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A subnotificação de agravos ocupacionais mascara o real perfil epidemiológico e inviabiliza o planejamento de políticas públicas de saúde eficazes. No município de Divinésia, Minas Gerais — cidade de interior com 4.226 habitantes, constatou-se inicialmente um profundo silêncio epidemiológico nos registros oficiais para diversas patologias relacionadas ao trabalho. Contudo, era sabido empiricamente pelas equipes que os casos reais existiam no território, evidenciando uma grave discrepância entre o adoecimento dos trabalhadores na ponta e os dados inseridos no sistema de saúde. Essa contradição inaceitável gerou a necessidade urgente de uma abordagem estruturada. Frente a essa justificativa, a experiência foi estruturada com o objetivo de implementar capacitações interprofissionais para mitigar a subnotificação, alinhar os registros à realidade do território e promover a prevenção de agravos ocupacionais. A implementação da prática teve como pilar a educação permanente, promovida e liderada pela Coordenação de Vigilância em Saúde do Trabalhador. O desenvolvimento ocorreu ao longo dos anos de 2024 e 2025, período em que se realizaram duas capacitações por semestre para cada grupo profissional. Para garantir a adesão e o entendimento prático, as abordagens ocorreram in loco, descentralizando-se para os locais de atuação: unidades de saúde, salões de beleza, clínicas de fisioterapia, laboratórios de análises clínicas e a secretaria municipal de saúde.A experiência alcançou um público-alvo total de 45 profissionais capacitados, englobando médicos, enfermeiros, psiquiatra, técnicos de enfermagem, recepcionistas, fisioterapeuta, psicólogos, agentes comunitários de saúde e gestores. A ação metodológica focou na discussão de casos reais da comunidade, no treinamento para o correto preenchimento do código da causa do adoecimento ou acidente (CID-10) e no apoio técnico contínuo. Essa estratégia configurou uma metodologia de fácil replicação, capacitando as equipes para qualificar o diagnóstico e estabelecer o nexo causal adequado.
A subnotificação de agravos ocupacionais configurou-se como um grave problema no município de Divinésia (MG), pois mascara o real perfil epidemiológico e inviabiliza o planejamento de políticas preventivas eficazes. Apesar de a cidade possuir 4.226 habitantes, constatou-se inicialmente um profundo silêncio epidemiológico nos registros oficiais para diversas patologias associadas ao trabalho.
As equipes da Atenção Primária sabiam empiricamente que o adoecimento existia no território, evidenciando uma grave discrepância entre a realidade enfrentada pelos trabalhadores na ponta e os dados inseridos nos sistemas de informação do SUS. Esse apagão documental impedia o mapeamento de riscos e a proteção efetiva da saúde do trabalhador.
Diante dessa contradição, identificou-se a oportunidade de aperfeiçoamento nas rotinas de Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT). A necessidade urgente que moveu os autores foi a de romper essa invisibilidade documental por meio da educação permanente, capacitando as equipes interprofissionais para refinar a suspeição clínica, estabelecer corretamente o nexo causal e preencher adequadamente as notificações compulsórias (CID-10). O problema da subnotificação motivou a ação de qualificar os dados para que refletissem a realidade, transformando a percepção empírica em informações fidedignas para fundamentar ações de vigilância e prevenção em saúde.
A análise da série histórica (2023-2026) confirmou uma efetiva quebra de paradigma clínico e informacional no município. Antes da intervenção, o sistema era dominado exclusivamente por agravos agudos e apresentava um profundo silêncio epidemiológico sobre patologias crônicas. A partir da implantação das capacitações, a prática gerou resultados transformadores, destacando-se:
Despertar para o adoecimento silencioso: Já em 2024, registrou-se de forma inédita o primeiro caso de LER/DORT da série histórica, além de 3 notificações de transtornos mentais associados ao trabalho e 6 acidentes com animais peçonhentos classificados corretamente como ocupacionais.
Consolidação da cultura de notificação: Em 2025, a continuidade e fixação do treinamento elevaram as notificações de transtornos mentais para 5 casos e as de acidentes com animais peçonhentos para 10, refletindo com muito mais precisão o real perfil epidemiológico do território.
Impacto preventivo e Biossegurança: O uso da informação qualificada gerou ações imediatas de proteção nas unidades. Como resultado de maior impacto, os acidentes com exposição a material biológico — que somavam 18 casos em 2023 — caíram drasticamente para zero em 2025, mantendo-se zerados em todo o primeiro trimestre de 2026.
Inovações e Lições da Implementação: A principal inovação foi utilizar a educação interprofissional in loco não apenas como treinamento técnico, mas como ferramenta estratégica de gestão da informação. A grande lição aprendida pela equipe foi que capacitar a base rompe a invisibilidade documental e transforma a percepção empírica em dados fidedignos. O sucesso na eliminação dos acidentes biológicos provou, na prática, que qualificar o dado reflete diretamente na prevenção de agravos e na proteção efetiva e real da saúde do trabalhador.
Para facilitar a implementação de uma prática similar em outros municípios, os autores recomendam as seguintes estratégias fundamentais:
Descentralizar o treinamento (in loco): a principal dica é levar a educação permanente para dentro dos próprios espaços de atuação dos profissionais. O treinamento no local de trabalho aumenta significativamente a adesão e permite adaptar o conteúdo à realidade daquela equipe.
Adotar uma abordagem interprofissional: a vigilância em saúde não é responsabilidade de apenas uma categoria. Envolva toda a rede, desde recepcionistas e agentes comunitários até técnicos, enfermeiros, médicos e gestores. O olhar plural facilita a identificação do nexo causal.
Transformar a ação em um processo contínuo: a quebra do silêncio epidemiológico não acontece com apenas um evento. É imprescindível que o plano de educação em saúde seja permanente, com ciclos semestrais de atualização e suporte técnico constante por parte da coordenação de vigilância.
Integrar APS e Vigilância: promova uma forte e constante articulação entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e a Vigilância em Saúde (VS). É essa parceria que transforma a percepção empírica do adoecimento dos trabalhadores na ponta em dados fidedignos para a gestão planejar ações preventivas eficazes.
Secretaria Municipal de Saúde de Divinésia - Praça Padre Nelson Tafuri - Centro, Divinésia - MG, Brasil
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