Programa de educação pelo trabalho para a saúde (PET) equidade: integração ensino serviço e comunidade uma experiência do SUS em Betim (MG)

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Patrícia Antunes Tavares

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Patrícia Antunes Tavares

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No âmbito do SUS de Betim, a Política Municipal de Educação Permanente em Saúde (EPS) é operacionalizada de forma transversal em todos os níveis de atenção. Esta política consolida-se no contexto dos serviços de saúde por meio de programas e práticas continuadas de ensino, projetos de pesquisa, estágios e projetos de extensão, todos viabilizados por sólidas parcerias com instituições de ensino superior.
A dinamicidade e a complexidade dos processos formativos de profissionais de saúde e futuros profissionais, aliadas ao desafio da prestação de um serviço de saúde público qualificado e resolutivo à população, apontam para a necessidade de buscar incessantemente ações interdisciplinares e intersetoriais que fomentem novos saberes e práticas. Nesse cenário, iniciativas organizadas e induzidas pelo Ministério da Saúde, como o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), atuam como dispositivos que visam fortalecer e expandir a relação ensino-serviço-comunidade existente entre as instituições.
Dessa forma, a proposta da edição atual, o PET-Saúde Equidade, realizada entre maio de 2024 e abril de 2026, prioriza o processo de integração com ênfase na valorização das trabalhadoras e futuras trabalhadoras do SUS. O projeto foi estruturado em estrita consonância com o previsto no Edital SGTES/MS nº 11 de 16 de setembro de 2023, organizando-se para atuar na qualificação dos serviços, no fortalecimento do controle social, no incremento de metodologias ativas no processo de ensino-aprendizagem, na criação de espaços permanentes de diálogo e na produção científica orientada para as demandas loco-regionais.

O objetivo central desta iniciativa foi fomentar a Educação Permanente em Saúde (EPS) para o conjunto de trabalhadores e gestores da Rede SUS Betim, com foco na valorização das trabalhadoras e no enfrentamento das iniquidades. A proposta buscou sensibilizar gestores e equipes para que desenvolvessem um olhar crítico sobre os marcadores sociais (gênero, raça, etnia, deficiências e orientação sexual) e interseccionalidades, estimulando mudanças de percepção e de atitudes, qualificando as relações laborais e o cuidado à população.

O desenvolvimento desta estratégia ocorreu por meio dos seguintes Grupos de Aprendizagem Tutorial (GAT):
• GAT 1 – Enfrentamento da Violência contra as trabalhadoras do SUS Betim: Focou na prevenção e no combate sistemático a práticas discriminatórias no SUS Betim. Buscou a implementação de protocolos de enfrentamento e a instituição de práticas que sensibilizem a rede para a ampliação das notificações e a promoção de uma cultura de paz no trabalho, articulada com o Controle Social.
• GAT 2 – PATHOS (Programa de Acolhimento à Trabalhadora Hospitalar): Priorizou a saúde mental e o bem-estar no ambiente hospitalar. A proposta envolveu a oferta de acolhimento e oficinas de manejo de estresse, investindo na Educação Permanente em Saúde para que todo o corpo clínico e administrativo reconhecesse as dimensões subjetivas e as vulnerabilidades interseccionais presentes no trabalho vivo em saúde.
• GAT 3 – SER Agente (Agentes Comunitárias de Saúde – ACS): Promoveu a valorização das ACS com ênfase na equidade de gênero e no enfrentamento às iniquidades e violências no território. Utilizou metodologias ativas para a formação com essas profissionais e seus pares em processos de trabalho integrados, desenvolvendo um caderno tutorial para replicação dessa tecnologia de educação permanente e cuidado.
• GAT 4 – Climatério e Trabalho: Acolheu trabalhadoras no ciclo do climatério e menopausa e, simultaneamente, buscou sensibilizar a gestão e as equipes sobre os impactos psicológicos, físicos e sociais desta fase. O grupo buscou transformar o ambiente laboral em um espaço de suporte, fomentando o protagonismo feminino e incentivando o uso de Práticas Integrativas e Complementares (PICS) como política de cuidado institucional.

