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A experiência é desenvolvida no campus-sede da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), instituição pública de ensino superior localizada em Montes Claros, na região Norte de Minas Gerais. A universidade reúne aproximadamente 8.000 estudantes matriculados em diferentes cursos, períodos e áreas do conhecimento, constituindo um território estratégico para ações de prevenção combinada do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (IST). O contexto atendido é marcado pela intensa circulação de adolescentes e jovens adultos, pela diversidade de trajetórias sociais e vivências afetivo-sexuais e pela ampliação da autonomia e das relações de sociabilidade próprias da vida universitária. Além do campus-sede, a Unimontes possui forte inserção regional e atuação em diferentes municípios do Norte de Minas, o que amplia o potencial de alcance e replicação da experiência.
A iniciativa integra o projeto “Promoção da Saúde Sexual de Estudantes Universitários”, desenvolvido com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), no âmbito da Chamada nº 09/2024, Processo APQ-04364-24. Sua concepção foi fundamentada em resultados de estudo preliminar realizado com estudantes da própria universidade, que evidenciou baixa adesão à testagem, desconhecimento sobre os locais de oferta gratuita de exames, uso inconsistente de preservativos e barreiras de acesso aos serviços de saúde.
O objetivo geral da experiência é promover a saúde sexual dos estudantes e ampliar o acesso às tecnologias de prevenção combinada do HIV e de outras IST no ambiente universitário. Especificamente, busca-se facilitar o acesso à testagem rápida e ao aconselhamento; disponibilizar preservativos, lubrificantes, autotestes e informações sobre PEP e PrEP; desenvolver ações educativas adequadas à linguagem juvenil; reduzir estigmas e barreiras relacionados à sexualidade, ao HIV e às IST; estimular a autonomia e o autocuidado; favorecer o diagnóstico oportuno; e fortalecer a vinculação dos jovens com os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).
A implementação ocorre por meio da articulação entre a Unimontes e a Secretaria Municipal de Saúde de Montes Claros, especialmente com o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). A Secretaria disponibiliza testes rápidos e outros insumos de prevenção e contribui para a capacitação, o aconselhamento, os encaminhamentos e a integração com a rede assistencial. A universidade oferece apoio institucional, espaços físicos e participação de docentes e estudantes de diferentes áreas, possibilitando a integração entre ensino, pesquisa, extensão, inovação tecnológica e cuidado em saúde.
As ações são realizadas em espaços institucionais de fácil acesso no campus e incluem campanhas de testagem rápida, aconselhamento individual, distribuição de insumos, oficinas, rodas de conversa, atividades educativas e culturais, divulgação presencial e comunicação digital. Também são utilizados podcasts, vídeos, entrevistas em rádio, mídias sociais e um chatbot educativo voltado ao esclarecimento de dúvidas sobre sexualidade, IST e prevenção combinada. A diversidade de estratégias procura alcançar diferentes perfis de estudantes e oferecer informações de maneira acessível, atrativa e livre de julgamentos.
A equipe é composta por docentes, profissionais de saúde, bolsistas e estudantes voluntários. Os estudantes participam do planejamento, da divulgação, da mobilização, do acolhimento e das orientações preventivas, fortalecendo o protagonismo juvenil e a comunicação entre pares. Para assegurar a confidencialidade, o aconselhamento individual, a comunicação dos resultados e os encaminhamentos são realizados predominantemente por profissionais capacitados, em ambiente reservado, sem acesso indevido dos estudantes da equipe às informações dos participantes.
A experiência foi estruturada para ultrapassar o caráter pontual das campanhas e incorporar progressivamente a promoção da saúde sexual ao cotidiano universitário. Sua justificativa central está na necessidade de aproximar as tecnologias de prevenção dos espaços efetivamente frequentados pelos jovens. A presença regular das ações no campus favorece a criação de vínculos, reduz gradualmente a vergonha e o estigma e contribui para tornar a testagem, o diálogo sobre sexualidade e o cuidado preventivo práticas mais acessíveis e naturalizadas.
