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Triagem de cegueira evitável com retinógrafo portátil e teleoftalmologia na atenção primária em Arraial do Cabo (RJ)

Lucas Estefano Cyrillo Leardini

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Lucas Estefano Cyrillo Leardini

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O município de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, com 32.541 habitantes, enfrenta um cenário comum a milhares de municípios brasileiros de pequeno porte: acesso limitado à atenção oftalmológica especializada, longas filas de regulação e diagnósticos tardios de doenças oculares que poderiam ser prevenidas ou tratadas precocemente. Dados do SISREG/MS 2024 indicam tempo médio de espera de 83 dias para uma consulta oftalmológica no município, e a Pesquisa Nacional de Saúde 2019 estima que cerca de 50% dos diabéticos brasileiros não realizam exame de fundo de olho anualmente. Diante desse cenário, a Secretaria Municipal de Saúde de Arraial do Cabo, em parceria com a plataforma de teleoftalmologia RedCheck, implementou um programa de triagem oftalmológica com retinógrafo portátil diretamente nas oito Unidades Básicas de Saúde do município. A experiência tem como população-alvo indivíduos com 50 anos ou mais e/ou portadores de diabetes mellitus tipo 2: o grupo de maior risco para doenças oculares evitáveis como retinopatia diabética, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade. A metodologia é simples e replicável: profissionais de saúde das UBS (incluindo agentes comunitários, enfermeiros e técnicos de enfermagem) foram capacitados para operar o retinógrafo portátil Phelcom Eyer, um equipamento que dispensa dilatação da pupila e permite a captura de imagens de fundo de olho em poucos minutos. As imagens são transmitidas automaticamente para a plataforma RedCheck, onde oftalmologistas especializados emitem laudos remotos com apoio de inteligência artificial. O laudo retorna à UBS em tempo médio de 30 horas, permitindo que pacientes com exames normais recebam alta diretamente na atenção primária, enquanto os que apresentam alterações são encaminhados de forma qualificada ao serviço de referência, com diagnóstico já documentado. O objetivo geral da experiência é ampliar o acesso ao diagnóstico oftalmológico precoce na atenção primária, reduzir o tempo até o diagnóstico de doenças oculares tratáveis e promover a reorganização do fluxo de encaminhamento oftalmológico no SUS, aliviando a pressão sobre os serviços especializados e priorizando quem realmente precisa de atendimento presencial com o oftalmologista. Entre junho de 2025 e março de 2026, foram triados 1.290 pacientes. A média de idade foi de 63,17 anos, com predomínio do sexo feminino (61,17%). Do total, 55,89% apresentaram exames normais e foram manejados na própria UBS, 41,79% tiveram alterações identificadas e foram encaminhados, e apenas 2,32% tiveram imagens não laudáveis: taxa que demonstra a viabilidade técnica da captura por profissionais não médicos. A retinopatia diabética foi a alteração mais prevalente (13,72%), seguida por suspeita de glaucoma (10,62%), suspeita de catarata (3,56%), retinopatia hipertensiva (3,02%) e degeneração macular relacionada à idade (1,24%). A análise de custo-efetividade demonstrou que a teleoftalmologia é simultaneamente mais barata e mais rápida: o custo por caso detectado foi de R$ 50,64 contra R$ 70,82 no fluxo tradicional do SUS (redução de 28,5%), e o tempo até o diagnóstico caiu de 83 dias para 1,3 dia, resultando em uma antecipação diagnóstica de 81,7 dias. A estratégia se mostrou dominante em todos os cenários de análise de sensibilidade. A usabilidade da plataforma foi avaliada pelos profissionais de saúde das UBS por meio do System Usability Scale, com escore médio de 90,96 (classificação “Excelente”), indicando baixa barreira de adoção. A experiência está alinhada à Estratégia de Saúde Digital para o Brasil, à Política Nacional de Informação e Informática em Saúde e respeita integralmente a LGPD, sem exposição de dados pessoais dos pacientes.

A atenção oftalmológica no SUS enfrenta uma combinação de barreiras que resulta em diagnósticos tardios e perda visual evitável: escassez e concentração geográfica de oftalmologistas (metade de todos os oftalmologistas brasileiros se concentram em apenas 14 municípios, conforme último censo do Conselho Brasileiro de Oftalmologia), longos tempos de espera na regulação (83 dias em média em Arraial do Cabo, conforme SISREG/MS 2024), modelo de encaminhamento dependente de sintomas e ausência de rastreio ativo para populações de risco. Em Arraial do Cabo, município semiurbano com 32.541 habitantes e acesso limitado a especialistas, estima-se que metade dos diabéticos não realizava exame de fundo de olho anualmente (PNS 2019). Doenças como retinopatia diabética, glaucoma e DMRI são frequentemente assintomáticas em seus estágios iniciais, de modo que o paciente que depende do fluxo tradicional só chega ao especialista quando já apresenta sintomas, momento em que o dano visual pode ser irreversível e o tratamento tende a ser mais complexo e mais caro. A oportunidade identificada foi utilizar a teleoftalmologia com retinógrafo portátil para levar o diagnóstico especializado diretamente à atenção primária, invertendo a lógica do sistema: ao invés de esperar que o paciente perceba o problema e percorra a fila de regulação, a triagem ativa identifica alterações antes que os sintomas apareçam, reorganizando o acesso e priorizando quem realmente precisa de encaminhamento.

