Intervenção educativa sobre IST com escolares de 15 a 19 anos no município de Vitória da Conquista: uma pesquisa-ação num centro de referência

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Anna Carolina Saúde Dantas

Carol Saude

Anna Carolina Saúde Dantas

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A adolescência é um período marcado por intensas transformações biopsicossociais, no qual a construção da autonomia, das relações afetivas e da identidade sexual ocorre de forma simultânea ao desenvolvimento de comportamentos que podem aumentar a vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (IST). Embora os adolescentes estejam constantemente expostos a informações por diferentes meios, ainda persistem barreiras relacionadas ao diálogo sobre sexualidade, ao acesso a informações confiáveis e à aproximação com os serviços de saúde. O estigma, a vergonha, os tabus culturais e o desconhecimento dos direitos e das estratégias de prevenção frequentemente dificultam o cuidado em saúde sexual e reprodutiva, sobretudo entre jovens residentes em territórios socialmente vulneráveis e em áreas rurais.
Foi diante dessa realidade que nasceu o projeto Informar é Prevenir, desenvolvido por meio da parceria entre o Centro de Atenção e Apoio à Vida (Caav) e a Universidade Federal da Bahia (Ufba), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB/SECTI), por meio do Edital TBSUS nº 010/2022. A iniciativa partiu da compreensão de que falar sobre prevenção exige muito mais do que transmitir informações: é necessário criar espaços seguros de escuta, acolhimento e participação, nos quais adolescentes e jovens possam expressar dúvidas, compartilhar experiências e construir conhecimentos de forma coletiva.
A experiência teve como objetivo promover a educação em saúde sexual e a prevenção das IST entre adolescentes e jovens de 15 a 19 anos, utilizando metodologias participativas e a educação por pares como estratégias para fortalecer o protagonismo juvenil e aproximar esse público dos serviços de saúde. Como objetivos específicos, buscou fortalecer o vínculo dos adolescentes com o Caav, divulgar os serviços ofertados pelo SUS, estimular a participação ativa dos estudantes nas ações educativas e ofertar testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites virais, garantindo acolhimento, sigilo, encaminhamento e continuidade do cuidado aos casos reagentes.
O projeto foi desenvolvido em diferentes espaços educacionais e comunitários do município de Vitória da Conquista (BA), abrangendo escolas públicas urbanas e rurais, instituições de ensino técnico, universidades públicas e privadas e ações comunitárias realizadas em parceria com o Caav. Também integrou importantes campanhas municipais de promoção da saúde e prevenção das IST, como Outubro Rosa e Verde, Dezembro Vermelho e Março Lilás, ampliando o alcance das atividades e fortalecendo a presença do SUS em diferentes territórios.
Desde sua concepção, a proposta foi estruturada para romper com modelos tradicionais de educação em saúde baseados exclusivamente na transmissão de conteúdos. As ações foram planejadas para favorecer o diálogo, a escuta qualificada e a construção compartilhada do conhecimento, valorizando os adolescentes como protagonistas do processo educativo.
As atividades ocorreram por meio de rodas de conversa, dinâmicas participativas, debates e estandes educativos, utilizando recursos lúdicos capazes de estimular a interação e reduzir as barreiras frequentemente associadas às discussões sobre sexualidade. Entre as metodologias empregadas destacaram-se perguntas em balões coloridos, plaquinhas de “verdadeiro ou falso”, roleta educativa, caixas para dúvidas anônimas, folders ilustrativos, banners educativos e materiais interativos que estimularam a participação espontânea dos estudantes.
A utilização de linguagem acessível, ambientes acolhedores e metodologias participativas favoreceu a construção de espaços de confiança, permitindo que temas frequentemente silenciados fossem discutidos de forma aberta, respeitosa e livre de julgamentos. As dúvidas apresentadas pelos adolescentes orientavam as discussões e permitiam adequar cada atividade às necessidades específicas de cada grupo.
Um dos principais diferenciais da experiência foi a utilização da educação por pares. Estudantes de graduação da Universidade Federal da Bahia, previamente capacitados, atuaram como extensionistas nas atividades educativas. A proximidade geracional favoreceu maior identificação entre extensionistas e adolescentes, reduzindo a hierarquização das relações e tornando o diálogo mais natural, acolhedor e participativo. Essa estratégia fortaleceu o protagonismo juvenil e demonstrou o potencial da juventude como agente multiplicador de conhecimento e promoção da saúde.