A experiência foi concebida a partir dos resultados de um estudo preliminar desenvolvido no pós-doutoramento da coordenadora do projeto, intitulado “Promoção da saúde sexual de estudantes do ensino superior”, realizado com estudantes da Unimontes. A investigação evidenciou vulnerabilidades importantes relacionadas à prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (IST) e do HIV no ambiente universitário, indicando a necessidade de uma estratégia integrada, acessível e desenvolvida no próprio campus.
Embora estudantes do ensino superior tenham, em geral, maior acesso à informação, os achados demonstraram baixa adesão à testagem, desconhecimento sobre os locais de oferta gratuita de exames e uso inconsistente de preservativos. Mais da metade dos estudantes investigados nunca havia realizado teste para HIV e 46% não sabiam onde poderiam realizar gratuitamente exames para IST. Além disso, o uso de preservativo na última relação sexual foi referido por apenas 37,6% dos participantes com parceiro fixo e por 31,5% daqueles com parceiro eventual.
Outro problema identificado foi a existência de barreiras de acesso aos serviços de saúde. Muitos jovens não procuram a Estratégia Saúde da Família ou outros serviços próximos de sua residência devido à incompatibilidade de horários, à falta de tempo, ao desconhecimento sobre os serviços disponíveis, ao receio de exposição e ao medo de julgamento. Somam-se a essas dificuldades o estigma relacionado à sexualidade, ao HIV e às demais IST e a baixa percepção de risco, que podem retardar ou impedir a busca pela testagem e por outras tecnologias de prevenção.
Diante desse cenário, identificou-se a oportunidade de aproximar as ações do Sistema Único de Saúde do cotidiano universitário, levando ao campus a oferta articulada de testagem, aconselhamento, insumos de prevenção, atividades educativas e orientações sobre prevenção combinada do HIV. A universidade mostrou-se um espaço estratégico para reduzir barreiras de acesso, ampliar a informação, favorecer o diagnóstico oportuno e estimular o autocuidado, especialmente quando as ações são contínuas, sigilosas, acolhedoras e adequadas à linguagem e à realidade dos jovens.
A experiência encontra-se em desenvolvimento e já apresenta resultados parciais relevantes para a consolidação da prevenção combinada do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis no ambiente universitário. Até o momento, foram realizadas sete campanhas de testagem, com aproximadamente 450 estudantes atendidos. As ações incluíram acolhimento, aconselhamento, realização de testes rápidos, distribuição de preservativos, lubrificantes, autotestes e materiais educativos, além de orientações sobre PEP e PrEP e encaminhamentos para a rede pública de saúde, quando necessários.
Também foram desenvolvidas estratégias educativas e de comunicação voltadas às juventudes, incluindo conteúdos em formato de podcast sobre prevenção combinada, duas entrevistas na rádio universitária, dois vídeos institucionais e mobilização presencial e digital por meio do perfil do projeto no Instagram (@saudesexual.universitarios). Como componente de inovação tecnológica, foi desenvolvido um chatbot educativo, disponível em https://drcondom.atoms.world/, destinado ao esclarecimento de dúvidas e à oferta de orientações sobre sexualidade, IST e prevenção combinada. A ferramenta encontra-se em fase de validação por especialistas e pelo público-alvo.
Entre os principais benefícios observados estão a ampliação do acesso à testagem e aos insumos de prevenção, a aproximação dos estudantes com os serviços do SUS e a criação de um espaço universitário de acolhimento, orientação e cuidado livre de julgamentos. A oferta das ações no próprio campus contribui para reduzir barreiras relacionadas à falta de tempo, à incompatibilidade de horários, ao desconhecimento dos serviços disponíveis, ao receio de exposição e ao estigma associado ao HIV e às demais IST.
A continuidade e a presença regular das ações favoreceram, progressivamente, maior aproximação e confiança dos estudantes. Observou-se que participantes já atendidos passaram a divulgar espontaneamente a iniciativa e a retornar acompanhados de colegas, demonstrando o potencial da comunicação entre pares para ampliar o alcance da prática. A participação de estudantes bolsistas e voluntários no acolhimento, na mobilização e nas orientações preventivas também fortaleceu o protagonismo juvenil e tornou a linguagem das atividades mais próxima do público.
