Comunicação não violenta no acompanhamento de pessoas envolvidas em processos judiciais: relato de uma experiência intersetorial do NRPICS

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Diego da Rosa Leal

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Diego da Rosa Leal

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Introdução

O enfrentamento de conflitos familiares e interpessoais relacionados a processos judiciais exige estratégias que ultrapassem a dimensão estritamente processual, considerando as múltiplas dimensões sociais, relacionais, emocionais e comunitárias que atravessam essas situações. Nesse contexto, a articulação intersetorial entre Saúde, Justiça, práticas restaurativas e iniciativas comunitárias pode ampliar as possibilidades de cuidado, responsabilização e transformação dos conflitos.

O Núcleo Restaurativo de Práticas Integrativas e Complementares de Saúde de Cabrália (NRPICS) desenvolve uma proposta de acompanhamento que busca acolher pessoas relacionadas a processos judiciais de maneira integral, articulando práticas integrativas, princípios restaurativos, educação popular jurídica e ações de cuidado em rede.

Como parte dessa proposta, foi estabelecida parceria com a Rede Restaurativa Brasil, por meio de Leandro Uchoas, possibilitando a participação de pessoas acompanhadas pelo NRPICS em oficinas semanais de Comunicação Não Violenta (CNV), realizadas de forma on-line e gratuita.

A inserção nessa atividade constituiu uma estratégia complementar aos acompanhamentos realizados pelo Núcleo, oferecendo aos participantes um espaço coletivo de aprendizagem, escuta e reflexão sobre comunicação, sentimentos, necessidades, conflitos e relações humanas.

A experiência mostrou-se relevante especialmente a partir das devolutivas espontâneas apresentadas por participantes, que passaram a relacionar os conteúdos vivenciados nas oficinas com situações concretas de suas próprias vidas.

Objetivo

Relatar a experiência do Núcleo Restaurativo de Práticas Integrativas e Complementares de Saúde de Cabrália (NRPICS) na articulação de pessoas envolvidas em processos judiciais com oficinas de Comunicação Não Violenta, desenvolvidas em parceria com a Rede Restaurativa Brasil, destacando suas contribuições percebidas para a comunicação, reflexão sobre conflitos, responsabilização e fortalecimento do cuidado intersetorial.

Metodologia

Trata-se de um relato de experiência, de natureza qualitativa e descritiva, construído a partir dos registros de acompanhamento realizados pelo NRPICS e das devolutivas apresentadas espontaneamente por participantes inseridos nas oficinas de Comunicação Não Violenta.

A experiência foi desenvolvida no contexto dos acompanhamentos realizados pelo Núcleo junto a pessoas relacionadas a processos judiciais, mediante acolhimento, escuta, orientação e construção de estratégias individualizadas de cuidado.

A partir da identificação da necessidade de ampliar os recursos disponíveis para o desenvolvimento de habilidades relacionais e comunicacionais, os participantes foram convidados e orientados quanto à possibilidade de participação nas oficinas semanais de CNV promovidas pela Rede Restaurativa Brasil.

As oficinas ocorreram em ambiente on-line, possibilitando participação remota e ampliando o acesso à atividade independentemente da localização dos participantes.

No acompanhamento posterior, foram observadas as percepções espontaneamente apresentadas pelos participantes sobre a experiência, especialmente quanto às mudanças na maneira de compreender os conflitos, comunicar sentimentos e necessidades, escutar o outro e refletir sobre a própria participação nas situações vivenciadas.

Para preservação da privacidade, não são apresentados nomes, números de processos ou quaisquer elementos capazes de identificar os participantes.

A experiência foi compreendida a partir de uma perspectiva de cuidado integral, intersetorial e restaurativa, considerando que as pessoas envolvidas em processos judiciais permanecem inseridas em relações familiares, comunitárias e sociais que também necessitam ser consideradas no processo de acompanhamento.

Resultados

A participação nas oficinas de Comunicação Não Violenta apresentou devolutivas positivas por parte dos participantes acompanhados pelo NRPICS.

Os relatos indicaram que a experiência ultrapassou o momento específico da oficina, passando a ser relacionada pelos participantes às situações concretas vivenciadas em suas relações familiares e interpessoais.

Entre os aspectos percebidos destacaram-se a ampliação da reflexão sobre a maneira de se comunicar, a importância da escuta, a identificação de sentimentos e necessidades e a possibilidade de compreender os conflitos para além de uma perspectiva exclusivamente baseada na acusação, defesa ou responsabilização jurídica.

Em um dos acompanhamentos, envolvendo uma história de relacionamento conjugal prolongado, posterior separação e permanência sob o mesmo teto em razão de questões relacionadas à guarda e às condições financeiras, a participação na CNV constituiu uma oportunidade para refletir sobre a convivência e sobre novas possibilidades de comunicação diante de uma realidade familiar complexa.

Outro participante acompanhado pelo NRPICS também apresentou devolutiva favorável em relação à experiência, demonstrando que a participação nas oficinas vinha contribuindo para ampliar sua percepção sobre os conflitos e sobre sua própria maneira de se relacionar.

