Ludicidade na odontologia: apoio a famílias vulneráveis e fortalecimento do cuidado infantil

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Camila dos Santos Barros

Camila Barros

Camila dos Santos Barros

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A implementação do espaço lúdico na unidade de Saúde Bucal objetiva ampliar a adesão ao tratamento e reduzir o absenteísmo de usuários adultos que não dispõem de rede de apoio familiar. A iniciativa visa mitigar a tensão ocupacional da equipe assistencial e prevenir intercorrências no ambiente clínico com uma criança sem supervisão direta no setor odontológico, garantindo a segurança do paciente e de seu acompanhante e a otimização do tempo operatório.
Estruturado com recursos endógenos da Atenção Primária à Saúde (APS), o projeto foca na sustentabilidade financeira e na manutenção a longo prazo, utilizando a ludicidade como ferramenta de condicionamento comportamental pediátrico. Além de transformar a experiência odontológica infantil por meio de estímulos familiares e acolhedores, o espaço funciona como um cenário estratégico para ações contínuas de promoção da saúde e prevenção de agravos bucais no território.
O espaço lúdico foi estruturado com mobiliário adaptado e recursos pedagógicos — como ilustrações para colorir e materiais de desenho — selecionados criteriosamente para atender às diversas faixas etárias da infância, observando-se rigorosamente a segurança da criança, visando evitar acidentes. Complementam o ambiente ferramentas de macroeducação em saúde bucal, incluindo macromodelos e pelúcias terapêuticas, que despertam a curiosidade e desmistificam o cenário odontológico, tornando a experiência dinâmica.
A implantação iniciou-se de forma incremental, com disponibilização de mesa e cadeiras com materiais de desenho sob vigilância direta da equipe de Saúde Bucal, visando viabilizar o atendimento de adultos desprovidos de rede de apoio familiar. A adesão da comunidade foi progressiva: à medida que a confiança no serviço crescia, o espaço era qualificado mediante doações de insumos lúdicos e materiais de educação.
Sob a supervisão indireta da equipe auxiliar, sem que estes tenham que interromper suas atividades, o espaço permite que o acompanhante receba o atendimento clínico com a devida concentração e qualidade, mitigando riscos de acidentes inerentes ao ambiente odontológico. Simultaneamente, a estratégia promove a ambientação e o condicionamento comportamental da criança. Ao identificar objetos familiares e lúdicos, rompe-se a barreira do medo — frequentemente alimentada por experiências prévias de dor ou estigmas culturais sobre o “dentista” — facilitando a aceitação do tratamento.
No âmbito operacional, o recurso auxilia o profissional durante as etapas burocráticas (prescrições e orientações), enquanto o uso de reforços positivos (entrega de desenhos e balões de luva) consolida memórias afetivas favoráveis.
Em suma, a implementação deste espaço não apenas viabiliza um atendimento infantil fluido e atraumático, como também amplia a resolutividade da APS ao reduzir as falhas por manejo comportamental. O fortalecimento do vínculo terapêutico minimiza a resistência dos responsáveis, favorecendo o acompanhamento longitudinal e o controle das doenças bucais no território. Paralelamente, a estratégia remove barreiras de acesso para adultos sem rede de apoio, garantindo a continuidade de seus tratamentos e a redução de demandas agudas. A longo prazo, essa abordagem integral reflete-se na melhora dos indicadores epidemiológicos, tanto de cárie quanto doença periodontal.