Durante todas as ações foram abordadas as estratégias de prevenção combinada das IST. A Mandala da Prevenção Combinada tornou-se um importante recurso pedagógico, sendo utilizada como elemento central de um dos banners do projeto para apresentar, de forma simples e visual, as diferentes possibilidades de prevenção disponíveis no SUS. A partir dela, os adolescentes eram orientados sobre o uso de preservativos internos e externos, vacinação contra HPV e hepatites, testagem regular, tratamento das IST, Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e demais estratégias de cuidado, compreendendo a prevenção como um conjunto de ações complementares e não como uma medida isolada.
Além das atividades presenciais, foi criada a mídia social @informareprevenir_ , ampliando o alcance da experiência para o ambiente digital. O perfil passou a divulgar conteúdos educativos produzidos em linguagem acessível, com identidade visual inspirada nas cores da Mandala da Prevenção Combinada, permitindo que os adolescentes mantivessem contato com informações confiáveis mesmo após os encontros presenciais. A utilização das redes sociais fortaleceu a comunicação contínua com o público juvenil e ampliou o potencial educativo da iniciativa.
Outro importante diferencial da experiência foi a integração entre educação em saúde e assistência. Durante diversas atividades foram ofertados testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites virais, além da distribuição de preservativos internos e externos, gel lubrificante e materiais educativos. Os adolescentes que apresentaram resultados reagentes foram acolhidos e encaminhados para acompanhamento no Caav, garantindo acesso ao diagnóstico, tratamento e seguimento clínico. As ações também divulgaram outros serviços disponíveis no SUS, como vacinação, PrEP, PEP e acompanhamento multiprofissional, fortalecendo o vínculo dos jovens com a rede pública de saúde.
Ao longo do desenvolvimento do projeto, as estratégias foram sendo adaptadas às características de cada instituição parceira e às necessidades identificadas em cada território. Além das salas de aula, as atividades passaram a ocorrer em auditórios, áreas de convivência, feiras de saúde e estandes educativos, demonstrando a flexibilidade da metodologia e sua capacidade de adaptação a diferentes contextos.
A experiência evidenciou que metodologias participativas e recursos lúdicos favorecem maior envolvimento dos adolescentes nas discussões sobre sexualidade e prevenção das IST. A utilização de perguntas anônimas, jogos educativos e rodas de conversa reduziu constrangimentos, ampliou o diálogo e fortaleceu a participação dos estudantes, que passaram a demonstrar maior interesse pelos serviços ofertados pelo Caav e pelas estratégias de prevenção disponíveis no SUS.
Também ficou evidente que a aproximação entre escola, universidade e serviço de saúde amplia significativamente o acesso dos adolescentes às ações de promoção da saúde e prevenção das IST. A presença da equipe do Caav nos espaços educacionais contribuiu para reduzir a distância entre os jovens e os serviços especializados, favorecendo o acesso à testagem rápida, à vacinação, à prevenção combinada e ao cuidado integral.
A experiência também proporcionou importantes contribuições para a formação dos estudantes extensionistas, que vivenciaram práticas interdisciplinares, desenvolveram competências em educação em saúde, comunicação, acolhimento e trabalho em equipe e fortaleceram sua compreensão sobre o papel social da universidade e do SUS.
O desenvolvimento da iniciativa contou com a atuação integrada de profissionais do Caav — entre eles enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de enfermagem e técnicos de laboratório —, docentes e estudantes dos cursos de Enfermagem, Farmácia, Biologia e Psicologia da Ufba. Os recursos financeiros provenientes do Edital TBSUS nº 010/2022 possibilitaram a aquisição de materiais educativos, testes rápidos, preservativos, gel lubrificante, banners, folders, brindes e mascotes confeccionados em crochê representando o HIV e o Treponema pallidum, que passaram a integrar as estratégias educativas de maneira lúdica e acolhedora.
A experiência demonstrou elevado potencial de sustentabilidade por utilizar metodologias de baixo custo, facilmente reproduzíveis e adaptáveis a diferentes realidades. Sua principal fortaleza está na articulação entre escola, universidade e serviço de saúde, na valorização da educação por pares e na integração entre ações educativas e oferta de cuidado. Esses elementos permitem que a iniciativa seja replicada em outros municípios brasileiros, respeitando as especificidades de cada território e fortalecendo a promoção da saúde sexual entre adolescentes.
Mais do que desenvolver atividades educativas, o projeto contribuiu para fortalecer os princípios do SUS ao promover integralidade, equidade, participação social e cuidado centrado nas necessidades dos adolescentes. Ao transformar escolas e espaços comunitários em ambientes de diálogo, acolhimento e construção coletiva do conhecimento, a experiência aproximou os jovens dos serviços públicos de saúde, fortaleceu o protagonismo juvenil e demonstrou que a integração entre ensino, serviço e comunidade constitui uma estratégia potente para ampliar o acesso à prevenção, reduzir vulnerabilidades e promover uma cultura de cuidado em saúde sexual entre adolescentes e jovens.