Como inovação organizacional, destaca-se a integração entre universidade e rede pública de saúde, articulando ensino, pesquisa, extensão, comunicação, tecnologia e práticas de cuidado. Entre as principais lições da implementação estão a importância da oferta contínua, e não apenas pontual, da garantia de sigilo e privacidade, da capacitação permanente da equipe, da utilização de diferentes linguagens e estratégias educativas e da articulação com serviços de referência para assegurar a continuidade do cuidado. Os resultados obtidos indicam que o ambiente universitário constitui espaço estratégico para ampliar o acesso dos jovens à prevenção combinada e fortalecer sua vinculação com o SUS.
A sustentabilidade da experiência é favorecida pelo financiamento da FAPEMIG, que viabiliza a estruturação inicial das ações, a produção de materiais, o desenvolvimento tecnológico e a organização das atividades educativas e culturais. A continuidade também é fortalecida pela parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Montes Claros, responsável pela disponibilização de testes rápidos, preservativos, lubrificantes, autotestes e outros insumos de prevenção, além da articulação com o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e a rede pública de saúde. A Unimontes apoia a iniciativa por meio da Pró-Reitoria de Extensão e de sua estrutura institucional, favorecendo a incorporação progressiva das ações ao cotidiano universitário. A participação de docentes, profissionais, bolsistas e voluntários contribui para a manutenção das atividades, a formação de multiplicadores e a renovação da equipe.
A experiência apresenta potencial de replicação e pode ser adaptada a outros campi, universidades, institutos federais, escolas de ensino médio e técnico e demais territórios juvenis, mediante articulação com os serviços locais de saúde. Recomenda-se iniciar pela identificação das necessidades e características do público, dos recursos institucionais disponíveis e dos serviços que poderão atuar como parceiros. A pactuação prévia das responsabilidades entre a instituição de ensino e a rede de saúde é fundamental, especialmente quanto ao fornecimento de insumos, à capacitação da equipe, ao aconselhamento, à realização dos testes, ao encaminhamento dos casos reagentes e ao acesso à PEP, à PrEP e a outros serviços de prevenção e cuidado.
É importante escolher locais acessíveis e conhecidos pelos jovens, garantir regularidade às ações e adotar estratégias de comunicação compatíveis com a realidade do público. A experiência mostrou que a presença contínua no campus contribui para reduzir, gradualmente, a vergonha, o medo e o estigma relacionados à testagem e às IST. Por isso, recomenda-se evitar ações exclusivamente pontuais e investir na construção de vínculos, no acolhimento sem julgamentos e na divulgação permanente das atividades.
A confidencialidade deve ser tratada como requisito central. Quando houver participação de estudantes na equipe, especialmente em ambientes nos quais muitos se conhecem, recomenda-se delimitar claramente suas atribuições. Eles podem contribuir para a mobilização, o acolhimento, as orientações preventivas e o apoio à testagem, enquanto o aconselhamento individual, a comunicação dos resultados e os encaminhamentos devem ser realizados por profissionais capacitados, em ambiente reservado e sem acesso indevido às informações dos participantes.
Também se aconselha valorizar o protagonismo juvenil, incorporando estudantes ao planejamento, à divulgação e à execução das atividades, pois a comunicação entre pares amplia a aproximação e a confiança do público. A utilização combinada de testagem, aconselhamento, distribuição de insumos, oficinas, mídias sociais, recursos tecnológicos, rodas de conversa e atividades culturais, como o teatro, favorece o alcance de diferentes grupos e torna a abordagem mais atrativa.
Por fim, recomenda-se registrar sistematicamente as ações e acompanhar indicadores como número de participantes, testes realizados, insumos distribuídos, atividades educativas desenvolvidas, encaminhamentos efetuados e percepção dos usuários. A escuta periódica dos jovens e da equipe permite identificar barreiras, aperfeiçoar as estratégias e adaptar a experiência ao contexto local. Não é necessário iniciar com uma estrutura ampla: a prática pode ser implantada gradualmente, desde que sejam assegurados parceria interinstitucional, capacitação, sigilo, acolhimento, continuidade e integração efetiva com a rede de saúde.
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