Fioflix Resenha: Nossa Casa

Ana Karolina

Publicado em 
Maria Paula Bernardino (estágio supervisionado VideoSaude)

Existe um tipo de cuidado que dificilmente ocupa o centro das narrativas: aquele exercido por quem permanece nos bastidores e que sustenta silenciosamente a vida de alguém que depende de atenção diária. Nossa casa, produção presente no amplo catálogo da Fioflix, a plataforma de filmes da VideoSaúde da Fiocruz, brilha ao partir dessa zona de invisibilidade para tensionar uma pergunta incômoda e de urgência: quem cuida de quem cuida? A produção, realizada em parceria com a Plataforma IdeiaSUS Fiocruz, busca instigar uma reflexão a respeito do peso emocional, social e até político do cuidado contínuo, quase sempre naturalizado e, em grande parte, negligenciado.

Ainda por esse caminho, o filme provoca uma perspectiva de dimensão coletiva; o cuidado como prática atravessada por gênero, afeto e exaustão. Em um espaço de protagonismo feminino no âmbito do cuidado, o papel de coadjuvante dos processos terapêuticos atribuídos a essas mulheres perde força e sentido quando se percebe que, para além disso, são pessoas que acumulam cansaços, renúncias e silêncio. A obra sugere, por meio disso, uma crítica à romantização do cuidado que inviabiliza as consequências dessa entrega diária, como o esgotamento físico e psíquico. Desse modo, Nossa casa propõe centralizar também aqueles que orbitam o cuidado, dando voz e posição, além de questionar até que ponto o cuidado pode se sustentar sem atenção mútua.

O filme tem como ponto de partida o projeto Grupo Familiar de Atenção Psicossocial que atua com base no princípio de cuidar de quem cuida, iniciativa do Caps Fernando Diniz, localizado na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. O grupo acolhe pessoas, em sua maioria mulheres, que dedicam sua vida a familiares necessitados de cuidado e atenção diária. O projeto proporciona que essas pessoas, para além de se dedicar quase que exclusivamente ao outro, estabeleçam um contato que extrapola o íntimo do próprio lar a fim de encontrar um espaço de escuta que se traduz em um espaço de cuidado, acima de tudo. É primordial salientar a ideia firmada no imaginário de muitos cuidadores; a necessidade de permanecer forte sem sequer demonstrar esgotamento físico ou muito menos abalo mental, um silenciamento da sua própria necessidade em prol da necessidade do outro. Mas, na verdade, o cansaço, durante todo o processo terapêutico dedicado ao familiar, abraça fortemente aqueles que cuidam, abrindo alas para o peso do cuidado que não é, de nenhum jeito, sensibilizado por quem orbita essa relação, principalmente o próprio cuidador. Por isso, fica evidente a necessidade de desdobrar e atribuir peso à questão que centraliza a discussão provocada pelo documentário: quem cuida, recebe cuidado? Os debates realizados por aquelas que cuidam no projeto do Caps Fernando Diniz, traduzem com clareza a pressão que as envolvem diariamente e as deslocam para uma realidade onde se tornam peças centrais e norteadoras dos familiares que dedicam cuidado. É dado que essas pessoas situadas na condição de entrega plena ao outro, não se destacam como carecidas de cuidado, desencadeando a inviabilização das suas necessidades físicas e psicológicas, não enaltecendo a importância do seu próprio bem estar.

Essa perspectiva é injusta ao pensar que atribuir atenção ao outro torna-se mais significante do que conceder zelo a si mesmo, transformando o cuidado em algo seletivo. Entre o silêncio e a renúncia que paira sobre a vida de inúmeras mulheres que cuidam do seus filhos, maridos, pais e irmãos, é a negligência que circunda os seus dias.

Nesse contexto, torna-se importante a existência de um espaço que discuta o tema com sensibilidade e acolhimento, porque fica evidente que para promover cuidado, o cuidador necessita, acima de tudo, estar bem. Realidade que o Grupo Familiar de Atenção Psicossocial busca promover a partir dos encontros semanais com as cuidadoras participantes do projeto. A partir das conversas que compartilham, elas encontram um lugar de apoio e reconhecimento, onde constroem juntas a percepção de que também precisam de cuidado, traçando caminhos que as entrelaçam a fim de se tornarem o suporte que tanto precisam. Um espaço simples mas que oportuniza trocas sinceras e sensíveis e que carrega uma possibilidade potente de proporcionar o bem estar individual. Para além dos quatro cantos do Caps Fernando Diniz, notar com sensibilidade a realidade que nos cerca, é o primeiro passo para responder a pergunta central do filme, em que o olhar atento às relações que nos envolvem é crucial para entender quem, além do óbvio, precisa de cuidado. A avó que cuida com amor imenso do esposo ou a mãe que se dedica por inteiro pelo filho, são exemplos do cotidiano que permanecem inviabilizados mas que é aparente a necessidade de atenção. Esse cuidado, ao ser praticado por toda rede que orbita as relações de atenção diária como essas, possibilita que essas mulheres, em sua maior parte, vivam também para si mesmas, oportunizando um cuidado que não carregue o peso mas que seja regido apenaspelo amor imensurável ao outro. Estruturar a ideia de amparar aqueles que cuidam é fundamental para descomplexificar essa questão recorrente na realidade de tantas famílias, visto que promover um espaço simples de escuta pode traçar um caminhoque garante a manutenção de saúde mental para essas pessoas. Um gesto de afeto que traduz acolhimento e solidariedade com quem mais concede, genuinamente, essas virtudes ao outro.

Desse modo, Nossa casa convida a uma reflexão sensível das relações de cuidado que estruturam o cotidiano, colocando em evidência que não existe sustentação possível quando o ato de cuidar se dá à custa do apagamento de si. O cuidado, quando sustentado de forma solitária e silenciosa, perde o domínio do afeto para se tornar um espaço de desgaste e invisibilidade. Ao deslocar o olhar para quem cuida, a produção reforça a urgência de reconhecer essas pessoas como igualmente dignas de atenção, escuta e acolhimento, expondo uma realidade que necessita da construção inadiável de redes de apoio que valorizem aqueles que dedicam atenção. Assim, por meio do questionamento central que busca compreender quem cuida de quem cuida, o filme não apenas denuncia uma realidade negligenciada, mas também provoca para que a nossa perspectiva, enquanto sociedade, se decline a entender que o cuidado é somente sustentado quando compartilhado, coletivo e, sobretudo, recíproco.

Nossa casa integra uma tríade potente de produções que discutem, unido a outros dois projetos realizados pelo CAPS Fernando Diniz, a importância da promoção e manutenção do bem estar psíquico coletivo. De uma ponta, o Canta Caps, que apresenta a música e as atividades artísticas como ferramentas terapêuticas para pessoas com transtornos mentais, já na outra tem o Estica, Alonga Caps, que vincula a realização de atividades físicas, como alongamento e dança, ao tratamento de saúde mental. Dado que demonstra a relevância de estabelecer políticas de manutenção, investimento e capacitação dos Centros de Atenção Psicossociais (Caps), porque por meio desse espaço é possível viabilizar oportunidade de saúde e qualidade de vida para aqueles que são silenciados ou apagados pela percepção social. Acesse a plataforma Fioflix para assistir essas produções e mais de 500 filmes sobre ciência, saúde e tecnologia.