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Cinefluxo – exibição de filmes ao ar livre para população em situação de rua

A Craco Resiste surge no final de 2016, como reação aos anúncios de um novo ciclo de violência contra as pessoas desprotegidas socialmente da região da estação da Luz, na parte central da cidade de São Paulo. O então prefeito eleito, João Doria, iniciou um desmonte dos equipamentos públicos que trabalhavam no território com redução de danos e colocou em prática uma política focada na remoção das pessoas, com internações e prisões, principalmente as em situação de rua e com uso abusivo de drogas.
A região historicamente reúne populações pobres e negras e foi chamada de Boca do Lixo a partir da segunda metade do século 20. A partir da década de 1990, passou a ser conhecida como Cracolândia. A repressão policial sempre foi uma constante no território, que se realiza sob o pretexto do combate aos crimes, inicialmente a exploração da prostituição e em seguida do tráfico de drogas.
Em conjunto com a população do fluxo – aglomeração de pessoas em situação de rua e que consome drogas de forma abusiva – militantes de direitos humanos e trabalhadores dos serviços de assistência social e de saúde traçaram uma estratégia de atuação. O objetivo inicial era de manter presença no território coibindo e denunciando a repressão policial.
As atividades de lazer e cultura são uma forma de estabelecer vínculos com as pessoas do fluxo, além de proporcionar momentos de prazer e entretenimento. A população do fluxo tem acesso difícil à satisfação de necessidades básicas – banheiro, água potável, alimentação adequada, espaço de descanso. Assim como poucas opções de divertimento e distração. Apesar de ser sempre importante pontuar que, mesmo nas condições de vida precárias, há elementos de prazer além do consumo de drogas, como rodas de samba com instrumentos improvisados e música em caixas de som portáteis.
A projeção de filmes é uma possibilidade de cultura e lazer restrita pelo acesso econômico e até pela localidade. Ao ar livre, ela permite um momento de encontro e convergência de atenções.
As projeções
Para realizar as exibições é necessário um projetor, uma caixa de som portátil e uma tela. Ao longo do tempo, fizemos algumas variações do projeto, sendo o acesso ou não a um ponto fixo de energia questão muito importante. O nosso interesse é fazer a exibição o mais próximo possível do centro da aglomeração de pessoas em situação de desproteção social que é denominada no centro de São Paulo como Cracolândia.
O local desse fluxo de pessoas passou a variar devido às incursões policiais, assim, optamos por um desenho de equipamentos móvel, alimentado por uma bateria de carro que conta com um inversor para que a corrente esteja na voltagem adequada aos aparelhos.
Tudo é transportado em um carrinho de compras adaptado, que serve ainda como plataforma de apoio aos equipamentos. Pensamos em utilizar um projetor à bateria e uma caixa de som do mesmo tipo. Porém, como não temos recursos financeiros e usamos equipamentos doados e emprestados, isso não foi possível. Um dos ganhos de eficiência foi a utilização de um projetor que aceita diretamente HD ou pendrive, prescindindo de um computador, o que reduz a estrutura e aumenta a demanda de energia.
Água e Pipoca
O compartilhamento de alimentos também pode ser uma forma de transmissão de afeto e criação de vínculos. Por isso, temos feito junto com as exibições a distribuição de pipoca e água. A pipoca remete ao imaginário da projeção de cinema, além da facilidade de produção e de distribuição. O alimento é sempre bem-vindo entre a população desprotegida socialmente. No entanto, quando traz o caráter menos utilitário e tem outros elementos como sabor e remete ao lazer e prazer envolvido na exibição de cinema, ganha força como vínculo, se distanciando da simples caridade.
A água não é de fácil acesso à população que vive nas ruas. A cidade de São Paulo tem pouquíssimos pontos de água potável gratuita e pública. Por isso, é um cuidado elementar oferecer a água, compondo a redução de danos como cuidado à saúde e construção de vínculos na atividade.

O desmonte dos serviços de atendimento social e de saúde somado à violência policial na região central de São Paulo criaram a necessidade de aproximação com a população desprotegida socialmente. A violência policial constante, especialmente pela Guarda Civil Metropolitana, gera desconfiança em relação aos agentes públicos, afastando a população que dorme nas calçadas dos serviços de atendimento.
Por isso, a necessidade de projetos desvinculados do Poder Público, que possam se aproximar das pessoas, levando formas de cuidado, e também denunciar a violência institucional que vem sendo promovida.

A exibição de filmes ao ar livre não só proporciona a aproximação e a criação de vínculos, como também traz atividades fora do contexto de privação e violência, que é justamente o cenário que, para grande parte dessa população, leva ao consumo abusivo de substâncias.
Pensar em coisas de outro contexto e ativar a imaginação são ações que ajudam a reduzir a persistência dos ciclos em que há pouco autocuidado.
As possibilidades de vínculo se expandem ainda qualitativamente para os momentos de escolha dos filmes a assistir e também das discussões posteriores. As obras podem ser ainda uma maneira mais lúdica de levantar temas para debate.
A distribuição de água atende a uma demanda prática, reduzindo os impactos da falta de acesso à água potável. A pipoca, além de uma transmissão de afeto, revigoram a relação com a alimentação para além da ração mínima oferecida muitas vezes pelo Estado e por algumas entidades que praticam caridade com pouca reflexão crítica.
Todos esse efeitos têm sido observados durante as atividades.

O primeiro passo é observar o espaço. Identificar se há um local onde é possível realizar a atividade. Se é possível fazer a exibição e as pessoas assistirem com o mínimo de qualidade e conforto.
Em seguida, pensar a estrutura. Qual equipamento vai ser usado. Não é necessário investir dinheiro em uma solução perfeita, mas, usar a criatividade para entender quais pontos são indispensáveis e quais pontos podem sofrer adaptações para se encaixarem em limitações orçamentárias.
Sondar o público sobre o que ele gostaria de ver também é fundamental. Sem perder de vista que é possível propor algo que esteja fora do horizonte mais imediato. A curadoria se constrói em conjunto.
Teste os equipamentos e vá para a rua!

Principal

Daniel Mello

danielcdemello@gmail.com

militante

Coautores

Aline Yuri Hasegawa; Adriana Shiraishi Rollemberg Albuquerque; Daniel Carvalho de Mello

A prática foi aplicada em

São Paulo

São Paulo

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Endereço

Uma organização do tipo

Terceiro Setor

Foi cadastrada por

Daniel Carvalho de Mello

Conta vinculada

A prática foi cadastrada em

16 fev 2024

e atualizada em

16 fev 2024

Início da Execução

20/04/2023

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

Arquivos

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