Promoção da saúde sexual de estudantes do ensino superior

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ANA PAULA FERREIRA HOLZMANN

Ana Paula Holzmann

ANA PAULA FERREIRA HOLZMANN

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A experiência é desenvolvida no campus-sede da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), instituição pública de ensino superior localizada em Montes Claros, na região Norte de Minas Gerais. A universidade reúne aproximadamente 8.000 estudantes matriculados em diferentes cursos, períodos e áreas do conhecimento, constituindo um território estratégico para ações de prevenção combinada do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (IST). O contexto atendido é marcado pela intensa circulação de adolescentes e jovens adultos, pela diversidade de trajetórias sociais e vivências afetivo-sexuais e pela ampliação da autonomia e das relações de sociabilidade próprias da vida universitária. Além do campus-sede, a Unimontes possui forte inserção regional e atuação em diferentes municípios do Norte de Minas, o que amplia o potencial de alcance e replicação da experiência.

A iniciativa integra o projeto “Promoção da Saúde Sexual de Estudantes Universitários”, desenvolvido com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), no âmbito da Chamada nº 09/2024, Processo APQ-04364-24. Sua concepção foi fundamentada em resultados de estudo preliminar realizado com estudantes da própria universidade, que evidenciou baixa adesão à testagem, desconhecimento sobre os locais de oferta gratuita de exames, uso inconsistente de preservativos e barreiras de acesso aos serviços de saúde.

O objetivo geral da experiência é promover a saúde sexual dos estudantes e ampliar o acesso às tecnologias de prevenção combinada do HIV e de outras IST no ambiente universitário. Especificamente, busca-se facilitar o acesso à testagem rápida e ao aconselhamento; disponibilizar preservativos, lubrificantes, autotestes e informações sobre PEP e PrEP; desenvolver ações educativas adequadas à linguagem juvenil; reduzir estigmas e barreiras relacionados à sexualidade, ao HIV e às IST; estimular a autonomia e o autocuidado; favorecer o diagnóstico oportuno; e fortalecer a vinculação dos jovens com os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).

A implementação ocorre por meio da articulação entre a Unimontes e a Secretaria Municipal de Saúde de Montes Claros, especialmente com o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). A Secretaria disponibiliza testes rápidos e outros insumos de prevenção e contribui para a capacitação, o aconselhamento, os encaminhamentos e a integração com a rede assistencial. A universidade oferece apoio institucional, espaços físicos e participação de docentes e estudantes de diferentes áreas, possibilitando a integração entre ensino, pesquisa, extensão, inovação tecnológica e cuidado em saúde.

As ações são realizadas em espaços institucionais de fácil acesso no campus e incluem campanhas de testagem rápida, aconselhamento individual, distribuição de insumos, oficinas, rodas de conversa, atividades educativas e culturais, divulgação presencial e comunicação digital. Também são utilizados podcasts, vídeos, entrevistas em rádio, mídias sociais e um chatbot educativo voltado ao esclarecimento de dúvidas sobre sexualidade, IST e prevenção combinada. A diversidade de estratégias procura alcançar diferentes perfis de estudantes e oferecer informações de maneira acessível, atrativa e livre de julgamentos.

A equipe é composta por docentes, profissionais de saúde, bolsistas e estudantes voluntários. Os estudantes participam do planejamento, da divulgação, da mobilização, do acolhimento e das orientações preventivas, fortalecendo o protagonismo juvenil e a comunicação entre pares. Para assegurar a confidencialidade, o aconselhamento individual, a comunicação dos resultados e os encaminhamentos são realizados predominantemente por profissionais capacitados, em ambiente reservado, sem acesso indevido dos estudantes da equipe às informações dos participantes.

A experiência foi estruturada para ultrapassar o caráter pontual das campanhas e incorporar progressivamente a promoção da saúde sexual ao cotidiano universitário. Sua justificativa central está na necessidade de aproximar as tecnologias de prevenção dos espaços efetivamente frequentados pelos jovens. A presença regular das ações no campus favorece a criação de vínculos, reduz gradualmente a vergonha e o estigma e contribui para tornar a testagem, o diálogo sobre sexualidade e o cuidado preventivo práticas mais acessíveis e naturalizadas.

A experiência foi concebida a partir dos resultados de um estudo preliminar desenvolvido no pós-doutoramento da coordenadora do projeto, intitulado “Promoção da saúde sexual de estudantes do ensino superior”, realizado com estudantes da Unimontes. A investigação evidenciou vulnerabilidades importantes relacionadas à prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (IST) e do HIV no ambiente universitário, indicando a necessidade de uma estratégia integrada, acessível e desenvolvida no próprio campus.

