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Segundo o Ministério da Saúde, a primeira infância compreende os seis primeiros anos de vida da criança, período marcado por oportunidades únicas em que experiências positivas e estímulos qualificados favorecem significativamente o desenvolvimento humano.O diferencial da ação consiste no protagonismo colaborativo entre profissionais de Educação Física e Fisioterapia das equipes eMulti atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS). Nessa proposta, esses profissionais mobilizam saberes sobre ciências do movimento e desenvolvimento neuropsicomotor para realizar ações de rastreio por meio de atividades lúdicas, tendo como referência os parâmetros da Caderneta da Criança relacionados aos marcos do desenvolvimento infantil. A ação não se limita apenas ao rastreio, mas também estabelece uma ponte para o cuidado das crianças identificadas, utilizando o apoio matricial como ferramenta de gestão clínica para organizar seu percurso assistencial na Rede de Atenção à Saúde (RAS). A ação, iniciada em 2024, consolidou-se em 2025 e tende a ser mantida como estratégia longitudinal de cuidado resolutivo e proteção à infância nos territórios. Os objetivos específicos deste projeto são: realizar o rastreio dos marcos do desenvolvimento neuropsicomotor em crianças de 18 a 36 meses, utilizando o ambiente escolar como espaço privilegiado para a identificação precoce de sinais de atraso;Fortalecer a atuação dos profissionais de Educação Física e Fisioterapia na Atenção Primária à Saúde, valorizando os conhecimentos sobre movimento humano e desenvolvimento infantil como ferramentas técnicas de vigilância em saúde; Utilizar o apoio matricial como dispositivo de articulação entre equipe de referência e profissionais da eMulti, favorecendo a definição ágil do plano de cuidados e o suporte oportuno às crianças identificadas. Consolidar as Instituições de Educação Infantil como espaços estratégicos de cuidado e vigilância em saúde, reconhecendo o potencial da rotina escolar e das práticas lúdicas para a compreensão ampliada do desenvolvimento infantil. Assegurar a continuidade da estratégia por meio de ciclos anuais de execução, incorporando a triagem como rotina permanente de monitoramento da primeira infância no território.
A experiência foi desenvolvida a partir da necessidade de qualificar a identificação precoce de atrasos no desenvolvimento infantil e reduzir o tempo de resposta entre o rastreio e o acesso ao cuidado na RAS. Em resposta a esse desafio, o município de Betim estruturou, no âmbito do Grupo de Trabalho Intersetorial (GTI) do PSE, uma estratégia unificada para os territórios, transformando a triagem neuropsicomotora em ação organizada e contínua. No biênio 2023–2024 do PSE, a prática corporal figurava como tema prioritário, fortalecendo a incorporação do movimento como eixo central da iniciativa.
O percurso metodológico foi construído de forma colaborativa com profissionais de Educação Física e Fisioterapia das equipes eMulti, que traduziram o conhecimento técnico sobre o movimento em circuitos lúdicos estruturados como instrumentos de avaliação. Professores das instituições participantes atuaram como observadores ativos, contribuindo para leitura ampliada das potencialidades e dificuldades de cada criança em seu contexto de vida. Ao serem identificados sinais de atraso no desenvolvimento, a criança era imediatamente inserida em fluxo assistencial previamente estruturado.
Nesse contexto, as práticas corporais deixaram de ser apenas atividades recreativas e passaram a ser utilizadas como ferramentas de rastreio, fundamentadas nos marcos do desenvolvimento infantil previstos na Caderneta da Criança.
Um dos principais diferenciais da experiência foi a utilização do apoio matricial como organizador do cuidado. Os casos identificados passaram a ser discutidos entre equipes de Saúde da Família (eSF) e profissionais da eMulti, permitindo a construção compartilhada do plano de cuidados. A definição dos responsáveis pelo acompanhamento (médicos, enfermeiros e especialistas da eMulti, como fisioterapeutas, assistentes sociais, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, profissionais de educação física e psicólogos) ocorria de forma integrada, garantindo maior resolutividade e acesso oportuno.
