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APRESENTAÇÃO
“Ateliê dos Sonhos” constitui uma prática de gestão e cuidado em saúde mental desenvolvida no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do município de Muriaé, cidade da Zona da Mata Mineira, com cerca de 110 mil habitantes, compõe a macrorregião de saúde SUDESTE. No Centro de Atenção Psicossocial III (CAPS III) – Adélia Bizzo Xaia a iniciativa foi implantada em 10 de março de 2025 e configura-se como uma estratégia de reabilitação psicossocial por meio de iniciativas de geração de trabalho e renda, articulado às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e da política municipal de saúde mental.
O projeto foi concebido em um contexto marcado por usuários em vulnerabilidade socioeconômica entre usuários e usuárias do CAPS III, com histórico de desemprego, subemprego, longos períodos de ociosidade e recorrentes internações psiquiátricas. Tal cenário repercute negativamente sobre a autonomia, a autoestima, a construção de vínculos sociais e o projeto de vida dessas pessoas, produzindo dependência prolongada dos serviços e agravando fatores associados à exclusão social.
A equipe multiprofissional identificou a ausência de dispositivos que articulem, de forma sistemática, cuidado em saúde mental e inclusão produtiva, de modo a deslocar o trabalho do lugar de mera atividade ocupacional para uma estratégia concreta de geração de renda, reconhecimento social e participação cidadã
O público beneficiário é composto por 15 integrantes vinculados ao CAPS III, com perfis diversos em termos de idade, gênero, condições socioeconômicas, histórico de sofrimento psíquico e experiências de internação. Trata-se, em sua maioria, de pessoas em situação de vulnerabilidade social, com baixa inserção no mercado formal de trabalho e forte exposição a processos de estigmatização. Sob a mesma perspectiva. A prática incide, portanto, sobre determinantes sociais da saúde e sobre dimensões demográficas, sociopolíticas e culturais que impactam diretamente a qualidade de vida dessa população.
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Promover reabilitação psicossocial de usuários(a) do CAPS III de Muriaé através da implantação e consolidação de um empreendimento de economia popular solidária, autogestionário e cooperativo, que articule cuidado em saúde mental, geração de trabalho e renda e fortalecimento de vínculos comunitários.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
● Ofertar um espaço coletivo de produção, encontro e convivência para pessoas em sofrimento psíquico vinculadas ao CAPS III, integrando a participação deles, aos seus Projetos Terapêuticos Singulares.
● Desenvolver atividades produtivas em artesanato, com ênfase em práticas sustentáveis e na valorização de saberes populares, visando à geração complementar de renda.
● Fortalecer a autonomia e o protagonismo dos integrantes nas decisões sobre produção, gestão, comercialização e distribuição da renda, em consonância com os princípios da economia popular solidária.
● Favorecer a inserção social dos participantes por meio da participação regular em feiras municipais, eventos públicos e ações comunitárias promovidas pela prefeitura e por parceiros locais.
● Reduzir o estigma associado ao sofrimento psíquico e à loucura, aproximando a população em geral das pessoas em cuidado na RAPS, por meio da visibilidade de seus produtos e da circulação no território.
● Estimular a construção de reflexões críticas sobre desigualdades sociais, racismo, sexismo e outras formas de discriminação, incorporando ações afirmativas e de equidade na composição e na dinâmica do grupo.
METODOLOGIA
A prática é iniciada pela identificação e convite de usuários com indicação via discussão de equipe e PTS, acolhimento dos interessados, apresentação dos princípios da economia popular solidária e pactuação inicial de regras de convivência e funcionamento. Planejamos de forma coletiva as atividades (definição de produtos, materiais, calendário de oficinas, metas de produção e participação em feiras). Na realização das oficinas produtivas, com divisão de tarefas, apoio técnico e acompanhamento terapêutico pela equipe, organização logística e participação em feiras e eventos municipais, com montagem de banca, exposição e venda dos produtos. Registro de produção, vendas, custos e receitas, com discussão coletiva da distribuição da renda e do reinvestimento em insumos e pôr fim a avaliação periódica da prática com participação dos integrantes e da equipe.
As atividades produtivas concentram-se na confecção de tapetes com retalhos, bordados em panos de prato, peças com materiais recicláveis, costura e crochê, entre outros produtos. As oficinas utilizam técnicas de artesanato que permitem adaptações conforme o ritmo, as habilidades e as limitações de cada participante, evitando sobrecargas e respeitando os tempos singulares de trabalho, utilizando matérias ofertados pelo CAPS III e Secretaria Municipal de Saúde podendo reinvestir uma parcela da renda obtida com as vendas.