Ao iniciar as atividades na Clínica da Família, observei uma barreira significativa no acesso de adultos à saúde bucal: a ausência de rede de apoio para o cuidado dos filhos durante as consultas. Essa configuração gerava um cenário de risco assistencial crítico, fragmentando a atenção do profissional entre o ato operatório e a vigilância da criança em um ambiente insalubre para o público infantil.
O consultório odontológico apresenta múltiplos riscos à integridade física da criança, incluindo exposição a materiais perfurocortantes, insumos químicos com risco de ingestão, resíduos biológicos contaminados e mobiliário com potencial de quedas. Somado a isso, o layout da unidade (cadeiras sem divisórias físicas) e o excesso de estímulos sensoriais dificultavam o manejo comportamental pediátrico, dispersando o foco do paciente infantil e comprometendo a ludicidade do atendimento.
A urgência na implementação deste projeto consolidou-se após um incidente crítico durante um procedimento cirúrgico. Devido à alta complexidade do ato operatório, que demandava atenção integral da cirurgiã e da auxiliar, uma criança desacompanhada de rede de apoio acessou inadvertidamente o descarte de resíduos infectantes. Este evento evidenciou a vulnerabilidade do layout assistencial e a precariedade da segurança infantil no ambiente clínico odontológico. A necessidade de garantir a integridade física dos dependentes, sem comprometer a qualidade técnica do atendimento ao adulto, tornou-se o motor para a reestruturação lúdica e segura do espaço.

Os resultados foram observados a longo prazo de maneira nítida na rotina do setor de saúde bucal:
* Maior adesão do atendimento pediátrico num território onde a doença cárie tem grande impacto na infância;
* Menor sobrecarga da equipe auxiliar durante atendimento de adultos com crianças pequenas;
* Melhora na fluidez do atendimento e menor tempo de consulta de mães acompanhadas de seus filhos.
Ao estabelecer essa relação de confiança, os profissionais favorecem a corresponsabilização do cuidado, fortalecem a adesão às orientações e contribuem para a construção de trajetórias de saúde mais humanas e resolutivas, portanto é possível sugerir que possibilitou a criação de vínculo com as famílias o que é essencial para garantir um cuidado integral e contínuo.
Ao fortalecer a relação profissional usuário, promoveu-se o engajamento das famílias nas orientações e ações de saúde, tornando o cuidado mais humano e eficaz. Essa aproximação foi decisiva para a criação de vínculos sólidos, garantindo que o suporte às famílias sem rede de apoio se transformasse em um pilar para a manutenção do cuidado integral e longitudinal, preconizado pelas diretrizes do SUS.
O estabelecimento desse vínculo de confiança fomenta a corresponsabilização do cuidado e potencializa a adesão terapêutica, culminando em trajetórias assistenciais mais humanizadas e resolutivas.
Tal cenário evidencia que a iniciativa fortaleceu o vínculo familiar, condição indispensável para a viabilização de um cuidado contínuo, humano e pautado na integralidade da saúde bucal.

A relevância desta experiência transcende a estrutura física do consultório; ela reside na universalidade dos desafios enfrentados nas Clínicas da Família, onde a ausência de rede de apoio é uma barreira cotidiana. A execução simplificada contrasta com a magnitude dos resultados, impactando positivamente a segurança da equipe e a dignidade da população. Mais do que uma adequação ambiental, esta iniciativa é um exercício de escuta sensível às necessidades do território, visando um cuidado humano, integral e resolutivo. Trata-se de garantir a continuidade do cuidado e a equidade no acesso, reafirmando o compromisso de um SUS para todos — especialmente para aqueles que mais precisam. O projeto carrega, ainda, um potencial de expansão contínuo, como a futura implementação de suportes sensoriais para pacientes neurodivergentes (TEA), consolidando uma saúde pública verdadeiramente inclusiva.

autor Principal

Camila dos Santos Barros

camila_profissional@hotmail.com

Cirurgiã-Dentista da Estratégia de Saúde da Família

Coautores

Camila dos Santos Barros; Larisse Miranda Freitas; Priscilla Borges Pinheiro

A prática foi aplicada em

Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

Sudeste

Esta prática está vinculada a

Clínica da Família Medalhista Olímpico Ricardo Lucarelli Souza

Cf Medalhista Olimpico Ricardo Lucarelli Souza Ap 10 - Rua Frei Caneca - Centro, Rio de Janeiro - RJ, Brasil

Uma organização do tipo

Instituição Pública

Foi cadastrada por

Camila dos Santos Barros

Conta vinculada

26 mar 2026

CADASTRO

09 abr 2026

ATUALIZAÇÃO

01 ago 2022

inicio

fim

Condição da prática

Andamento

Situação da Prática

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