favor seguir as recomendações abaixo:
A unidade de Consultório na Rua (CR) de Santo André foi implantada em 2013, sendo oriunda da equipe de Redução de Danos. Atualmente conta com uma Equipe de Modalidade III, composta por Médicos Clínicos, Terapeuta Ocupacional, Psicóloga, Assistente Social, Enfermeira, Técnica de Enfermagem e Agentes Redutores de Danos, funcionando de segunda a sexta-feira, das 08 às 17h, sob gestão da Coordenação da Saúde Mental do município.
Nos últimos nove anos, a equipe acompanhou 33 gestantes em situação rua.
A partir desses acompanhamentos, em 2019, a Equipe do CR de Santo André e o Hospital da Mulher “Maria José dos Santos Stein” repactuaram e fortaleceram o fluxo de atendimento e cuidado às gestantes em situação de rua no município, reafirmando que todas são consideradas gestantes de alto risco por apresentarem, no mínimo, alta vulnerabilidade social. Em 2021, através dos Encontros de Qualificação do Cuidado às Gestantes, este fluxo de cuidado foi novamente abordado, revisto e consolidado, envolvendo diversos atores como Atenção Básica, NASF, Apoio de Território, Saúde Mental e Hospital da Mulher.
Através do trabalho exercido pela equipe do CR, observou-se que muitas gestantes conseguiram sair da situação de rua, resgataram vínculos sociais e familiares, que se tornaram atores importantes nesse momento do exercício da maternidade. Outras mulheres optaram por permanecer na rua durante toda a gestação, desejando maternar o bebê, permanecendo sob o cuidado específico do CR. Nesse recorte, muitas aceitaram o acompanhamento de outras equipes de saúde do CAPS AD, Unidades de Acolhimento Adulto e das Unidades Básicas de Saúde, ampliando a rede de apoio.
Com o objetivo de garantir o Direito a Maternidade às mulheres em situação de rua, promovendo a saúde da mãe e do feto, através da integralidade do cuidado, do direito ao pré-natal, da equidade, respeitando o desejo de permanecer em situação de rua, o CR estabeleceu uma linha de cuidado às Gestantes em Situação de Rua, usuárias de substâncias psicoativas na cidade de Santo André, mantendo as perspectivas do cuidado em liberdade e da Redução de Danos.
Nos últimos dois anos, 2020 e 2021, a equipe do CR acompanhou duas gestantes que desejaram permanecer em situação de rua: Gestante “A” e Gestante “B”.
Para realizar esse acompanhamento, optaram em seguir os protocolos pré estabelecidos com os serviços da rede, mantendo o CR como ordenador do cuidado, vinculando as gestantes às Unidades de Saúde do território, para que tivessem uma retaguarda fixa e próxima, além de fazer o acompanhamento ginecológico e exames no Hospital da Mulher.
Gestante “A”:
Em 02.12.2020, realizamos o atendimento à Gestante “A”: mulher, negra, 36 anos, HIV +, acompanhada pelo Centro Médico de Especialidades Referência em Infectologia (CME) que estava em situação de rua. No dia 17.02.21, confirmou-se a gestação de sete semanas.
No início dos atendimentos a carga viral encontrava-se alta. Com a adesão da Gestante “A” à terapia farmacológica foi possível alcançar a carga viral “indetectável”. Para isso, em alguns momentos, o CR e o CME garantiram o acesso à medicação, entregando para ela no território de vida e circulação. Em torno da 34ª semana, a carga viral voltou a subir e prevenindo uma possível infecção fetal, a gestante foi internada a pedido do CME, no Hospital da Mulher e agendada uma cesárea. Todo o pré-natal foi realizado seguindo integralmente o protocolo do Ministério da Saúde, incluindo a realização da coleta de exames laboratoriais na rua.
Seguindo o protocolo do município e mantendo o CR como ordenador, a gestante recebeu cuidados do CAPS AD, ficando em Acolhimento Integral por quatro dias; da UBS; do CME; Hospital da Mulher; CREAS e Centro Pop, optando por permanecer em situação de rua e manifestando o desejo de maternar.
Gestante “B”:
Em 02.08.2021, a Gestante “B” foi atendida pela primeira vez: mulher, negra, 34 anos. Relatou estar gestante, apresentando o teste de gravidez, realizado pela ESF da UBS de sua referência territorial. O CR, com o apoio da ESF e do Hospital da Mulher, iniciou o pré- natal no primeiro trimestre da gestação.
O Projeto Terapêutico contemplou: as demandas psicossociais, o restabelecimento do vínculo familiar, a avaliação de riscos e danos, orientações e ações de saúde, tratamento da sífilis da mãe e do bebê, ultrassonografias, avaliações de desenvolvimento, entre outros cuidados. Durante o período, a Gestante “B” compartilhou o desejo de maternar sua filha, decidindo cessar o uso de substâncias psicoativas sem o apoio do CAPS AD, mas sob o acompanhamento do CR, enquanto reduzia lentamente o seu consumo até a interrupção total.
Todo o pré-natal, os diagnósticos e tratamentos ocorreram com a Gestante “B” ainda em situação de rua, pois não desejava sair do território em que vivia.
Através do relato de experiência, observa-se que as Gestantes “A” e “B” tiveram o direito a maternidade, com acompanhamento e cuidados garantidos, mesmo em situação de rua. Ambas tiveram seus partos realizados no Hospital da Mulher, em tempos de gestação favoráveis (a termo), sem apresentarem possíveis complicações congênitas devido ao diagnóstico de HIV ou de sífilis. A filha de “B” recebeu alta hospitalar nos braços da mãe e ambas foram conduzidas para a casa de familiares pela equipe multiprofissional do CR. O vínculo de A e B com a família foi reconstituído, durante o pré-natal. Positivamente, a equipe do CR teve o êxito em na realização da laqueadura de B, conforme seu desejo e solicitação.
Apesar de todo estigma preconizado em torno da mulher em situação de rua, com uso de substâncias psicoativas, que deseja exercer a maternidade, é possível realizar propostas de acompanhamento e cuidado, promovendo o direito e o acesso à saúde da mãe e do bebê.
São notórias as dificuldades impostas pela alta vulnerabilidade social, falta de uma rotina de auto cuidado e de acesso a alimentação e higiene, fragilidade dos vínculos afetivos, histórias marcadas por múltiplas violências e muitas outras destituições dos direitos de sujeitas no mundo, pode-se considerar que, apesar de não desejável, é possível realizar o pré-natal de gestantes em situação de rua, com o apoio e um fluxo bem estabelecido entre os serviços de saúde de base municipal.
Com esse público, sabe-se que há um percurso importante a percorrer que precisa começar em garantir o acesso ao planejamento familiar, contraceptivos, saúde sexual da mulher, respeito ao direito à maternidade, acesso ao pré-natal, parto humanizado, entre outros fatores importantes nessa etapa da vida da mulher. Todavia, observam-se as possibilidades a partir da construção de uma linha de cuidado, com diversos serviços e atores envolvidos, dos diferentes níveis de complexidades em saúde, entretanto com um trabalho horizontal, em conjunto e de portas abertas.
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