Participam diretamente da prática os 15 integrantes do coletivo e profissionais do CAPS III. Indiretamente, a prática envolve a gestão da Secretaria Municipal de Saúde, outros pontos da RAPS, a participação em feiras e eventos municipais organizados por outras secretarias municipais para a comercialização dos produtos.
Do ponto de vista da sustentabilidade, a prática busca consolidar um modelo que compatibilize a geração de renda com a manutenção de um ambiente de cuidado, evitando metas de produtividade incompatíveis com a condição de saúde dos participantes. A utilização de materiais recicláveis e de baixo custo reduz despesas e reforça o caráter sustentável e replicável da ação em outros municípios com recursos limitados.
A prática surgiu a partir da identificação, pela equipe do CAPS III, de um cenário persistente de vulnerabilidade socioeconômica entre os usuários, marcado por desemprego, subemprego, baixa inserção no mercado formal de trabalho e longos períodos de ociosidade. Associado a isso, observava-se a recorrência de internações psiquiátricas e a fragilidade dos vínculos familiares e comunitários, fatores que comprometiam diretamente a autonomia, a autoestima e a construção de projetos de vida mais estáveis.
Esse contexto evidenciou não apenas a necessidade de cuidado clínico, mas também a ausência de dispositivos que integrassem, de maneira efetiva, o cuidado em saúde mental com estratégias de inclusão produtiva e geração de renda. As ações existentes, muitas vezes restritas a atividades ocupacionais, mostravam-se insuficientes para promover transformação social e reconhecimento desses sujeitos em outros espaços da vida em sociedade.
Diante disso, emergiu a oportunidade de aperfeiçoar as práticas da Rede de Atenção Psicossocial, incorporando iniciativas que valorizassem o protagonismo dos usuários, ampliassem sua participação no território e contribuíssem para a redução do estigma associado ao sofrimento psíquico, por meio da articulação entre cuidado, trabalho e cidadania.
Os resultados da prática abrangem dimensões clínicas, sociais e econômicas. Em termos qualitativos, observam-se: aumento da participação dos usuários nas atividades do CAPS III, fortalecimento do vínculo com a equipe, melhora da autoestima e da percepção de autoeficácia, ampliação da circulação em espaços públicos e fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Relatos dos participantes evidenciam que a possibilidade de produzir e comercializar seus próprios produtos contribui para a construção de um novo lugar social, para além da identidade de “paciente”.
A inserção do Ateliê dos Sonhos em feiras e eventos municipais amplia a visibilidade da RAPS e atua na redução do estigma relacionado ao sofrimento psíquico, ao permitir que a população conheça a capacidade criativa e produtiva das pessoas em cuidado em saúde mental.
Os resultados econômicos, embora ainda complementares, já representam incremento significativo na renda de alguns participantes, especialmente aqueles em situação de maior vulnerabilidade. A renda é distribuída segundo critérios definidos coletivamente, considerando a participação nas etapas de produção, organização e comercialização, preservando princípios de justiça e solidariedade.
Do ponto de vista da gestão pública, a prática contribui para a qualificação da RAPS, para a redução de internações desnecessárias e para o fortalecimento da lógica territorial e comunitária do cuidado, com potencial impacto na otimização de recursos e na melhoria da qualidade do serviço prestado à população. O reconhecimento do Ateliê dos Sonhos em uma chamada pública nacional dedicada à geração de trabalho associativo na RAPS sinaliza que a experiência local de Muriaé dialoga com agendas estratégicas do SUS e com a política nacional de saúde mental e economia solidária (FIOCRUZ BRASÍLIA; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2024).
Para implementar prática semelhante, é essencial conhecer a Rede de Atenção Psicossocial do município e articular o projeto aos serviços já existentes, integrando-o aos Projetos Terapêuticos Singulares. Comece com um grupo piloto, respeitando o ritmo e as singularidades dos participantes, e invista em planejamento coletivo, com definição compartilhada das regras, produção e divisão de renda, fortalecendo a autogestão. Otimize ações municipais já existentes, como a participação em feiras do município e outras atividades públicas, ampliando a visibilidade e a inserção social dos participantes. Priorize atividades produtivas de baixo custo e adaptáveis, inclusive com uso de materiais recicláveis, e estabeleça parcerias locais. Por fim, mantenha avaliação contínua, equilibrando geração de renda com o cuidado em saúde mental e evidenciando para os participantes o resultado alcançado em cada etapa, promovendo autonomia e senso de pertencimento no território e no projeto realizado.
Av. Maestro Sansão, 236 - Centro, Muriaé - MG, Brasil
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