As devolutivas observadas sugerem que a CNV funcionou como uma ferramenta complementar ao acompanhamento individual, favorecendo a construção de um repertório comunicacional mais reflexivo e consciente.

Outro resultado relevante foi o fortalecimento da rede de cuidado. A parceria com a Rede Restaurativa Brasil permitiu ao NRPICS ampliar as possibilidades oferecidas aos participantes sem restringir o acompanhamento aos recursos internos do serviço.

A experiência também favoreceu a compreensão de que a participação em processos judiciais não precisa representar o único eixo de intervenção. O acompanhamento pôde incorporar dimensões relacionadas à convivência, comunicação, responsabilização, autocuidado e transformação das relações.

Discussão

Os resultados observados reforçam a importância da construção de estratégias intersetoriais para o acompanhamento de situações complexas relacionadas a conflitos familiares e interpessoais.

A experiência desenvolvida pelo NRPICS demonstra que a articulação entre Saúde, Justiça Restaurativa e iniciativas comunitárias pode produzir espaços complementares de cuidado, nos quais a pessoa é considerada para além da condição processual que motivou seu encaminhamento ou acompanhamento.

Nesse sentido, a Comunicação Não Violenta apresenta-se como uma ferramenta com potencial para favorecer processos de reflexão sobre a própria comunicação e sobre a maneira como os conflitos são percebidos e enfrentados.

A participação em um espaço coletivo também possibilita que os sujeitos reconheçam aspectos de suas próprias experiências a partir da escuta de outras realidades, sem que necessariamente precisem expor publicamente sua história pessoal.

Outro elemento significativo refere-se à compreensão da responsabilização como processo de aprendizagem e transformação, e não apenas como consequência punitiva. Em situações de conflito, reconhecer sentimentos, necessidades, comportamentos e consequências pode contribuir para a construção de novas formas de atuação.

A experiência também evidencia a relevância da intersetorialidade como prática concreta. A parceria estabelecida com a Rede Restaurativa Brasil não representou apenas um encaminhamento para uma atividade externa, mas a construção de uma conexão entre diferentes atores e saberes em torno de uma finalidade comum: ampliar as possibilidades de cuidado e transformação.

Essa perspectiva aproxima-se da proposta desenvolvida pelo NRPICS por meio da AQRIS — Abordagem Qualitativa, Restaurativa, Integrativa e Sistêmica, compreendendo o sujeito dentro de uma rede de relações e considerando a complexidade dos fenômenos que atravessam os conflitos.

O acompanhamento demonstra, ainda, que práticas realizadas em ambientes comunitários e digitais podem ser incorporadas ao cuidado em rede, ampliando o acesso e criando possibilidades de participação para pessoas que poderiam encontrar dificuldades para frequentar atividades presenciais.

Embora a experiência não permita estabelecer relações causais ou mensurar quantitativamente os efeitos da participação nas oficinas, as devolutivas espontâneas constituem indicadores qualitativos relevantes para compreender a percepção dos participantes acerca da utilidade da atividade.

Assim, a experiência aponta para a necessidade de continuidade e sistematização dessas ações, bem como para a possibilidade de fortalecer parcerias entre serviços públicos, iniciativas restaurativas e organizações comunitárias.

Considerações finais

A experiência do NRPICS com a inserção de pessoas envolvidas em processos judiciais nas oficinas de Comunicação Não Violenta demonstra a potência do cuidado intersetorial construído em rede.

As devolutivas dos participantes indicaram benefícios relacionados à comunicação, à escuta, à reflexão sobre os conflitos e à compreensão da própria participação nas relações. Esses resultados reforçam a importância de oferecer espaços que possibilitem não apenas o cumprimento de encaminhamentos, mas também processos de aprendizagem e transformação.

A parceria com a Rede Restaurativa Brasil ampliou o repertório de possibilidades oferecidas pelo NRPICS e demonstrou que a construção de redes colaborativas pode produzir respostas mais abrangentes para situações complexas.

A experiência reafirma, portanto, que o cuidado de pessoas relacionadas a processos judiciais pode ser desenvolvido para além da dimensão formal do processo, incorporando práticas restaurativas, integrativas e educativas que favoreçam autonomia, diálogo, responsabilização e reconstrução das relações.

Nesse percurso, a Comunicação Não Violenta constitui uma ferramenta relevante para o desenvolvimento de uma cultura de diálogo e para a prevenção da escalada de conflitos.

Para o NRPICS, a experiência representa mais uma expressão concreta de sua atuação em rede: articular pessoas, serviços, saberes e possibilidades de cuidado para que o conflito possa ser compreendido não apenas como uma situação a ser judicialmente administrada, mas também como uma oportunidade de reflexão, responsabilização e transformação humana.

autor Principal

Diego da Rosa Leal

npicscabralia@gmail.com

Enfermeiro Terapeuta Sistêmico

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Diego da Rosa Leal

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