Entre junho de 2025 e março de 2026, foram triados 1.290 pacientes nas oito UBS de Arraial do Cabo. Os principais resultados alcançados foram: (1) Detecção de 539 pacientes com alterações oftalmológicas (41,79%), a grande maioria assintomática, que dificilmente acessaria o especialista em tempo oportuno pelo fluxo convencional, incluindo 177 casos de retinopatia diabética (13,72%), 137 suspeitas de glaucoma (10,62%) e 16 casos de DMRI; (2) Redução do tempo até o diagnóstico de 83 dias para 1,3 dia, antecipando em 81,7 dias o diagnóstico especializado; (3) Custo por caso detectado de R$ 50,64 contra R$ 70,82 no fluxo SUS, representando uma economia de 28,5% por caso, com dominância absoluta em todos os cenários de análise de sensibilidade; (4) Mais de 55% dos pacientes (721) receberam alta diretamente na UBS por apresentarem exames normais, evitando encaminhamentos desnecessários e aliviando a sobrecarga do serviço especializado; (5) Taxa de exames não laudáveis de apenas 2,32%, demonstrando que profissionais de saúde não médicos, após treinamento adequado, conseguem operar o equipamento com qualidade; (6) Escore de usabilidade da plataforma de 90,96/100 (classificação “Excelente”) entre os 13 profissionais envolvidos, com nenhum abaixo do limiar de aceitabilidade. A principal lição é que a teleoftalmologia não apenas reduz custos e tempo, mas muda qualitativamente o perfil dos pacientes diagnosticados: ao fazer triagem ativa, o sistema passa a detectar doenças em estágios iniciais e subclínicos, algo que o modelo baseado em sintomas estruturalmente não consegue fazer.

Para gestores e equipes que desejam implementar experiência similar, compartilhamos as seguintes orientações: (1) Comece pelo mapeamento da demanda reprimida: identifique a população de risco do seu município (no nosso caso, diabéticos e idosos acima de 50 anos); essa é a base para dimensionar equipamentos e justificar o investimento perante o gestor; (2) Invista fortemente na capacitação inicial e contínua dos profissionais que vão operar o retinógrafo: o treinamento prático é simples (menos de 4 horas), mas a qualidade da imagem depende de técnica correta, e a confiança do profissional cresce com a prática nas primeiras semanas; (3) Integre a triagem oftalmológica ao fluxo assistencial já existente na UBS, aproveitando momentos como consultas de acompanhamento de hipertensos e diabéticos, visitas programadas do Hiperdia ou mutirões de saúde. Evite criar agenda paralela, pois isso dificulta a adesão; (4) Garanta retaguarda clínica clara desde o início: defina previamente com a regulação municipal e o serviço de referência oftalmológica o fluxo para os casos alterados, incluindo prazo máximo para agendamento da consulta presencial; (5) Monitore indicadores desde o primeiro dia: taxa de exames não laudáveis, tempo médio de emissão de laudo, proporção de normais vs. alterados e taxa de comparecimento ao serviço de referência. Esses dados são essenciais para ajustar o processo e demonstrar resultados ao gestor; (6) A adesão dos profissionais de saúde é o fator crítico de sucesso: envolva as equipes no planejamento, valorize o papel do ACS e do técnico de enfermagem como protagonistas da triagem e compartilhe os resultados com toda a equipe regularmente; (7) Do ponto de vista de custos, o equipamento e o laudo remoto representam investimento modesto frente à economia gerada pela redução de encaminhamentos desnecessários e pela antecipação de diagnósticos. Apresente essa análise de custo-efetividade na justificativa ao gestor; (8) Não subestime a conectividade: garanta internet estável nas UBS para transmissão das imagens, e tenha um plano B (como envio posterior na sede administrativa através de Wi-Fi estável ou via rede móvel) para unidades com conexão instável.

autor Principal

Lucas Estefano Cyrillo Leardini

lucascyrillo.edu@gmail.com

Engenheiro Clínico

Coautores

Denizar Vianna Araújo, Alexandre Chater Taleb, Alexandre Antônio Marques Rosa, Rafael Scherer, Leandra Basília de Freitas, Rafaela Oliveira Ferreira, Ralf Ribeiro Santos, Nataly da Rocha Queiroz, Jorge Luiz Diniz Moura Filho

A prática foi aplicada em

Arraial do Cabo

Rio de Janeiro

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Travessa do Ouvidor, n 21 - sala 503 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20040-040, Brasil

Uma organização do tipo

Terceiro Setor

Foi cadastrada por

Lucas Estefano Cyrillo Leardini

Conta vinculada

24 mar 2026

CADASTRO

24 mar 2026

ATUALIZAÇÃO

01 jul 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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