A Estratégia de Saúde da Família (ESF) Lagoa, localizada na periferia de Irati, é responsável por atender uma população de 6.785 habitantes, dos quais 1.113 são beneficiários de programas sociais. O território é heterogêneo, abrangendo áreas rurais e urbanas além de dois assentamentos de povos ciganos, com condições de saneamento básico precárias.
A equipe da ESF é composta por 3 médicos, 2 cirurgiões-dentistas, 1 auxiliar de consultório odontológico, 5 técnicos de enfermagem, 1 enfermeiro, 3 agentes de endemias, 3 agentes comunitários de saúde, destes profissionais, apenas o enfermeiro e dois técnicos em enfermagem eram capacitados para a execução do teste rápido das IST’s, e ofertavam a testagem por livre demanda na UBS.
A partir da identificação na queda do número de testagens rápidas para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C realizadas pela Atenção Básica do município, especialmente pela ESF da Lagoa, mesmo com todas as estratégias de intervenções realizadas na tentativa de reverter este indicador, emerge uma inquietude sobre a modalidade de treinamento para novos executores de teste rápido empregada atualmente. Voltada apenas para profissionais da saúde de nível superior e técnicos em enfermagem, o atual modelo de treinamento utiliza uma abordagem tradicional, técnica e que não levava em consideração o contexto social e cultura em que cada UBS está inserida.
Foi aí que surgiu a ideia de elaborar um processo formativo mais abrangente, que contemplasse todas as estratégias da prevenção combinada e que fosse voltado para todos os profissionais atuantes na Atenção básica.
Em formato de oficina e intitulada “Imersão a Mandala da Prevenção Combinada”, a intervenção foi realizada in loco, na sala de reuniões da ESF Lagoa e contou com a participação de toda a equipe da APS, entre médicos, enfermeiros, odontólogos, técnico em enfermagem e agentes comunitários de saúde.
A intervenção foi uma parceria entre o Serviço de Atendimento Especializado e Centro de Testagem e Aconselhamento de Irati (SAE CTA de Irati), a ESF Lagoa, e o Departamento de Psicologia da Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO).
Foram 4 encontros ao longo de 2 meses, todos realizados às sextas-feiras no período da tarde (período onde o fluxo de usuários é reduzido), cada encontro com carga horária de 3 horas e contaram com a presença de 100% dos profissionais de saúde da ESF.
O conteúdo programático da oficina abordou temas como acolhimento e aconselhamento para a testagem rápida e testagem focalizada para o HIV (populações chaves e vulneráveis), conceitos básicos sobre identidade de gênero, expressão de gênero, orientação sexual, prescrição e manejo da PEP, PrEP HIV e oferta do Autoteste HIV, guia prático da execução de teste rápido do HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C e aula prática de execução do teste rápido.
O objetivo geral da intervenção foi a ampliação do acesso a testagem rápida e de outras ferramentas de prevenção combinada na APS. Já os objetivos específicos foram capacitar novos executores de teste rápido, matriciar as equipes para identificar no território as populações chaves e vulneráveis bem como o reconhecimento a diversidade da população adstrita; capacitar os profissionais médicos e enfermeiros na prescrição e acompanhamento clínico da PEP e da PrEP, difundir entre toda a equipe os novos conceitos de prevenção como o Tratamento para Todas as Pessoas e Indetectável =Intransmissível, dialogar com toda a equipe da ESF Lagoa sobre a diversidade sexual e de gênero da população adstrita e enfretamento a discriminação institucional, como a racismo, homofobia, transfobia, machismo,etc.
A partir da identificação na queda do número de testagens rápidas para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C realizadas pela Atenção Básica do município, especialmente pela ESF da Lagoa, mesmo com todas as estratégias de intervenções realizadas na tentativa de reverter este indicador, emerge uma inquietude sobre a modalidade de treinamento para novos executores de teste rápido empregada atualmente.
A partir disso, surgem algumas perguntas norteadoras: Somente o treinamento de alguns profissionais que compõem o quadro das equipes de Atenção Básica para a execução dos testes rápidos ampliaria de fato o acesso e número de testagem? Como fomentar um processo formativo que aborde o teste rápido e também as outras tecnologias de prevenção ao HIV e outras IST’s, através da prevenção combinada? Como fomentar uma cultura de prevenção mais ampla e inclusiva, de respeito às diversidades sexuais e de gênero entre os profissionais que atuam na Atenção Básica?
Tomando como base esses questionamentos, surgiu a ideia de elaborar um novo modelo de treinamento para novos executores de testagem rápida, que fosse voltado para todos os profissionais que atuam na Atenção Básica e que utilizasse uma abordagem metodológica humanística e sociocultural.
Além da ampliação do acesso a novas ferramentas de prevenção na APS, como a descentralização da prescrição da PEP e da PrEP HIV para a primeira ESF do município, cuja população adstrita é majoritariamente composta por populações vulneráveis, foi possível perceber um aumento de 56% no número de usuários testados no segundo quadrimestre de 2025 em comparação ao mesmo quadrimestre do ano anterior
Também foi possível observar o engajamento dos profissionais frente a temática apresentada, através do relato feito, por uma profissional de saúde participante, no formulário de pesquisa de satisfação aplicado ao final da oficina:
“Desde o primeiro encontro o conteúdo apresentado foi interativo, claro e objetivo… Além de formar testadores também foi uma capacitação para aprendermos a detectar as populações chaves e prioritárias, entendendo como é avaliado o risco e a vulnerabilidade (vulnerabilidades aumentadas por interferência de fatores), diferenciando a oferta do aconselhamento e da medicação e as intervenções que podem ser realizadas. A aula prática também foi muito proveitosa, além da dificuldade com o manuseio e com a coleta do material, sei que a realização consecutiva do exame trará a habilidade.”
No transcorrer da Oficina, houveram questionamentos por parte da comunidade sobre a restrição da agenda durante 4 períodos ao longo dos 2 meses, porém após explicar sobre a importância dessa oficina para a promoção da educação continuada dos profissionais, a comunidade entendeu e apoiou o evento. Outra questão que surgiu foi como abordar junto a equipe temas que poderiam trazer alguns atravessamentos do ponto de vista cultural, moral e histórico, mas que ao final se mostrou uma experiência rica, onde foi possível quebrar paradigmas, desconstruir estereótipos e tabus sobre a diversidade sexual e de gênero dentro na APS.
Utilizar novas abordagens e metodologias de Educação Continuada, voltada para as equipes da APS sobre a temática da prevenção combinadas ao HIV e a outras IST’s, possibilitou uma formação de promoção à inclusão e ao respeito à diversidade sexual e de gênero.
Uma equipe inclusiva e bem informada fortalece o vínculo com o usuário, através do estabelecimento de uma relação de confiança e satisfação e isso reflete no aumento da adesão e na continuidade do cuidado pelos usuários, como a testagem periódica, o uso de profilaxias e o acompanhamento de contatos.
Através da oficina realizada, a equipe foi capaz de identificar as populações chaves e vulneráveis no território, o que possibilitou a elaboração de intervenções de prevenção e diagnóstico precoce focadas para este público.
Por fim, destaca-se também a melhoria nos indicadores de testagem rápida, que possibilitam a detecção precoce de novos casos de HIV e outras IST’s e consequentemente, a vinculação no SAE e a instituição do tratamento em tempo oportuno.
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