A metodologia dessa experiência fundamentou-se na consolidação da integração ensino-serviço-comunidade e nos preceitos da Educação Permanente em Saúde (EPS), operando por meio dos grupos de aprendizagem tutorial (GATs) como células de transformação da rede. O itinerário formativo e interventivo iniciou-se com uma imersão teórica e documental acerca das políticas de equidade e saúde do trabalhador, evoluindo para um processo de reconhecimento e mapeamento da realidade nos cenários reais de prática, abrangendo Unidades Básicas de Saúde, hospitais, Unidades de Pronto Atendimento e centros especializados. Nesse processo, estudantes, preceptores e tutores estabeleceram um diálogo horizontal e permanente que permitiu identificar “nós críticos” e vulnerabilidades interseccionais relacionadas a gênero, raça, etnia, orientação sexual e deficiências no cotidiano laboral.

As ações práticas foram conduzidas por meio de metodologias ativas e participativas, que privilegiaram a escuta qualificada e a dimensão lúdica como ferramentas de engajamento. Foram realizadas oficinas de sensibilização, rodas de conversa e formações em Comunicação em Saúde e em Comunicação Não Violenta (CNV), além da implementação das Práticas Integrativas e Complementares (PICS) como dispositivos fundamentais de cuidado à saúde de quem cuida. Foram também desenvolvidas narrativas e simulações realísticas, através das quais os trabalhadores e gestores do SUS Betim foram estimulados a refletir criticamente sobre violências institucionais, assédios e preconceitos. Para garantir a sustentabilidade institucional e a capilaridade das ações, a metodologia incorporou o desenvolvimento de tecnologias sociais e estratégias de comunicação digital. Esse esforço materializou-se na elaboração coletiva de produtos como cartilhas informativas, cadernos tutoriais, podcasts e documentários, que traduzem as evidências científicas e os saberes do serviço em uma linguagem acessível para toda a rede municipal.

A governança do projeto nestes dois anos foi assegurada por um Comitê Gestor, formado por representantes de todos os perfis integrantes do projeto, e responsável pelo monitoramento mensal e pela avaliação das metas, garantindo que as atividades de extensão permanecessem alinhadas às necessidades reais da rede de saúde de Betim e às diretrizes nacionais de equidade preconizadas pelo Ministério da Saúde. Ressalta-se também o papel da Orientadora de Serviço que, junto aos coordenadores, tutores, preceptores, estudantes e representantes institucionais, foi responsável por potencializar a articulações de todas as estratégias com o controle social do SUS e movimentos sociais. Ressalta-se que todos os integrantes do PET participaram em peso das conferências de saúde que tivemos ao longo desses dois anos. Duas estudantes e uma preceptora foram delegadas na Conferência Estadual de GTES. Houve também ampla aprovação de trabalhos escritos pelos quatro grupos em congressos nacionais e internacionais nas áreas de psicologia e saúde coletiva.

A iniciativa foi impulsionada pelo reconhecimento, em conjunto com a gestão municipal, de que o ambiente laboral na nossa rede reflete desafios estruturais que impactam o bem-estar das trabalhadoras e dos trabalhadores do SUS. O diagnóstico inicial identificou a necessidade de fortalecer mecanismos de proteção contra a violência no trabalho, visto que uma pesquisa local apontou que 73,4% dos profissionais — em sua maioria mulheres (86%) — já haviam vivenciado episódios de violência, predominantemente verbal. Somaram-se a esse cenário oportunidades estratégicas de aperfeiçoamento institucional, como a necessidade de dar visibilidade ao climatério no ambiente laboral para promover suporte integral à mulher trabalhadora, além da oportunidade de potencializar o papel das Agentes Comunitárias de Saúde ao superar desafios históricos de valorização e autonomia profissional. No âmbito hospitalar, o projeto identificou a importância de mitigar riscos ocupacionais e o desgaste emocional inerentes à complexidade do setor. A oportunidade identificada residiu em fortalecer a integração ensino-serviço por meio da Educação Permanente em Saúde, visando implementar tecnologias sociais compartilhadas, que considerassem as interseccionalidades de gênero, raça, deficiências e etnia. Assim, o projeto desenvolveu estratégias para que os ambientes de trabalho se tornassem mais inclusivos e seguros, compreendendo que o cuidado com os trabalhadores e trabalhadoras é condição fundamental para a excelência e humanização do atendimento prestado à população de Betim.

