Práticas integrativas e justiça restaurativa na reabilitação psicossocial: relato da experiência terapêutica da paciente IFS (2022–2024)

Diego da Rosa Leal

diegorleal

Esta prática está EM MODERAÇÃO por

Diego da Rosa Leal

favor seguir as recomendações abaixo:

Nenhuma recomendação da moderação

RESUMO Este relato de experiência descreve o percurso terapêutico singular da paciente identificada pelas iniciais IFS, acompanhada entre 2022 e 2024 no município de Santa Cruz Cabrália‑BA. Encaminhada do CAPS ao Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) por intercâmbio com a psiquiatra responsável, a paciente foi inserida em um plano integrado de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) conjugadas a protocolos de gestão da agressividade e justiça restaurativa. O itinerário clínico envolveu supervisão medicamentosa (haloperidol VO e Haldol decanoato IM), técnicas de meditação, florais de Bach, shiatsu, constelação familiar sistêmica, laborterapia e participação voluntária em atividades do CAPS. Após episódio de agressão no ambiente de trabalho em 2023, medida judicial determinou o retorno intensivo ao tratamento, resultando em recuperação funcional, reinserção comunitária e ampliação da autonomia. O caso demonstra a sinergia entre PICS, farmacoterapia e círculos restaurativos, apontando para a importância da intersetorialidade entre saúde, assistência social e sistema de justiça. Conclui‑se que a combinação de estratégias baseadas em evidências (TOWNSEND; MORGAN, 2021) e princípios restaurativos (ZEHR, 2015; PRANIS, 2023) potencializa a reabilitação psicossocial em contextos comunitários.
Palavras‑chave: Práticas Integrativas e Complementares em Saúde; Justiça Restaurativa; Reabilitação Psicossocial; Gestão da Agressividade; Autocuidado Sistêmico.

ABSTRACT This experience report describes the singular therapeutic journey of a patient identified by the initials IFS, followed from 2022 to 2024 in Santa Cruz Cabrália, Brazil. Referred from the Psychosocial Care Center (CAPS) to the Family Health Support Center (NASF), the patient was enrolled in an integrated plan combining Integrative and Complementary Health Practices (ICHPs) with aggression‑management protocols and restorative‑justice principles. The clinical itinerary included supervised psychopharmacology (oral haloperidol and decanoate haldol), meditation techniques, Bach flower remedies, shiatsu, systemic family constellations, work therapy, and voluntary participation in CAPS activities. After a workplace aggression episode in 2023, a judicial decision mandated intensive treatment, leading to functional recovery, community reintegration, and greater autonomy. The case demonstrates the synergy among ICHPs, pharmacotherapy, and restorative circles, highlighting the importance of intersectoral collaboration between health, social assistance, and the justice system. We conclude that combining evidence‑based strategies (TOWNSEND; MORGAN, 2021) with restorative principles (ZEHR, 2015; PRANIS, 2023) enhances psychosocial rehabilitation in community settings.
Keywords: Integrative and Complementary Health Practices; Restorative Justice; Psychosocial Rehabilitation; Aggression Management; Systemic Self‑care.

1 INTRODUÇÃO
A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPICS) do Sistema Único de Saúde (SUS) reconhece saberes tradicionais e recursos terapêuticos não farmacológicos como complementares às abordagens biomédicas (BRASIL, 2015). Paralelamente, o campo da justiça restaurativa propõe que conflitos e danos interpessoais sejam trabalhados por meio de processos dialógicos que restauram vínculos comunitários e promovem responsabilização consciente (ZEHR, 2015; PRANIS, 2023). No âmbito da saúde mental, autores como Townsend e Morgan (2021) indicam que a gestão sustentável da raiva e da agressividade requer integração entre psicofármacos, comunicação terapêutica e técnicas de autorregulação emocional. Estudos brasileiros recentes demonstram que a adoção de PICS na atenção primária favorece empoderamento do usuário e reforço da rede de apoio (ROQUE JUNGES; ZAPELINI; SCHAEFER, 2023; OLIVEIRA et al., 2024).
Este artigo relata a experiência terapêutica da paciente IFS, destacando a articulação entre PICS, justiça restaurativa e protocolos de controle da agressividade em um serviço público de saúde mental.
2 METODOLOGIA
Trata‑se de estudo descritivo, qualitativo, na modalidade relato de experiência. As informações foram extraídas de evoluções clínicas, registros eletrônicos do NPICS Brasil, observação participante do autor (enfermeiro e facilitador sistêmico responsável) e entrevistas semiestruturadas com a paciente e sua mãe. A identidade foi preservada, substituindo o nome por iniciais.

