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O câncer do colo do útero (CCU) é um dos tumores mais prevalentes e letais entre mulheres na América Latina, representando um grave problema de saúde pública, especialmente em países de baixo e médio Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). No Brasil, estima-se 17.010 novos casos (2023-2025), sendo o quarto mais frequente, com disparidades regionais: Norte (20,48/100 mil) e Nordeste (17,59/100 mil) apresentam as maiores incidências, enquanto o Amazonas registra 40,18/100 mil, triplicando a média nacional (15,38/100 mil) (INCA, 2022). A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que 85% dos casos ocorrem em países em desenvolvimento, afetando principalmente mulheres jovens, socioeconomicamente vulneráveis e com barreiras ao acesso à saúde (OMS, 2020).
A etiologia do CCU está fortemente associada à infecção persistente por HPV oncogênico, principalmente os tipos 16 e 18, responsáveis por 90% dos casos (INCA, 2022). Fatores como baixa cobertura de rastreamento citopatológico, desinformação e limitações na organização dos serviços de saúde ampliam o risco. A prevenção baseia-se na vacinação contra HPV e no exame Papanicolaou, estratégias efetivas, porém com desafios na implementação, especialmente em regiões remotas, como a Amazônia, onde a Atenção Básica enfrenta dificuldades logísticas e socioterritoriais (Schweickardt et al., 2022).
A erradicação do CCU é viável mediante ampliação do acesso a medidas preventivas, fortalecimento do SUS e abordagens intersetoriais que considerem determinantes sociais. Este estudo discute as lacunas no controle da doença, destacando a necessidade de políticas públicas equitativas e adaptadas às realidades regionais.
Descreve a estratégia adotada no município de Manicoré (AM) para aprimorar o rastreamento do câncer do colo do útero, considerando os desafios territoriais, sociais e estruturais locais, com foco na ampliação do acesso ao exame citopatológico e na efetividade das ações da Atenção Básica frente à alta incidência da doença na região amazônica.
O município de Manicoré está localizado no estado do Amazonas, à margem direita do Rio Madeira, distante aproximadamente 390 km da capital Manaus. Com uma população estimada em 53.914 habitantes e densidade demográfica de 1,12 hab./km² (IBGE, 2022), caracteriza-se como um município extenso e pouco povoado. A rede de saúde local é composta por doze Unidades Básicas de Saúde (UBS), distribuídas na sede municipal, área ribeirinha, distrito de Santo Antônio do Matupi e uma unidade fluvial.
Visando aprimorar o rastreio, acompanhamento e encaminhamento de casos suspeitos de câncer do colo do útero (CCU), a gestão municipal incorporou, em junho de 2021, uma médica ginecologista à equipe da Atenção Básica (AB). Essa estratégia buscou otimizar o atendimento especializado para pacientes com exames colpocitopatológicos alterados, além de ampliar a cobertura do rastreio. Atualmente, as consultas são realizadas semanalmente, conforme agenda pré-estabelecida.
Para adequar o fluxo de trabalho, a equipe da AB passou por capacitação continuada, abordando o protocolo de encaminhamento, estratégias de prevenção do CCU e manejo intraunidade. Os encaminhamentos prioritários incluem mulheres com laudos positivos para lesão intraepitelial ou malignidade, além de casos que demandam investigação complementar.
Paralelamente, intensificou-se a busca ativa para coleta de exames citopatológicos, visando à detecção precoce do CCU. Essa abordagem integrada reforça a importância da educação em saúde no território, alinhando-se às necessidades locais e promovendo cuidado contextualizado (FERLA, 2021).
O câncer do colo do útero (CCU) é precedido por lesões precursoras induzidas pelo papilomavírus humano (HPV), classificadas como neoplasias intraepiteliais cervicais (NIC I, II e III). A detecção precoce dessas alterações permite curabilidade próxima a 100%, enquanto a progressão para carcinoma invasivo reduz drasticamente as chances de sucesso terapêutico.
No período de 2021 a 2024, foram realizados 14.108 exames citopatológicos em Manicoré (AM), dos quais 335 (2,4%) apresentaram alterações significativas (ASC-US, ASC-H, LSIL e HSIL). Em 2021, 13 pacientes foram submetidas à colposcopia com biópsia, sendo 8 (61,5%) encaminhadas para referência em Manaus e 5 (38,5%) mantidas em acompanhamento local. Em 2022, observou-se aumento para 38 biópsias, com 12 (31,6%) referenciadas. Nos anos subsequentes, houve incremento progressivo: 40 biópsias em 2023 (8 encaminhamentos, 20%) e 49 em 2024 (11 encaminhamentos, 22,4%).
A progressão para carcinoma in situ apresenta variação temporal conforme o grau da lesão: mediana de 58 meses para NIC I, 38 meses para NIC II e 12 meses para NIC III. A análise da faixa etária revelou ampla variação (19-88 anos em 2021-2022; 21-85 anos em 2023-2024), ultrapassando a recomendação do Ministério da Saúde (25-64 anos), indicando a necessidade de atenção a casos fora da população-alvo.
A biópsia, método padrão-ouro para diagnóstico definitivo, foi realizada no município, assegurando agilidade na conduta terapêutica. Casos confirmados de câncer ou de maior complexidade foram referenciados para Manaus. Esses achados reforçam a importância do rastreamento oportuno e do manejo adequado para interromper a progressão da doença.
A experiência de Manicoré demonstra que o segredo para transformar os índices de câncer do colo do útero em territórios desafiadores reside na descentralização da resolutividade, trazendo a especialidade e o diagnóstico (colposcopia e biópsia) para o seio da Atenção Primária. Ao reduzir a dependência de grandes centros e os custos com transporte, a gestão não apenas otimiza o orçamento público, mas garante o diagnóstico oportuno, fator determinante para a curabilidade da doença e para a dignidade das pacientes que vivem em áreas remotas.
Para replicar esse sucesso, o gestor deve focar na educação permanente das equipes e na integração do especialista como um braço de suporte à ponta, e não como um serviço isolado. Fortalecer a busca ativa e adaptar os fluxos à realidade geográfica local são passos essenciais para consolidar uma linha de cuidado ágil e humana, provando que é perfeitamente possível oferecer uma assistência de alta complexidade dentro da rede básica, salvando vidas onde o sistema mais precisa ser presente.
Av. Getúlio Vargas, 566 - Santa Luzia, Manicoré - AM, 69280-000, Brasil
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