O ciclo era concluído com o agendamento do atendimento e o envio de devolutiva formal à escola, destinada às famílias, informando data, local e profissional responsável pela continuidade do cuidado.
A experiência reorganiza o cuidado à primeira infância no território ao integrar vigilância em saúde, práticas corporais e coordenação do cuidado na APS, apresentando potencial de replicabilidade e contribuindo para a qualificação do acesso e da resolutividade do SUS.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a identificação precoce de sinais de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor ainda representa importante desafio. Nesse contexto, as Instituições de Educação Infantil configuram-se como espaços estratégicos para o alcance da população-alvo, tornando as ações intersetoriais entre saúde e educação uma alternativa promissora para viabilizar esse cuidado. Em Betim, essa necessidade motivou a elaboração de uma ação sistemática de triagem neuropsicomotora voltada a crianças de 18 a 36 meses matriculadas em instituições aderidas ao Programa Saúde na Escola (PSE). A iniciativa parte do entendimento de que o ambiente escolar constitui espaço estratégico para a vigilância em saúde, possibilitando o alcance de crianças cujo acompanhamento longitudinal ocorre de forma fragmentada
A implementação da estratégia ampliou o acesso ao rastreio do desenvolvimento infantil no território, alcançando crianças matriculadas nas Instituições de Educação Infantil de Betim em uma fase decisiva para o desenvolvimento infantil. No primeiro ciclo, aproximadamente 1.500 crianças passaram pela triagem, sendo 132 identificadas com sinais de atraso neuropsicomotor.
O impacto social da ação evidencia-se no fato de que 64,33% desses casos (85 crianças) foram avaliados pela primeira vez, demonstrando a capacidade da estratégia de viabilizar acesso oportuno aos cuidados em saúde. Apenas 47 crianças possuíam acompanhamento prévio na APS relacionado ao desenvolvimento infantil, o que sugere que, sem essa intervenção, parte significativa delas poderia permanecer com essa demanda invisível aos olhos da APS no mesmo período.
Já no segundo ciclo de implementação, a estratégia consolidou-se como rotina de vigilância, alcançando a marca de 2.873 crianças triadas. Dentre elas, 495 (17,2%) apresentaram sinais de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor com necessidade de intervenção clínica e foram inseridas no fluxo de cuidados em saúde da RAS.
Do total de crianças com alterações identificadas, 158 (31,9%) foram inseridas de imediato em atendimento na APS, sendo 82 (16,6%) já acompanhadas previamente pelo serviço e 76 (15,4%) incluídas na agenda da APS para discussão multiprofissional de casos, a partir do apoio matricial entre eSF e eMulti. O grupo restante, composto por 337 crianças (68,1%), não teve comparecimento registrado ou desfecho documentado em prontuário.
A utilização do apoio matricial como tecnologia de organização do cuidado qualificou a resposta da Rede de Atenção à Saúde (RAS), especialmente no cuidado multiprofissional e na definição compartilhada do plano terapêutico. Esse processo reduziu encaminhamentos fragmentados e garantiu maior resolutividade, com definição ágil dos responsáveis pelo cuidado e agendamento oportuno dos atendimentos.
Outro resultado relevante foi o fortalecimento da integração entre saúde e educação no território. A participação ativa dos professores ampliou a observação do desenvolvimento infantil no cotidiano escolar, enquanto a devolutiva às famílias fortaleceu o vínculo com os serviços de saúde.
A experiência também evidenciou o potencial estratégico dos profissionais de Educação Física e Fisioterapia na APS, qualificando o rastreio neuropsicomotor, fortalecendo práticas interdisciplinares e ampliando a relevância de seus saberes técnicos na vigilância em saúde.
Como desafio para os próximos ciclos, destaca-se o fortalecimento da busca ativa e da contrarreferência, essenciais para reduzir o absenteísmo e garantir assistência contínua.
A manutenção dos resultados positivos reforça a consolidação da ação, demonstrando que a integração entre educação e saúde qualifica a porta de entrada do SUS para a primeira infância e fortalece a capacidade de resposta da rede municipal de saúde.
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