grupo trabalhou o reconhecimento dos limites do auxílio ao outro, utilizando frases de solução como: “Eu vejo que não posso te ajudar, você pode se ajudar, mas eu posso ser útil a você”.
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) representam, no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), um paradigma de cuidado que transcende o modelo biomédico tradicional, priorizando a humanização e o protagonismo do sujeito. Na Atenção Primária à Saúde (APS), essas estratégias são fundamentais para a territorialização do cuidado, permitindo que a unidade de saúde e a comunidade estabeleçam vínculos de afetividade e suporte mútuo. A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) e a Terapia Floral configuram-se como ferramentas de baixa densidade tecnológica e alto impacto social, essenciais para enfrentar os desafios psicossociais exacerbados no cenário pós-pandemia.
O período contemporâneo impôs à saúde coletiva uma demanda crescente por intervenções que mitiguem transtornos de ansiedade, estresse ocupacional e a sobrecarga de cuidadores. Este artigo relata a experiência de um Círculo Sistêmico realizado em uma escola na Aldeia Guiomar, onde o ambiente educativo foi ressignificado como um espaço de cuidado permanente. Ao integrar a pedagogia de Paulo Freire — na qual a vida é o currículo — e a abordagem sistêmica, a prática buscou não apenas o alívio sintomático, mas a reconstrução do tecido social e a promoção da autonomia dos participantes diante de suas angústias cotidianas.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da experiência revela que o Círculo Sistêmico atua como um dispositivo de gerenciamento do cuidado, transformando o isolamento da dor em aprendizado coletivo. A ansiedade emergiu como o sofrimento transversal, intensificado por responsabilidades territoriais e familiares.
A sobrecarga do cuidador e o alívio sistêmico O relato de Juriti exemplificou a realidade de muitos cuidadores na comunidade; ele destacou que sua ansiedade decorria de “viver sua vida mais pela esposa do que por si mesmo”, devido aos problemas de saúde dela. A dinâmica do toque e a frase “Estou aqui somente para mim” permitiram uma ruptura temporária, porém profunda, com essa carga de responsabilidade excessiva. Da mesma forma, Fabrício e outros educadores relataram a angústia de querer resolver problemas alheios em velocidades que a realidade não permite. A roda ofereceu o suporte necessário para que a “dor de um” fosse legitimada pela “dor de todos”, reduzindo o peso do sofrimento ético-político.
Mirroring e Comunicação Não-Violenta O uso de ferramentas de espelhamento sistêmico, como o gesto coreano Saranguil (amor) e o movimento do “coração que vai até o céu”, funcionou como uma forma de Comunicação Não-Violenta (CNV). Esses gestos simbólicos fortaleceram o acolhimento visual e físico, criando uma rede de suporte que valida a presença do outro sem a necessidade de intervenções intrusivas.
Análise das Ordens da Ajuda A discussão sobre as Ordens da Ajuda foi o ponto de maior profundidade terapêutica. A prática permitiu distinguir entre a “ajuda intrusiva” (tentar carregar o fardo do outro) e a “presença útil” (apoiar respeitando a autonomia alheia). Ao devolver simbolicamente a responsabilidade ao seu dono, os participantes relataram alívio imediato da tensão física e mental. O “medo da chuva” e as preocupações climáticas, trazidos no checkout, evidenciaram a vulnerabilidade ambiental da Aldeia Guiomar, demonstrando que o Círculo Sistêmico também capta e processa angústias territoriais específicas.
Síntese da Transformação Emocional (Rito de Checkout)*
No encerramento da dinâmica, os participantes realizaram a avaliação de saída (*Checkout*), verbalizando os sentimentos dos quais se libertavam e os aprendizados/afetos que assimilavam para o seu cotidiano:
* *Participante 1 (Mediador/Facilitador):*
* O que deixa no círculo: Medo das intempéries/tempo e a indisposição individual.
* O que leva para a vida: A força da comunidade, a energia coletiva e o espírito de cuidado mútuo, mesmo à distância.
* *Participante 2:*
* O que deixa no círculo: A ansiedade, a tristeza e a angústia acumuladas.
* *O que leva para a vida:* Aprendizagem, novos conhecimentos e a gratidão por receber acolhimento comunitário.
* *Participante 3:*
* O que deixa no círculo: As preocupações constantes, a euforia e a pressa em concluir tarefas que tiravam a paz de espírito e o sono.
* *O que leva para a vida:* Tranquilidade, calmaria e a amizade renovada com cada demonstração de afeto.
* *Participante 4:*
* O que deixa no círculo: A angústia, o estresse e a preocupação do dia a dia.
* O que leva para a vida: A amizade, o companheirismo e a paz.
* *Participantes do grupo comunitário e professores:*
* O que deixam no círculo: As dores que não fazem bem, a tristeza, o estresse acumulado e as crises de ansiedade.
* O que levam para a vida: A paz, a sensação de felicidade, o carinho coletivo e o sentimento de união de todos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A intervenção na Aldeia Guiomar demonstra que a eficácia das PICS não reside na complexidade tecnológica, mas na profundidade do encontro humano e no rigor da aplicação metodológica. A integração entre a TCI, o Círculo Sistêmico e a Terapia Floral mostrou-se uma estratégia sustentável, de baixo custo e alta adesão, capaz de produzir resultados clínicos e sociais imediatos.
A lição central da prática — de que “o presente é um presente” — reforça a necessidade de espaços de cuidado que permitam ao indivíduo silenciar as exigências externas e reconectar-se com sua própria essência e ancestralidade. Esta experiência é plenamente replicável em outras unidades do SUS, oferecendo uma resposta robusta para a promoção da saúde mental e o fortalecimento da resiliência comunitária frente às incertezas do cotidiano contemporâneo.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC). Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
COSTA, Adriana. Círculo Sistêmico em 07-11-25. YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FmS30G5Z-rU. Acesso em: 23 maio 2024.
COSTA, Adriana. Terapia Floral na Aldeia Guiomar. YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Zt_tN6zLh4k. Acesso em: 23 maio 2024.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HELLINGER, Bert. As Ordens da Ajuda: um guia para ajudar e se deixar ajudar. Patos de Minas: Atman, 2005.
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