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Compondo a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) do município desde 2010, o Cecco, Centro de Convivência e Cooperativa, se consolidou como um expressivo dispositivo promotor de cuidado em liberdade, autonomia, inclusão social e protagonismo por meio das atividades e oficinas coordenadas tradicionalmente por profissionais de saúde mental como psicólogas, terapeuta ocupacional, oficineira e voluntários. Com o reordenamento dos serviços em saúde no município, passou a integrar o serviço profissional de enfermagem, ampliando o aspecto multiprofissional da equipe. Atuando de forma integrada com a proposta de reabilitação psicossocial e promoção da saúde, a equipe se mobilizou para articular propostas que contemplasse o rol de conhecimentos dessa nova área ampliando possibilidades de oferta de cuidado. Diante da nova realidade, foi concebida a Oficina Saúde e Bem-Estar, que articula convivência, Educação em Saúde e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS).
A oficina, que ocorre uma vez por semana com encontros de 90 minutos, se estrutura em 10 encontros. No primeiro encontro promove-se a integração entre os participantes e apresenta-se a proposta da atividade; em seguida faz-se uma anamnese para se conhecer as condições de saúde geral dos participantes. Usando um formulário concebido pela Coordenação Municipal de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde registra-se a queixa inicial e faz-se uma avaliação subjetiva dos aspectos emocionais e físicos para a condução do cuidado com Auriculoterapia. Entre o segundo e o nono encontro são abordados os temas em saúde organizados a partir das características do grupo. No último encontro faz-se uma avaliação geral do processo, dando voz a cada integrante. Cada encontro é organizado integrando um momento teórico-reflexivo que aborda o tema de Educação em Saúde com curadoria e facilitação conduzida pela enfermeira, que vai adaptando as abordagens conforme a características do grupo. A aplicação da Auriculoterapia é feita com foco no alívio de sintomas físicos e emocionais apontados pelos participantes em avaliação conduzida pela voluntária em MTC no primeiro encontro. À medida que ocorram desistências, novos integrantes podem compor o grupo, uma vez que os temas propostos são rotativos, assim, cada integrante sempre será contemplando por 10 encontros, independente do momento que passa a integrar o grupo.
Foi elaborada a seguinte relação de temas de Educação em Saúde:
– Alimentação Saudável e Atividade Física (ESTILO DE VIDA)
– Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e Higiene Pessoal (PREVENÇÃO DE INFECÇÕES)
– Prevenção ao Suicídio, Combate à Depressão e Ansiedade (SAÚDE MENTAL)
– Saúde da Mulher (Menopausa), Idosos e Doenças Crônicas Não Transmissíveis (Diabetes, Hipertensão, Obesidade) (CICLOS DE VIDA E DOENÇAS CRÔNICAS)
– Prevenção de Diferentes Tipos de Câncer (Mama, Próstata e Colo de Útero) (ONCOLOGIA)
– Vigilância em Saúde (Vacinação, Combate a Arboviroses e Monitoramento de Infecções) (VIGILÂNCIA)
– Organização da Rede Assistencial Local e Fluxos de Atendimento (CIDADANIA)
Os Centros de Convivência e Cooperativa atuam na intersecção entre a saúde mental, atenção básica e a inclusão social. Historicamente, há um desafio em criar espaços que consigam desestigmatizar o cuidado em saúde mental e, ao mesmo tempo, gerenciar as comorbidades físicas que afetam os usuários crônicos da rede. Essa realidade associada à alta incidência de transtornos de ansiedade e depressão, somada ao avanço de doenças crônicas como diabetes e hipertensão arterial na população, exige uma resposta coordenada que vá além do modelo biomédico tradicional.
A composição da equipe do Cecco com profissional de enfermagem amplia a oferta de cuidado, uma vez que os profissionais dessa área são importantes promotores de saúde; assim, a inserção desses profissionais à equipe amplia a oferta do cuidado integral abrindo uma janela de oportunidade para fortalecer as ações de vigilância epidemiológica e educação continuada no território. Paralelamente, a incorporação de uma voluntária em MTC atende às diretrizes da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do SUS, oferecendo suporte terapêutico não farmacológico que reduz o estresse, as dores crônicas e potencializa a adesão aos tratamentos convencionais, mitigando as barreiras de acesso da comunidade a ações integradas de bem-estar.
Associada à Educação em Saúde, que contribui para o desenvolvimento e fortalecimento da consciência crítica e autonomia dos usuários, favorecendo a possibilidade de adoção de hábitos saudáveis, a prevenção de doenças e a participação ativa no próprio cuidado, a Auriculoterapia, prática da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), oferece a possibilidade de ampliar o cuidado de questões físicas, mentais e emocionais a partir do estímulo de pontos específicos do pavilhão auricular. Compreende-se que as duas práticas associadas potencializam o cuidado e a tecnologia da convivência favorece a troca de saberes, a socialização e integração a partir do encontro grupal.
Os temas em Educação e Saúde reúnem práticas de prevenção, bem-estar e cidadania. Isso favorece a compreensão de que o aprendizado e o cuidado com a saúde surgem do encontro entre as pessoas, da troca de experiências e da valorização do saber popular.
No espaço coletivo, onde a relação se estabelece de forma horizontal, os saberes circulam de modo dinâmico entre todos os envolvidos. Essa relação estimula a autonomia de modo que cada participante amplie o entendimento o próprio corpo e da sua realidade, fortalecendo sua confiança para o autocuidado e o cuidado compartilhado. Ainda nessa dinâmica relacional, os facilitadores dialogam diretamente com as singularidades dos sujeitos, reconhecendo suas vulnerabilidades, bem como as do território, favorecendo a ampliação do vínculo e a efetiva literacia em saúde.
A oficina concebida por um trio de profissionais de distintas áreas (enfermagem-psicologia-MTC) e conduzida pela dupla enfermeira-voluntária ampliou a oferta do cuidado uma vez que cada profissional tem a possibilidade de lançar o seu olhar técnico sobre a dinâmica dos usuários; essa dinâmica de trabalho tem potencial para fortalece os profissionais, que se sentem amparados para acolher, em equipe, as demandas surgidas no espaço da oficina. Observou-se fortalecimento do vínculo e integração de equipe que discute os casos e organiza a atuação de forma colaborativa; observa-se integração bem-sucedida da nova enfermeira junto à comunidade e a consolidação da parceria técnico-voluntária como modelo reprodutível de oferta do cuidado.
A Educação em Saúde envolve a troca de saberes entre facilitadores da oficina e os usuários do serviço, respeitando e acolhendo a trajetória e a realidade de cada um. As trocas extrapolam a esfera técnica, ampliando-se para os usuários compartilharem saberes ancestrais e culturais bem como “produtos” colhidos no quintal. Os integrantes da oficina referiram melhora nos quadros de dor, insônia e ansiedade crônica por meio da aplicação contínua dos protocolos de auriculoterapia clínica.
Observa-se ampliação do letramento em saúde, os participantes ampliam a aptidão para identificar sintomas de agravos crônicos, compreender calendários vacinais e adotar medidas práticas domiciliares para efetivo cuidado individual e coletivo, no âmbito privado e comunitário.
A Oficina Saúde e Bem-Estar vem se consolidando como um espaço potente de cuidado integral. A atividade, concebida e conduzida por profissionais de áreas distintas combate a sobrecarga e o isolamento dos profissionais, muitas vezes observados nos serviços de Saúde Mental e favorece o fortalecimento da equipe e a integração entre os técnicos e destes com os usuários do serviço a partir da troca de saberes.
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