O projeto surgiu da necessidade de ampliar ações de educação em saúde voltadas a adolescentes e jovens de 15 a 19 anos, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidades relacionadas à saúde sexual e dificuldades de acesso a informações qualificadas sobre prevenção de IST. A adolescência corresponde a um período marcado por intensas transformações biológicas, psicológicas e sociais, no qual questões relacionadas à sexualidade assumem centralidade na construção das identidades, vínculos e formas de interação social. Deste modo, adolescentes e jovens permanecem expostos a diferentes vulnerabilidades relacionadas à saúde sexual e reprodutiva, especialmente diante da circulação de desinformação, da dificuldade de acesso a informações qualificadas e da persistência de tabus que atravessam o debate sobre sexualidade nos espaços familiares, escolares e comunitários. Entre 2012 e 2023, foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) 132.138 casos de sífilis adquirida entre adolescentes de 13 a 19 anos, além de aproximadamente 16.200 casos de HIV nessa faixa etária, evidenciando a persistência das IST entre adolescentes no Brasil. Esses dados reforçam a necessidade de fortalecer ações educativas, ampliar estratégias de prevenção e promover maior acesso ao cuidado em saúde. Estudos também apontam fragilidades persistentes relacionadas ao conhecimento sobre IST e suas formas de prevenção, associadas à redução do uso de preservativos e à dificuldade de acesso a informações confiáveis sobre saúde sexual. Embora existam serviços especializados, como o CAAV, ainda permanecem limitações relacionadas ao alcance das ações educativas e ao conhecimento dos adolescentes sobre os serviços disponíveis no território e as possibilidades de acesso ao cuidado.

Como resultados alcançados, o projeto realizou ações em 10 locais diferentes, incluindo cinco escolas estaduais das zonas urbana e rural de Vitória da Conquista, utilizando cerca de 7 tipos de abordagens educativas e preventivas. Foram abordadas aproximadamente 40 turmas em salas de aula e auditórios, alcançando diretamente 1.640 estudantes, além de 1.362 adolescentes que participaram das dinâmicas nos estandes educativos. O projeto também realizou 661 testagens rápidas para HIV, sífilis e hepatites virais, identificando 6 adolescentes com resultado positivo para sífilis, posteriormente encaminhados ao CAAV, confirmados e tratados conforme os protocolos do Ministério da Saúde. Outro resultado relevante foi a implementação de testagem regular no campus da UFBA, realizada semanalmente às sextas-feiras. De forma indireta, observou-se aumento da procura espontânea de jovens pelos serviços do Caav. A avaliação contínua evidenciou boa receptividade das ações, participação ativa dos estudantes e interesse recorrente por novas intervenções nas instituições participantes. A experiência também reforçou o potencial formativo da extensão universitária, especialmente no desenvolvimento de habilidades relacionadas à comunicação, escuta qualificada, trabalho em equipe e atuação no SUS. Entretanto, persistiram desafios importantes, como a limitação de tempo disponibilizado pelas instituições, a dificuldade de garantir múltiplos encontros e as barreiras culturais relacionadas à sexualidade, que ainda ocupa espaço secundário em muitos contextos escolares. Além disso, vergonha, medo de julgamento e desinformação mostraram-se fatores ainda presentes no acesso à prevenção, testagem e cuidado em saúde, evidenciando a necessidade de fortalecer políticas públicas intersetoriais e ampliar espaços de diálogo sobre sexualidade entre adolescentes.