O PET-Saúde Equidade em Betim consolidou a integração ensino-serviço como uma potente estratégia de cidadania e valorização dos sujeitos que constroem o SUS municipal. Os resultados demonstram o fortalecimento do sistema público como um espaço inclusivo e promotor de saúde mental, materializando-se em entregas específicas de cada Grupo de Aprendizagem Tutorial:

No eixo de Enfrentamento da Violência, a iniciativa promoveu 36 oficinas de reflexão e debate sobre violência no trabalho, alcançando gestores e trabalhadores de diversas categorias em todos os níveis assistenciais, além de conselheiros municipais de saúde. Esse processo resultou na elaboração da cartilha técnica “DIGA NÃO À VIOLÊNCIA NO SUS BETIM”, produto validado coletivamente durante as oficinas. Além da produção de materiais audiovisuais para a replicação da metodologia, o grupo integrou trilhas formativas em Comunicação Não Violenta (CNV) e mediação de conflitos para gestores da Atenção Primária, visando a construção de uma cultura de paz e a ampliação qualificada das notificações de violência.

O grupo PATHOS (Trabalhadoras Hospitalares) concentrou esforços na análise e transformação das condições que impactam a saúde mental em ambientes de alta complexidade. Para além do suporte subjetivo, o grupo priorizou o enfrentamento das causas estruturais do desgaste profissional através de um mapeamento de iniquidades e da elaboração de um inventário de riscos ocupacionais hospitalares — validado junto à gestão e aos trabalhadores. Foram realizadas diversas intervenções pedagógicas, com destaque para a “Oficina dos Sentidos” voltada à humanização do cuidado e das relações laborais. O impacto técnico-científico traduziu-se na publicação de sete resumos em congresso internacional e no suporte técnico ao Núcleo LGBTQIA+, com o desenvolvimento de materiais sobre acolhimento e o respeito ao nome social no ambiente hospitalar. Uma entrega estratégica deste grupo, em parceria com o curso de Direito da PUC Minas, foi a elaboração da minuta para o Programa de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador do SUS Betim, reafirmando a responsabilidade institucional na proteção à saúde de quem cuida.

No âmbito da valorização das Agentes Comunitárias de Saúde (Grupo SER Agente), o projeto reafirmou essas profissionais como articuladoras de equidade. Após a realização de quatro módulos de oficinas com a totalidade das ACS de 16 Unidades Básicas de Saúde, o grupo sistematizou essa tecnologia no Caderno Tutorial, recurso pedagógico para a continuidade da educação permanente na rede. A visibilidade social da categoria foi ampliada pela produção de uma série de nove vídeos de valorização, em parceria com a Secretaria de Comunicação da Prefeitura, disseminando a importância do papel das ACS para a saúde pública.

Por fim, o grupo Climatério e Trabalho logrou êxito ao transpor evidências sobre a transição menopáusica para ações práticas de cuidado integral. Foram implementadas oficinas de Práticas Integrativas e Complementares (PICS), como fitoterapia e escalda-pés, alcançando trabalhadoras e gestoras de toda a rede assistencial. A estratégia de comunicação digital via Instagram foi utilizada para a disseminação de “pílulas de saúde”, desmistificando tabus sobre o tema e sensibilizando os níveis decisórios para a necessidade de um acolhimento institucional sensível aos ciclos de vida da mulher trabalhadora. Foi realizada também uma pesquisa sobre o perfil das trabalhadoras da rede que estão na transição menopáusica, gerando saberes importantes que podem contribuir para a Gestão do Trabalho do SUS Betim.