Embora estudantes do ensino superior tenham, em geral, maior acesso à informação, os achados demonstraram baixa adesão à testagem, desconhecimento sobre os locais de oferta gratuita de exames e uso inconsistente de preservativos. Mais da metade dos estudantes investigados nunca havia realizado teste para HIV e 46% não sabiam onde poderiam realizar gratuitamente exames para IST. Além disso, o uso de preservativo na última relação sexual foi referido por apenas 37,6% dos participantes com parceiro fixo e por 31,5% daqueles com parceiro eventual.

Outro problema identificado foi a existência de barreiras de acesso aos serviços de saúde. Muitos jovens não procuram a Estratégia Saúde da Família ou outros serviços próximos de sua residência devido à incompatibilidade de horários, à falta de tempo, ao desconhecimento sobre os serviços disponíveis, ao receio de exposição e ao medo de julgamento. Somam-se a essas dificuldades o estigma relacionado à sexualidade, ao HIV e às demais IST e a baixa percepção de risco, que podem retardar ou impedir a busca pela testagem e por outras tecnologias de prevenção.

Diante desse cenário, identificou-se a oportunidade de aproximar as ações do Sistema Único de Saúde do cotidiano universitário, levando ao campus a oferta articulada de testagem, aconselhamento, insumos de prevenção, atividades educativas e orientações sobre prevenção combinada do HIV. A universidade mostrou-se um espaço estratégico para reduzir barreiras de acesso, ampliar a informação, favorecer o diagnóstico oportuno e estimular o autocuidado, especialmente quando as ações são contínuas, sigilosas, acolhedoras e adequadas à linguagem e à realidade dos jovens.

A experiência encontra-se em desenvolvimento e já apresenta resultados parciais relevantes para a consolidação da prevenção combinada do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis no ambiente universitário. Até o momento, foram realizadas sete campanhas de testagem, com aproximadamente 450 estudantes atendidos. As ações incluíram acolhimento, aconselhamento, realização de testes rápidos, distribuição de preservativos, lubrificantes, autotestes e materiais educativos, além de orientações sobre PEP e PrEP e encaminhamentos para a rede pública de saúde, quando necessários.

Também foram desenvolvidas estratégias educativas e de comunicação voltadas às juventudes, incluindo conteúdos em formato de podcast sobre prevenção combinada, duas entrevistas na rádio universitária, dois vídeos institucionais e mobilização presencial e digital por meio do perfil do projeto no Instagram (@saudesexual.universitarios). Como componente de inovação tecnológica, foi desenvolvido um chatbot educativo, disponível em https://drcondom.atoms.world/, destinado ao esclarecimento de dúvidas e à oferta de orientações sobre sexualidade, IST e prevenção combinada. A ferramenta encontra-se em fase de validação por especialistas e pelo público-alvo.

Entre os principais benefícios observados estão a ampliação do acesso à testagem e aos insumos de prevenção, a aproximação dos estudantes com os serviços do SUS e a criação de um espaço universitário de acolhimento, orientação e cuidado livre de julgamentos. A oferta das ações no próprio campus contribui para reduzir barreiras relacionadas à falta de tempo, à incompatibilidade de horários, ao desconhecimento dos serviços disponíveis, ao receio de exposição e ao estigma associado ao HIV e às demais IST.

A continuidade e a presença regular das ações favoreceram, progressivamente, maior aproximação e confiança dos estudantes. Observou-se que participantes já atendidos passaram a divulgar espontaneamente a iniciativa e a retornar acompanhados de colegas, demonstrando o potencial da comunicação entre pares para ampliar o alcance da prática. A participação de estudantes bolsistas e voluntários no acolhimento, na mobilização e nas orientações preventivas também fortaleceu o protagonismo juvenil e tornou a linguagem das atividades mais próxima do público.

Como inovação organizacional, destaca-se a integração entre universidade e rede pública de saúde, articulando ensino, pesquisa, extensão, comunicação, tecnologia e práticas de cuidado. Entre as principais lições da implementação estão a importância da oferta contínua, e não apenas pontual, da garantia de sigilo e privacidade, da capacitação permanente da equipe, da utilização de diferentes linguagens e estratégias educativas e da articulação com serviços de referência para assegurar a continuidade do cuidado. Os resultados obtidos indicam que o ambiente universitário constitui espaço estratégico para ampliar o acesso dos jovens à prevenção combinada e fortalecer sua vinculação com o SUS.

