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Entre as atividades ofertadas pelo Centro de Convivência e Cooperativa (Cecco) de Mogi das Cruzes, nasceu um espaço de pausa: a Oficina de Meditação Atenção Plena. Conduzida por uma psicóloga integrante da equipe técnica do serviço, a iniciativa nasceu com o objetivo de aproximar a prática meditativa do cotidiano dos usuários. Convidando cada participante a ancorar-se no momento presente, a oficina pode constituir-se em uma estratégia de apoio à autorregulação emocional a partir da percepção da respiração, do reconhecimento dos pensamentos, da observação das emoções e da possibilidade de dar respostas com maior consciência aos acontecimentos cotidianos.
A atividade foi concebida considerando a premissa da acessibilidade universal e do cuidado sem barreiras. As portas estão abertas para todas as pessoas, sem distinção. Os encontros são semanais e, para garantir o fluxo contínuo e a inclusão programada, os novos integrantes são acolhidos no encontro da primeira semana de cada mês. Não há filas ou listas de espera; a entrada é livre mediante a manifestação do interesse, momento em que o usuário é informado da data de ingresso.
O grupo se caracteriza pela pluralidade, sendo composto por pessoas de todos os gêneros, contemplando tanto a população geral quanto os usuários da Rede de Atenção Psicossocial do território.
A oficina se organiza em ciclos de oito semanas e os encontros, com duração de 60 minutos, se estruturam da seguinte forma: acolhimento inicial, orientação da prática, experiência meditativa, retomada gradual da atenção ao ambiente e espaço de partilha. Após os oito encontros, havendo interesse e disponibilidade dentro do espaço físico, o usuário pode decidir pela permanência ou não na atividade, que é um espaço de orientação para a prática bem como para a manutenção da prática de forma coletiva.
A condução lança mão de práticas respiratórias e estratégias clássicas da meditação da Atenção Plena, mas vai além: compreendendo que a prática meditativa não precisa ocorrer exclusivamente com os olhos fechados, em silêncio ou com foco na respiração, são ofertadas alternativas que podem ampliar a acessibilidade para pessoas com diferentes necessidades, preferências e formas de experimentar o ambiente, utilizando recursos sensoriais diversos, como imagens, objetos, óleos essenciais, elementos da natureza, sons, entre outros, que exploram o tato, a audição, a visão, o olfato e o paladar, estimulando a atenção consciente por meio dos sentidos. Esses recursos são dinamizados conforme as singularidades do grupo. Ao final de cada sessão, abre-se um espaço de partilha afetiva, momento em que os participantes, se assim desejarem, podem expressar verbalmente a experiência do dia e o modo como têm integrado a presença plena em suas vidas diárias.
É importante destacar que a meditação está oficialmente inserida no rol de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) do Sistema Único de Saúde (SUS). Por se tratar de uma PICS, a oficina atua de forma transversal e multiprofissional, utilizando abordagens terapêuticas baseadas em evidências científicas para promover a prevenção de agravos e a recuperação da saúde, sem qualquer vínculo religioso ou dogmático.
A celeridade da vida urbana, o peso do adoecimento mental e o bombardeio constante de estímulos externos têm gerado um cenário de significativa desconexão. A ansiedade, a ruminação mental e a reatividade emocional têm se apresentado como desafios no cotidiano contemporâneo. O sofrimento psíquico frequentemente afasta as pessoas de si mesmas e do contato com o outro e com o ambiente ao redor.
O Cecco — historicamente voltado à convivência e à saúde comunitária — é apropriado para oferecer atividades que se constituam em possibilidades de cuidado, amparando a comunidade a desenvolver recursos para lidar com as emoções incrementando espaços coletivos de convivência acessíveis que favoreçam o cuidado compartilhado onde cada sujeito possa observar a si mesmo através da respiração e dos sentidos. O equipamento oferece também a infraestrutura acolhedora, com vocação de socialização, para disponibilizar uma prática de baixo custo operacional, alta replicabilidade. Muitas pessoas buscam alternativas de autocuidado, mas enfrentam barreiras financeiras ou falta de orientação; a oficina gratuita democratiza o acesso à saúde mental e fortalece os vínculos comunitários e a autonomia dos usuários.
Os resultados observados com a prática traduzem-se em bem-estar e fortalecimento de vínculos. Nos espaços de partilha os participantes fazem relatos de percepções de maior capacidade de lidar com emoções e referem aumento da consciência para lidar com os desafios cotidianos. Como outras atividades do Cecco, a oficina se articula às demais atividades de convivência, cultura, lazer, expressão e participação comunitária cooperando no enfrentamento ao estigma ao unir a população geral e os usuários da saúde mental em uma mesma roda onde se observa que os integrantes se respeitam, se amparam e se identificam, promovendo a inclusão social através da igualdade humana do respirar.
As verbalizações ao final dos encontros transformaram-se em um termômetro poético da intervenção, demonstrando que a meditação não é um ato de isolamento, mas de conexão. O incentivo à autonomia dos participantes para que utilizem técnicas simples de respiração e atenção plena de forma independente em suas rotinas diárias favorece a promoção da emancipação no cuidado em saúde.
Quanto aos resultados esperados, como ampliação progressiva no autocuidado, maior familiaridade com práticas de atenção plena, fortalecimento continuado dos vínculos e incorporação das técnicas à rotina, este último especialmente tem se demonstrado como um desafio. Esse achado abre uma questão prática: como ajudar os participantes a reconhecer oportunidades reais de utilizar a atenção plena fora da oficina?
Algumas possibilidades consideradas para enfrentar esse desafio é oferecer propostas de exercícios breves para o cotidiano, ampliando a possibilidade de relacionar a prática às atividades habituais — como caminhar, comer ou lavar as mãos — e explorando as percepções em cada encontro.
A oficina não oferece uma promessa de transformação imediata: ela constrói um espaço de experimentação, escuta e convivência, no qual a autonomia é incentivada e os desafios de continuidade são reconhecidos.
Apresentar a meditação de forma simples, laica e despida de associações místicas ou religiosas, focando na experiência sensorial e corporal pode favorecer a curiosidade dos participantes, reduzindo possíveis resistências à prática.
Adotar o acolhimento de porta aberta reduz barreiras burocráticas. Definir uma semana fixa no mês para o acesso de novos integrantes organiza o grupo sem criar a exclusão e a ansiedade de uma lista de espera. Explorar a multissensorialidade a partir de elementos simples da natureza, músicas, aromas ou texturas pode amparar as pessoas com mentes muito agitadas a fixarem a atenção no presente. Esse recurso também pode trazer a prática para o cotidiano dos usuários, rompendo com a ideia de que são necessárias condições muito específicas para a meditação.
A oferta de um espaço para a palavra num ambiente seguro e livre de julgamentos para as partilhas após o silêncio pode ser tão terapêutico quanto a meditação em si.
Rua Francisco Franco, 291 - Centro, Mogi das Cruzes - SP, Brasil
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