A trajetória do PET-Saúde Equidade em Betim consolida-se como uma experiência exitosa na superação da dicotomia entre teoria e prática no campo da Saúde Coletiva. Ao centralizar esforços na valorização das trabalhadoras e dos trabalhadores do SUS, o projeto transcendeu o cumprimento de metas acadêmicas para instituir uma nova cultura de reflexão crítica sobre a saúde de quem cuida. A integração orgânica entre estudantes, docentes e profissionais da rede permitiu a ressignificação do ambiente laboral como um espaço de aprendizagem mútua e produção de saberes, onde a equidade deixou de ser um conceito abstrato para se materializar em protocolos, fluxogramas, oficinas, minuta, inventário e tecnologias sociais concretas.

Os resultados alcançados pelos quatro grupos tutoriais — abrangendo desde o enfrentamento às violências e a mitigação de riscos ocupacionais hospitalares até a valorização das ACS e o suporte integral no ciclo do climatério — compõem um mosaico de intervenções estratégicas que atacam as iniquidades em suas múltiplas faces e interseccionalidades. A entrega de produtos robustos, como cartilhas técnicas, cadernos metodológicos e documentários, assegura a sustentabilidade das ações, servindo como recurso permanente para a Educação Permanente em Saúde (EPS) no município e garantindo que o acúmulo produzido permaneça como patrimônio da rede.

A experiência reafirma a potência da interprofissionalidade e do controle social como pilares da gestão democrática do SUS. Conclui-se que a parceria entre a PUC Minas e a Rede SUS Betim logrou êxito em humanizar as relações de trabalho e qualificar a gestão sob a ótica da diversidade (gênero, raça, etnia e deficiências). Mais do que formar futuras profissionais tecnicamente qualificadas, o projeto fomentou o desenvolvimento de trabalhadoras dotadas de visão crítica e sensibilidade ética frente às complexidades do sistema público.

Este legado de cidadania reverbera diretamente na qualidade do cuidado ofertado à população betinense. Ao promover ambientes laborais mais justos, seguros e saudáveis, o projeto reconhece uma premissa fundamental da saúde pública: o cuidado com as trabalhadoras não é um fim em si mesmo, mas uma dimensão indissociável da saúde da comunidade. Cuidar de quem cuida é, em última análise, garantir que o SUS seja um sistema vivo, capaz de acolher a população com a mesma dignidade e equidade que cultiva para seus próprios profissionais.

A experiência do PET-Saúde Equidade em Betim demonstra que a replicabilidade de práticas similares depende, primordialmente, do fortalecimento da integração ensino-serviço e do trabalho interprofissional. Para facilitar a implementação em outros cenários, os autores recomendam a utilização das tecnologias sociais produzidas, como as cartilhas técnicas, cadernos metodológicos e documentários, que detalham o passo a passo das intervenções realizadas nos quatro grupos tutoriais.

Uma orientação crucial é que o planejamento das ações ocorra de forma participativa, envolvendo desde o início os gestores da Secretaria de Saúde e da Gestão do Trabalho. Como as temáticas de equidade, saúde do trabalhador e enfrentamento às violências tocam em pontos sensíveis das relações institucionais, é indispensável que a gestão municipal esteja engajada e ofereça sustentação política à proposta. Além disso, aconselha-se a criação de espaços de escuta ativa e diálogo horizontal entre estudantes, docentes e profissionais da rede, garantindo que as intervenções sejam construídas “com” os trabalhadores e não apenas “para” eles. Essa abordagem assegura que o projeto não apenas cumpra metas acadêmicas, mas promova uma transformação real na cultura organizacional e no cuidado à saúde de quem cuida.

autor Principal

Patrícia Antunes Tavares

patriciasusbetim@gmail.com

Terapeuta Ocupacional

Coautores

Patrícia Antunes Tavares, Berenice de Freitas Diniz, Sabrina Oliveira Viana Balbi, Carmélia Gonçalves de Melo, Joanilson Santos Guimarães, Gisele do Carmo Leite Machado Diniz, Rubia Mara Moura

A prática foi aplicada em

Betim

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Rua Pará de Minas, 640 - Brasiléia, Betim - MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Patrícia Antunes Tavares

Conta vinculada

05 maio 2026

CADASTRO

05 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

inicio

30 abr 2026

fim

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

Arquivos