A sustentabilidade da experiência é favorecida pelo financiamento da FAPEMIG, que viabiliza a estruturação inicial das ações, a produção de materiais, o desenvolvimento tecnológico e a organização das atividades educativas e culturais. A continuidade também é fortalecida pela parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Montes Claros, responsável pela disponibilização de testes rápidos, preservativos, lubrificantes, autotestes e outros insumos de prevenção, além da articulação com o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e a rede pública de saúde. A Unimontes apoia a iniciativa por meio da Pró-Reitoria de Extensão e de sua estrutura institucional, favorecendo a incorporação progressiva das ações ao cotidiano universitário. A participação de docentes, profissionais, bolsistas e voluntários contribui para a manutenção das atividades, a formação de multiplicadores e a renovação da equipe.

A experiência apresenta potencial de replicação e pode ser adaptada a outros campi, universidades, institutos federais, escolas de ensino médio e técnico e demais territórios juvenis, mediante articulação com os serviços locais de saúde. Recomenda-se iniciar pela identificação das necessidades e características do público, dos recursos institucionais disponíveis e dos serviços que poderão atuar como parceiros. A pactuação prévia das responsabilidades entre a instituição de ensino e a rede de saúde é fundamental, especialmente quanto ao fornecimento de insumos, à capacitação da equipe, ao aconselhamento, à realização dos testes, ao encaminhamento dos casos reagentes e ao acesso à PEP, à PrEP e a outros serviços de prevenção e cuidado.

É importante escolher locais acessíveis e conhecidos pelos jovens, garantir regularidade às ações e adotar estratégias de comunicação compatíveis com a realidade do público. A experiência mostrou que a presença contínua no campus contribui para reduzir, gradualmente, a vergonha, o medo e o estigma relacionados à testagem e às IST. Por isso, recomenda-se evitar ações exclusivamente pontuais e investir na construção de vínculos, no acolhimento sem julgamentos e na divulgação permanente das atividades.

A confidencialidade deve ser tratada como requisito central. Quando houver participação de estudantes na equipe, especialmente em ambientes nos quais muitos se conhecem, recomenda-se delimitar claramente suas atribuições. Eles podem contribuir para a mobilização, o acolhimento, as orientações preventivas e o apoio à testagem, enquanto o aconselhamento individual, a comunicação dos resultados e os encaminhamentos devem ser realizados por profissionais capacitados, em ambiente reservado e sem acesso indevido às informações dos participantes.

Também se aconselha valorizar o protagonismo juvenil, incorporando estudantes ao planejamento, à divulgação e à execução das atividades, pois a comunicação entre pares amplia a aproximação e a confiança do público. A utilização combinada de testagem, aconselhamento, distribuição de insumos, oficinas, mídias sociais, recursos tecnológicos, rodas de conversa e atividades culturais, como o teatro, favorece o alcance de diferentes grupos e torna a abordagem mais atrativa.

Por fim, recomenda-se registrar sistematicamente as ações e acompanhar indicadores como número de participantes, testes realizados, insumos distribuídos, atividades educativas desenvolvidas, encaminhamentos efetuados e percepção dos usuários. A escuta periódica dos jovens e da equipe permite identificar barreiras, aperfeiçoar as estratégias e adaptar a experiência ao contexto local. Não é necessário iniciar com uma estrutura ampla: a prática pode ser implantada gradualmente, desde que sejam assegurados parceria interinstitucional, capacitação, sigilo, acolhimento, continuidade e integração efetiva com a rede de saúde.

autor Principal

ANA PAULA FERREIRA HOLZMANN

apaulah@uol.com.br

Docente da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e coordenadora do projeto

Coautores

Ana Paula Ferreira Holzmann, Cristiano Leonardo de Oliveira Dias, Edna de Freitas Gomes Ruas, Clara de Cássia Versiani, Neiva Aparecida Marques Diamantino, Cláudia Rocha Biscotto, Janer Aparecida Silveira Soares, Cândida Gonçalves Pimenta, Daiane Fonseca Leal, Heveraldo Rodrigues de Oliveira, Aline Soares Figueiredo Santos, João Paulo Dias Lopes, Josiane dos Santos, Dulce Aparecida Barbosa, Maria Fernanda Batista Rocha, Antônio Lucrécio Barbosa Oliveira, Bianca Pabline Veiga Marinho, Bianca Talita Machado Monteiro, Esther Martins Pereira, Kaiky Guilherme Macedo Santos

A prática foi aplicada em

Montes Claros

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Avenida Professor Rui Braga, s/n - Vila Mauriceia, Montes Claros - MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

ANA PAULA FERREIRA HOLZMANN

Conta vinculada

04 ago 2026

CADASTRO

04 ago 2026

ATUALIZAÇÃO

04 mar 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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