3 APRESENTAÇÃO DO CASO
3.1 Linha do tempo (2022)
Em 2022, IFS foi encaminhada ao NASF pela psiquiatra Drª Laís Batistela em virtude de baixa adesão ao tratamento no CAPS. Passou a participar de rodas de constelação familiar sistêmica, meditação guiada, auriculoterapia e floralterapia, além de integrar a classe de autocuidado sistêmico.
3.2 Intensificação terapêutica (2023)
Com melhora clínica, IFS reinseriu‑se no mercado de trabalho em um supermercado local. Após alguns meses, apresentou crise de agressividade contra colega, resultando em boletim de ocorrência e audiência no Fórum de Santa Cruz Cabrália. Por decisão judicial, retornou ao tratamento intensivo, com:
Supervisão medicamentosa: injeção mensal de haldol decanoato (50 mg) e haloperidol 2 mg VO 8/8h; duas tomadas no CAPS (7h e 12h) e uma sob supervisão materna (20h), conforme protocolo de Townsend (2021) – Os demais medicamentos não serão citados neste artigo;
PICS adjuvantes: florais de Bach (Fórmula Rescue), shiatsu sistêmico, quando solicitado e oportuno, exercícios de respiração consciente;
Comunicação restaurativa: círculos facilitados com equipe, paciente e família baseados em Hellinger (2008), Zehr (2015) e Pranis (2023).
A autonomia medicamentosa foi gradualmente devolvida a partir de autorrelatos consistentes da paciente e avaliações clínicas estáveis.
3.3 Voluntariado e laborterapia
IFS destacou‑se pelo espírito voluntário, ajudando a profissional de serviços gerais do Caps local, organizando materiais terapêuticos e engajando‑se em arteterapia. Essa laborterapia fortaleceu autoestima, senso de pertencimento e corresponsabilidade pelo ambiente de cuidado, acelerando sua evolução.
3.4 Consolidação (2024)
Em 2024, a paciente manteve estabilidade clínica, sem novos episódios de agressividade, ampliou participação no programa de voluntariado do Npics e foi convidada a relatar sua experiência em roda de usuários, em sala de espera do CAPS, assumindo papel de protagonista da própria história.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A trajetória de IFS confirma a premissa de Townsend e Morgan (2021) de que a redução de episódios de raiva depende da conjugação de farmacoterapia e técnicas de autocontrole. O uso regular de PICS como meditação e florais facilitou a internalização de recursos de autorregulação, permitindo reduzir gradativamente a supervisão externa de medicação.
No eixo restaurativo e sistêmico, os círculos de paz inspirados em Zehr (2015), Pranis (2023) e Hellinger (2008), favoreceram reconhecimento de danos, responsabilização e elaboração de um plano de restauração, evidenciados pelo voluntariado da paciente. Esse achado converge com a literatura brasileira que aponta senso de utilidade social como variável protetiva em saúde mental (SANTOS et al., 2023).
A sinergia entre PICS, laborterapia e justiça restaurativa reforça que intervenções comunitárias, culturalmente situadas, podem acelerar reabilitação e reinserção social, como defendem Hellinger (2008) e Garriga (2019) na abordagem sistêmica.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência demonstra que estratégias intersetoriais, aliando PICS, protocolos de agressividade e justiça restaurativa, potencializam a reabilitação psicossocial. Recomenda‑se a expansão de pesquisas multicêntricas para avaliar desfechos em maior escala e a institucionalização de círculos restaurativos nos serviços de saúde mental.

AGRADECIMENTOS
À paciente IFS e família, à equipe do CAPS Santa Cruz Cabrália, ao Fórum da Comarca, à Autossuficiência Brasil pelo incentivo à autonomia e resiliência emocional e ao FamilySearch Brasil pelo apoio ao arquivamento dos registros.

REFERÊNCIAS
AUTOSSUFICIÊNCIA BRASIL. Curso “Resiliência Emocional”. São Paulo: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2021.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015.

CASTILLO, C. El camino de la reconciliación. Caracas: Editorial Tetraedro, 2017.

FAMILYSEARCH BRASIL. Arquivamento de experiências restaurativas e registros clínicos sistêmicos. Santa Cruz Cabrália: NPICS Brasil, 2024. Documento interno.

GARRIGA, J. O amor que nos faz bem. Petrópolis: Vozes, 2019.

HELLINGER, B. As ordens do amor. São Paulo: Cultrix, 2008.

NPICS BRASIL. Relatórios clínicos e sistêmicos: 2022–2024. Santa Cruz Cabrália, 2024. Documento interno.

OLIVEIRA, C. S. et al. Práticas integrativas e complementares no cuidado à saúde. Revista DELOS, v. 17, n. 60, e2288, 2024.

PRANIS, K. Processos circulares: construindo paz e pertencimento. São Paulo: Palas Athena, 2023.

ROQUE JUNGES, J.; ZAPELINI, R. G.; SCHAEFER, R. Medicina tradicional complementar e integrativa na APS: revisão de escopo. Revista Brasileira de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, v. 2, n. 4, p. 115‑134, 2023.

SANTOS, L. S. F. et al. Práticas integrativas e complementares de saúde na atenção primária: revisão integrativa. Acervo Saúde, v. 23, n. 1, e11393, 2023.

STAM, J. J. Resolução de conflitos sistêmica. São Paulo: Atman, 2018.

TORRES WARDIL KRAUSE, D.; CHUBACI, R. Y. S. Centros de referência em PICS: motivações dos usuários. Oikos, v. 34, n. 3, 2023. [Inserir páginas].

TOWNSEND, M. C.; MORGAN, K. I. Enfermagem psiquiátrica: conceitos de cuidados na prática baseada em evidências. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.

ZEHR, H. The little book of restorative justice. Rev. & upd. ed. New York: Good Books, 2015.

autor Principal

Diego da Rosa Leal

npicscabralia@gmail.com

Enfermeiro Terapeuta Sistêmico

Coautores

Diego da Rosa Leal¹ ¹ Núcleo de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (NPICS) Brasil, Santa Cruz Cabrália, BA, Brasil. E‑mail: npicscabralia@gmail.com

A prática foi aplicada em

Todo o Brasil

Esta prática está vinculada a

Forum Jutahy Fonseca, Santa Cruz Cabrália - BA, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Diego da Rosa Leal

Conta vinculada

08 jul 2025

CADASTRO

08 jul 2025

ATUALIZAÇÃO

inicio

fim

Condição da prática

Concluída

Situação da Prática

Arquivos