Ateliê dos Sonhos: economia popular solidária como estratégia de reabilitação psicossocial

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Luiza Agostini de Andrade

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Luiza Agostini de Andrade

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APRESENTAÇÃO

“Ateliê dos Sonhos” constitui uma prática de gestão e cuidado em saúde mental desenvolvida no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município de Muriaé, cidade da Zona da Mata Mineira, com cerca de 110 mil habitantes, compõe a macrorregião de saúde SUDESTE. No Centro de Atenção Psicossocial III (CAPS III) – Adélia Bizzo Xaia a iniciativa foi implantada em 10 de março de 2025 e configura-se como uma estratégia de reabilitação psicossocial por meio de iniciativas de geração de trabalho e renda, articulado às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e da política municipal de saúde mental.
O projeto foi concebido em um contexto marcado por usuários em vulnerabilidade socioeconômica entre usuários e usuárias do CAPS III, com histórico de desemprego, subemprego, longos períodos de ociosidade e recorrentes internações psiquiátricas. Tal cenário repercute negativamente sobre a autonomia, a autoestima, a construção de vínculos sociais e o projeto de vida dessas pessoas, produzindo dependência prolongada dos serviços e agravando fatores associados à exclusão social.
A equipe multiprofissional identificou a ausência de dispositivos que articulem, de forma sistemática, cuidado em saúde mental e inclusão produtiva, de modo a deslocar o trabalho do lugar de mera atividade ocupacional para uma estratégia concreta de geração de renda, reconhecimento social e participação cidadã
O público beneficiário é composto por 15 integrantes vinculados ao CAPS III, com perfis diversos em termos de idade, gênero, condições socioeconômicas, histórico de sofrimento psíquico e experiências de internação. Trata-se, em sua maioria, de pessoas em situação de vulnerabilidade social, com baixa inserção no mercado formal de trabalho e forte exposição a processos de estigmatização. Sob a mesma perspectiva. A prática incide, portanto, sobre determinantes sociais da saúde e sobre dimensões demográficas, sociopolíticas e culturais que impactam diretamente a qualidade de vida dessa população.

OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Promover reabilitação psicossocial de usuários(a) do CAPS III de Muriaé através da implantação e consolidação de um empreendimento de economia popular solidária, autogestionário e cooperativo, que articule cuidado em saúde mental, geração de trabalho e renda e fortalecimento de vínculos comunitários.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
● Ofertar um espaço coletivo de produção, encontro e convivência para pessoas em sofrimento psíquico vinculadas ao CAPS III, integrando a participação deles, aos seus Projetos Terapêuticos Singulares.
● Desenvolver atividades produtivas em artesanato, com ênfase em práticas sustentáveis e na valorização de saberes populares, visando à geração complementar de renda.
● Fortalecer a autonomia e o protagonismo dos integrantes nas decisões sobre produção, gestão, comercialização e distribuição da renda, em consonância com os princípios da economia popular solidária.
● Favorecer a inserção social dos participantes por meio da participação regular em feiras municipais, eventos públicos e ações comunitárias promovidas pela prefeitura e por parceiros locais.
● Reduzir o estigma associado ao sofrimento psíquico e à loucura, aproximando a população em geral das pessoas em cuidado na RAPS, por meio da visibilidade de seus produtos e da circulação no território.
● Estimular a construção de reflexões críticas sobre desigualdades sociais, racismo, sexismo e outras formas de discriminação, incorporando ações afirmativas e de equidade na composição e na dinâmica do grupo.

METODOLOGIA
A prática é iniciada pela identificação e convite de usuários com indicação via discussão de equipe e PTS, acolhimento dos interessados, apresentação dos princípios da economia popular solidária e pactuação inicial de regras de convivência e funcionamento. Planejamos de forma coletiva as atividades (definição de produtos, materiais, calendário de oficinas, metas de produção e participação em feiras). Na realização das oficinas produtivas, com divisão de tarefas, apoio técnico e acompanhamento terapêutico pela equipe, organização logística e participação em feiras e eventos municipais, com montagem de banca, exposição e venda dos produtos. Registro de produção, vendas, custos e receitas, com discussão coletiva da distribuição da renda e do reinvestimento em insumos e pôr fim a avaliação periódica da prática com participação dos integrantes e da equipe.
As atividades produtivas concentram-se na confecção de tapetes com retalhos, bordados em panos de prato, peças com materiais recicláveis, costura e crochê, entre outros produtos. As oficinas utilizam técnicas de artesanato que permitem adaptações conforme o ritmo, as habilidades e as limitações de cada participante, evitando sobrecargas e respeitando os tempos singulares de trabalho, utilizando matérias ofertados pelo CAPS III e Secretaria Municipal de Saúde podendo reinvestir uma parcela da renda obtida com as vendas.
Participam diretamente da prática os 15 integrantes do coletivo e profissionais do CAPS III. Indiretamente, a prática envolve a gestão da Secretaria Municipal de Saúde, outros pontos da RAPS, a participação em feiras e eventos municipais organizados por outras secretarias municipais para a comercialização dos produtos.
Do ponto de vista da sustentabilidade, a prática busca consolidar um modelo que compatibilize a geração de renda com a manutenção de um ambiente de cuidado, evitando metas de produtividade incompatíveis com a condição de saúde dos participantes. A utilização de materiais recicláveis e de baixo custo reduz despesas e reforça o caráter sustentável e replicável da ação em outros municípios com recursos limitados.