A principal recomendação para equipes interessadas em desenvolver uma experiência semelhante é compreender que ações de promoção da saúde sexual com adolescentes exigem, antes de tudo, a construção de vínculos de confiança. Mais do que transmitir informações, é fundamental criar espaços acolhedores, seguros e livres de julgamentos, nos quais os jovens se sintam à vontade para compartilhar dúvidas, experiências e necessidades. A utilização de metodologias participativas e recursos lúdicos favorece o diálogo e amplia significativamente o interesse e o envolvimento dos participantes.
Outra orientação importante é investir na formação dos facilitadores. A experiência demonstrou que a educação por pares potencializa o processo educativo, pois reduz barreiras hierárquicas. Capacitações prévias sobre comunicação, escuta qualificada, sexualidade, diversidade, prevenção combinada e acolhimento são fundamentais para garantir abordagens respeitosas e baseadas em evidências. Manter parcerias com instituições de ensino superior pode permitir a educação por pares, capacitando estudantes de nível superior de modo a facilitar a comunicação e favorecer maior identificação entre os adolescentes e os extensionistas.
Também recomendamos estabelecer parcerias sólidas entre serviços de saúde, instituições de ensino e gestores locais desde o planejamento da iniciativa. A articulação entre escola, universidade e SUS amplia o alcance das ações, fortalece a integração ensino-serviço-comunidade e facilita o encaminhamento dos adolescentes para os serviços de saúde quando necessário. O envolvimento da gestão escolar é igualmente importante para permitir e promover a realização das ações, além de adequar as atividades à rotina das instituições e garantir maior adesão dos estudantes.
Outro aspecto relevante é adaptar continuamente as estratégias ao perfil do público e às características de cada território. Não existe uma metodologia única capaz de atender todas as realidades. Recursos simples, como rodas de conversa, jogos educativos, perguntas anônimas, materiais ilustrativos e dinâmicas interativas, podem produzir excelentes resultados quando utilizados de forma sensível e participativa. Da mesma forma, a utilização de mídias sociais que utilize a linguagem próxima do adolescente amplia o alcance das ações e mantém um canal permanente de comunicação com este público, fortalecendo o processo educativo para além dos encontros presenciais.
Sempre que possível, recomenda-se integrar as atividades educativas à oferta de serviços do SUS, como testagem rápida para IST, vacinação, distribuição de preservativos, orientação sobre prevenção combinada, Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e encaminhamento para acompanhamento especializado. Essa integração fortalece o cuidado integral, aproxima os adolescentes da rede de saúde e transforma a educação em uma porta de entrada para o acesso aos serviços.
Por fim, é importante compreender que iniciativas dessa natureza não exigem estruturas complexas. O sucesso da experiência esteve muito relacionado ao comprometimento da equipe, ao trabalho colaborativo entre diferentes instituições, ao protagonismo juvenil e à capacidade de adaptação das metodologias somado à disponibilidade de recursos materiais de elaboração simples. Experiências construídas com escuta, participação social e respeito às especificidades locais apresentam grande potencial de sustentabilidade e podem ser reproduzidas em diferentes municípios, contribuindo para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde e para a promoção da saúde sexual de adolescentes e jovens.

autor Principal

Anna Carolina Saúde Dantas

carolsaude5@hotmail.com

Coordenação do Projeto/Bioquímica do Centro de Atenção e Apoio a Vida

Coautores

Anna Carolina Saúde Dantas, Kamila Dantas Vicente, Edilane Oliveira Borges, Andreia Sousa Ribeiro, Silvia Andreia Azevedo Alves, Danielle Souto de Medeiros, Guilherme Barreto Campos, Lucas Miranda Marques

A prática foi aplicada em

Vitória da Conquista

Bahia

Nordeste

Esta prática está vinculada a

Praça João Gonçalves - Centro, Vitória da Conquista - BA, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Anna Carolina Saúde Dantas

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17 jul 2026

CADASTRO

17 jul 2026

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