A prática surgiu a partir da identificação, pela equipe do CAPS III, de um cenário persistente de vulnerabilidade socioeconômica entre os usuários, marcado por desemprego, subemprego, baixa inserção no mercado formal de trabalho e longos períodos de ociosidade. Associado a isso, observava-se a recorrência de internações psiquiátricas e a fragilidade dos vínculos familiares e comunitários, fatores que comprometiam diretamente a autonomia, a autoestima e a construção de projetos de vida mais estáveis.
Esse contexto evidenciou não apenas a necessidade de cuidado clínico, mas também a ausência de dispositivos que integrassem, de maneira efetiva, o cuidado em saúde mental com estratégias de inclusão produtiva e geração de renda. As ações existentes, muitas vezes restritas a atividades ocupacionais, mostravam-se insuficientes para promover transformação social e reconhecimento desses sujeitos em outros espaços da vida em sociedade.
Diante disso, emergiu a oportunidade de aperfeiçoar as práticas da Rede de Atenção Psicossocial, incorporando iniciativas que valorizassem o protagonismo dos usuários, ampliassem sua participação no território e contribuíssem para a redução do estigma associado ao sofrimento psíquico, por meio da articulação entre cuidado, trabalho e cidadania.

Os resultados da prática abrangem dimensões clínicas, sociais e econômicas. Em termos qualitativos, observam-se: aumento da participação dos usuários nas atividades do CAPS III, fortalecimento do vínculo com a equipe, melhora da autoestima e da percepção de autoeficácia, ampliação da circulação em espaços públicos e fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Relatos dos participantes evidenciam que a possibilidade de produzir e comercializar seus próprios produtos contribui para a construção de um novo lugar social, para além da identidade de “paciente”.
A inserção do Ateliê dos Sonhos em feiras e eventos municipais amplia a visibilidade da RAPS e atua na redução do estigma relacionado ao sofrimento psíquico, ao permitir que a população conheça a capacidade criativa e produtiva das pessoas em cuidado em saúde mental.
Os resultados econômicos, embora ainda complementares, já representam incremento significativo na renda de alguns participantes, especialmente aqueles em situação de maior vulnerabilidade. A renda é distribuída segundo critérios definidos coletivamente, considerando a participação nas etapas de produção, organização e comercialização, preservando princípios de justiça e solidariedade.
Do ponto de vista da gestão pública, a prática contribui para a qualificação da RAPS, para a redução de internações desnecessárias e para o fortalecimento da lógica territorial e comunitária do cuidado, com potencial impacto na otimização de recursos e na melhoria da qualidade do serviço prestado à população. O reconhecimento do Ateliê dos Sonhos em uma chamada pública nacional dedicada à geração de trabalho associativo na RAPS sinaliza que a experiência local de Muriaé dialoga com agendas estratégicas do SUS e com a política nacional de saúde mental e economia solidária (FIOCRUZ BRASÍLIA; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2024).

Para implementar prática semelhante, é essencial conhecer a Rede de Atenção Psicossocial do município e articular o projeto aos serviços já existentes, integrando-o aos Projetos Terapêuticos Singulares. Comece com um grupo piloto, respeitando o ritmo e as singularidades dos participantes, e invista em planejamento coletivo, com definição compartilhada das regras, produção e divisão de renda, fortalecendo a autogestão. Otimize ações municipais já existentes, como a participação em feiras do município e outras atividades públicas, ampliando a visibilidade e a inserção social dos participantes. Priorize atividades produtivas de baixo custo e adaptáveis, inclusive com uso de materiais recicláveis, e estabeleça parcerias locais. Por fim, mantenha avaliação contínua, equilibrando geração de renda com o cuidado em saúde mental e evidenciando para os participantes o resultado alcançado em cada etapa, promovendo autonomia e senso de pertencimento no território e no projeto realizado.

autor Principal

Luiza Agostini de Andrade

luizaagostini@yahoo.com.br

Secretária de Saúde de Muriaé

Coautores

Luiza Agostini de Andrade, Matheus Alves Souto

A prática foi aplicada em

Muriaé

Minas Gerais

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Av. Maestro Sansão, 236 - Centro, Muriaé - MG, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Luiza Agostini de Andrade

Conta vinculada

06 maio 2026

CADASTRO

06 maio 2026

ATUALIZAÇÃO

11 mar 2025

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

Arquivos